• Paulo Vinicius

Resenha: "Leviatã Desperta" (The Expanse vol. 1) de James S.A. Corey

Como uma estranha nave camuflada e uma garota desaparecida podem estar ligados? Em uma trama envolvendo interesses de exploração espacial, preconceito entre facções e uma guerra iminente James Holden e o detetive Miller se envolverão em algo muito acima de suas expectativas.

Sinopse:


Neste thriller que deu origem à série The Expanse, duzentos anos se passaram desde a expansão para o espaço, e a humanidade vive um momento crítico em que a população ocupa diversos planetas e se divide em interesses conflitantes. Quando um relutante capitão de nave e um detetive decadente se envolvem nas investigações do desaparecimento de uma garota, o que eles descobrem leva nosso sistema solar à beira de uma guerra civil e expõe a maior conspiração da história humana. ​




A colonização do espaço é algo que sempre povoou a mente humana. Nessa última década tem surgido muitas obras de ficção científica tratando desse tema. Como o ser humano vai se adaptar ao espaço? Que tipos de relações surgirão? Estamos sozinhos no espaço? James S.A. Corey (pseudônimo usado por Ty Franck e Daniel Abraham) criaram uma história que nem se passa em um futuro tão distante e nem na atualidade. Fica ali no meio. Os seres humanos colonizaram Marte, usam o Cinturão de Kuiper para explorar minerais e começaram sua expansão pelos planetas exteriores. Os conflitos que parecem ter sido deixados para trás apenas mudaram de endereço: surgem tensões entre os avançados colonizadores em Marte, os trabalhadores braçais do cinturão e os distantes colonos exteriores. Tudo isso dá um caldo incrível que os autores vão saber explorar e criar uma história interessante repleta de intrigas e mistérios.

A obra é uma representante da nova space opera que vem ganhando cada vez mais espaço com outros trabalhos como Justiça Ancilar, de Ann Leckie e A Longa Viagem a um Pequeno Planeta Hostil, de Becky Chambers. O foco das histórias não é tanto na construção de mundo ou na mera aventura espacial, mas nas relações humanas, na maneira como o ser humano busca ampliar seus horizontes. É justamente isso que vamos ver na escrita de Corey ao longo dessas mais de seiscentas páginas: dois personagens tentando encontrar a si mesmos em um mundo em uma inexorável mutação. A temática da exploração espacial e da viagem ao desconhecido está ali, mas ela não é o mais importante. Na história, por exemplo, vemos como a desigualdade social continua presente e o que o homem apenas encontrou novas formas de implementá-la. A intolerância também está presente em um cenário em que uns são mais desprivilegiados do que outros. Onde a ambição de poucos consegue destruir a vida de muitos.

"O detetive Miller voltou a se sentar na cadeira estofada, sorrindo, gentil e encorajador, enquanto rabiscava para encontrar algum sentindo na história da garota."

Para falar da escrita, eu preciso separar a escrita dos autores e talvez esse seja um dos pontos mais sensíveis da narrativa. Digo isso porque é bem claro a diferença entre os dois Pontos de Vista (POVs) presente aqui. Antes de falar mais especificamente, é preciso apontar que a narrativa está em terceira pessoa, em um discurso direto bem objetivo e simples de acompanhar. Os capítulos são bem curtinhos, alternando entre os pontos de vista bem rapidamente o que dá uma velocidade incrível à leitura. Existe uma alternância simples entre Holden e Miller, os protagonistas da história. Em determinados momentos eu achei até que não havia necessidade de criar capítulos específicos para ambos. Era possível manter o mesmo capítulo fazendo uma alternância no mesmo capítulo. O resultado teria sido igual. A trama, no geral, segue um ótimo padrão de momentos explosivos e de calmaria. Estes altos e baixos contribuem para manter a expectativa do leitor lá em cima. Consigo citar uns três ou quatro momentos muito maneiros espalhados equilibradamente pelo livro.  

É muito legal falar dos autores separadamente porque parece que eles se ligam aos seus personagens. Holden é um idealista; aquele típico personagem desbravador do espaço, justo, embora falho. É um cara que já passou por poucas e boas em sua vida e estava em uma nave transportadora de gelo chamada Canterbury. Logo no primeiro capítulo ele presencia sua vida virando de pernas para o ar quando a nave onde ele trabalhava explode por causa de uma nave desconhecida. O personagem vai se envolver em uma série de problemas a partir daí que testarão os limites da sua integridade e a sua relação com sua tripulação. Vamos acompanhando o amadurecimento do personagem ao longo da narrativa e o quanto ele vai se colocando em uma posição de protagonismo sem fazer muito esforço.

Porém, os capítulos de Holden às vezes são muito cansativos. Ty Franck é o responsável por estes capítulos e o autor é o criador real do universo de The Expanse. Então muitas vezes os capítulos do Holden são dedicados a desenvolver o universo narrativo. Por essa razão em vários momentos eles possuem um caráter muito expositivo e descritivo. Enquanto os capítulos de Miller são mais dramáticos e passam bem rápido, os de Holden são mais travados e só ficam mais interessantes quando o autor se dedica a explorar as relações entre Holden, Amos, Alex e Naomi. Aliás, até a dinâmica com Miller depois é genial porque temos um contraste absoluto entre personalidades.  

“Muita gente afirma acreditar em coisas. ‘Família é o mais importante’, mas irão queimar 50 dólares com uma prostituta no seu dia de pagamento. ‘O país primeiro,’ mas sonegam impostos. Não você. Você diz que todo mundo deve saber de tudo, e por Deus, você coloca dinheiro (aposta) em suas palavras.”

Já Miller é um policial que trabalha para uma empresa privada em Ceres, parte do cinturão. Sendo um cinturino, ou seja, um ser humano ligeiramente modificado por conta de sua vida em gravidade baixa, ele tem uma outra forma de pensar. Mais cético e insosso, ele enxerga o mundo em tons de cinza. Para mim, ele era o cara de Ceres; aquele que entendia como as coisas realmente funcionavam e que seria capaz de entender todo o ambiente ao seu redor apenas pelo gestual das pessoas. Porém, por conta de tudo o que ele já viu, ele consegue se autossabotar e tomar decisões completamente repreensíveis. Para um idealista como Holden, Miller é tudo o que ele visa combater. E, no entanto, Miller é um mal necessário. O pior é que o personagem tem consciência do erro de suas ações e sofre com isso, porém sua forma de pensar acaba sempre sendo a correta em um mundo que caminha para uma guerra sem limites.

Daniel Abraham impõe uma escrita noir em um ambiente espacial. Absolutamente genial. Concordo com aqueles que traçam semelhanças entre Abraham e Martin porque ambos tem formas parecidas de pensar a construção de personagens. Essa forma cinza de enxergar o mundo combina com um universo marcado por grandes explorações que no fundo controlam tudo o que está acontecendo entre as colônias. Admito ter um fraco por essa forma de abordar o mundo; apesar de eu ser um cara que é fissurado em space opera. Daniel Abraham conseguiu me conquistar com esse personagem e com a forma mesmo com a qual ele abordou o universo criado pelo seu parceiro.

Enfim, Leviatã Desperta é um livro delicioso de ser lido. Uma nova maneira de abordar a exploração espacial, mas a partir de um ponto de vista muito humano ao redor de todo o processo. Dê uma oportunidade à série criada pelos dois autores e eu tenho certeza que você será cativado por uma escrita engenhosa, personagens intrigantes e um universo em expansão.  


Ficha Técnica:

Nome:Leviatã Desperta Autor: James S.A. Corey Série: The Expanse vol. 1 Editora: Aleph Gênero: Ficção Científica Tradutora: Marcia Blasques Número de Páginas: 672 Ano de Publicação: 2017


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