• Paulo Vinicius

Kubo e as Cordas Mágicas

Conheçam a história de Kubo, um jovem menino que toca um instrumento de corda (um shamisu) na aldeia e tem uma habilidade incrível para contar histórias. Sem falar nos poderes dele de encantar papéis. Mas, ele esconde um terrível segredo: forças malignas estão atrás de seu outro olho (um já foi arrancado) e ele precisa se esconder da luz da lua.

Histórias tem o poder de encantar. Desde jovens até adultos, uma boa história consegue nos levar a lugares distantes, a reinos inimagináveis ou conter segredos fantásticos. Essa é a premissa de Kubo e as Cordas Mágicas, uma produção americana de 2016 cujo roteiro foi criado por Shannon Tindle e Marc Haimes. Mas, o mais impressionante na narrativa é como o protagonista acaba se tornando parte da história que ele mesmo criou. E ao participar dessa história, ele mesmo vai se tornar uma lenda e salvar a si mesmo das forças do mal.


Kubo é um menino que vive junto de sua mãe em uma caverna. No início da história, vemos que sua mãe, Sariatu, está fugindo de alguma coisa que não sabemos. Ela acorda em uma ilha, muito enfraquecida onde ela e Kubo (que havia perdido um olho durante a fuga) vivem. A saúde de Sariatu está bem mal e ela tem momentos em que ela simplesmente apaga e não responde a estímulos. Em outros momentos ela é uma mãe amorosa e muito protetora. Kubo acaba ficando responsável por conseguir comida para ambos e passa a usar o seu shamisu na pequena vila próxima para ganhar uns trocados. Sua habilidade de encantar papéis é muito útil também durante suas performances, atraindo a atenção de toda a vila. Mas, Sariatu dá um aviso a Kubo: ele não pode ficar na vila até tarde. Caso ele esteja na vila até um horário mais avançado, as forças malignas que perseguem os dois podem localizá-los e capturá-los.


Origami e Shamisu


O tema da contação de histórias tem estado na moda nos últimos tempos. Vários filmes têm se debruçado sobre essa temática e fazendo uma espécie de metaleitura sobre o papel do storyteller. O que diferencia Kubo e as Cordas Mágicas de outras animações do gênero é o emprego de duas propostas: o ventriloquismo (na forma da magia do personagem que dá essa ideia do ventríloquo) e a música como parte integrante de uma narrativa. Ambos nos fornecem uma outra visão sobre este processo. Os meus momentos favoritos da animação são os de Kubo na vila contando sua história fantástica para os aldeões. Ele começa sempre com um público pequeno e este vai crescendo à medida em que a história vai adotando outras cores. E o público também acaba ajudando na composição da narrativa já que o contador de histórias leva-a até onde o público deseja, sempre mantendo a essência no fundo.

Outro elemento importante ainda desta parte de contação de histórias é o fato de Kubo nunca terminar as suas narrativas. Como ele tem um modo de vida que não o deixa totalmente feliz, além de sentir saudades de seu pai, senti que Kubo não quer terminar a narrativa de Hanzo, o samurai guerreiro. O protagonista de suas histórias é um samurai vermelho que precisa derrotar vários adversários para salvar o mundo. Mas, ao mesmo tempo, Hanzo é o nome de seu pai. As histórias que ele conta na cidade são baseadas em histórias de ninar que sua mãe lhe contava todos os dias. Era a única forma de Kubo poder conhecer o seu pai: através destas pequenas narrativas. O protagonista acaba montando suas próprias versões delas e colocou encanto, ação e coragem em todas elas. Porém, esta situação de ele nunca terminar sua narrativa o perseguirá ainda e terminá-las é um dos pontos importantes para o seu crescimento como pessoa.


Vou aproveitar e comentar um pouco sobre a trilha sonora já que ela se liga intrinsecamente com a história. Ela é linda. Os produtores foram buscar inspiração justamente nas canções tocadas no shamisu. Boa parte delas são músicas melancólicas devido à situação do protagonista e à jornada que ele empreende. Mesmo assim, elas são repletas de sentimento e sensação. As partes de ação possuem canções mais aceleradas. Elas não são excepcionais, mas conseguem cumprir o objetivo de passar tensão numa boa. Até tentei buscar a trilha sonora no Spotify porque realmente vale a pena. Gostei também de como música e encenação se mesclam para produzir algo único.


A jornada de um menino


Os personagens da animação são interessantes e repletos de personalidade: temos o Macaco e o Besouro. O Macaco é um ser que foi animado pela mãe de Kubo durante uma situação trágica. Uma espécie de ícone protetor do jovem menino. O Macaco é um ser preocupado, estrito e que deseja proteger o menino a todo custo. Em alguns momentos sua preocupação beira a paranoia e incomoda realmente Kubo. Já o Besouro é encontrado em uma caverna e parece ter algum tipo de envolvimento com o pai do protagonista. Meio atrapalhado, Besouro compensa com muita coragem e dedicação. O grupo começa como um bando de estranhos um para o outro, mas, aos poucos, vão surgindo laços de amizade e união entre eles. O produtor foi muito bem sucedido na capacidade de trabalhar as motivações e objetivos de todos os personagens. Senti que esse desenvolvimento foi bem redondinho e não deixou nada a desejar.

A gente tem uma leve inspiração em clássicas histórias de jornadas. É preciso buscar artefatos que aumentem os poderes do personagem e lhe dê condições para enfrentar os vilões da narrativa. Cada um dos artefatos envolve algum tipo de teste ou provação para que alguma qualidade seja alcançada ou ressaltada ou algum medo seja superado. Tirando o segundo teste que é algo bastante criativo, aqui os diretores não inventaram a roda. Ficaram no básico e este se provou muito bom em um âmbito geral. Nem sempre há a necessidade de ser criativo demais; ainda mais em uma narrativa que é voltada para todas as idades.


Os antagonistas funcionam bem. Existe uma discussão filosófica que é trabalhada apenas de forma superficial: devem os seres com poderes mágicos interferir ou se misturar com o mundo dos homens? Não entendi exatamente o motivo de os seres da lua desejarem os olhos de Kubo. Percebi que tinha a ver com o aumento dos poderes do ancião, mas se ele é tão poderoso assim, por que precisaria dos olhos de uma criança? Enfim, a narrativa segue com essa discussão entre o mágico x o mundano. E o quanto os sentimentos não são importantes para seres que transcendem a compreensão humana. Também uma discussão bem comum, mas executada de forma apropriada. Acredito que um tema clichê possa render algo positivo, quando o diretor cria uma história bacana e coerente.


A animação é toda feita em computação gráfica (em CG), mas eu particularmente gostei. Muitas das cenas são fluidas e dinâmicas. É diferente de A Lenda dos 108 que eu vi há algum tempo atrás com personagens que pareciam robóticos. Os cenários são lindos e bem animados com o fundo tendo uma grande importância no resultado final. Por exemplo, na aldeia os personagens se movimentam seja aqueles na frente ou no fundo. Os efeitos de habilidades mágicas também ficaram bonitos, chamativos e coloridos. Os movimentos dos personagens parecem menos artificiais e dão personalidade a eles. Os momentos climáticos são incríveis; não tem como não lembrar de duas cenas em particular, a luta contra o gigante e depois o dragão. Os personagens possuem boas expressões faciais e eles conseguem passar bem os seus sentimentos através delas.


A animação é divertida e criativa. Não é nenhum campeão de audiência, mas é uma boa diversão para toda a família. Ressalta a importância de boas histórias além de mostrar os laços que unem uma família. O amor de Sariatu por Kubo é enorme, e ela é capaz de enormes sacrifícios em nome de seu filho. E Kubo é uma criança que precisa ganhar coragem e se inspirar em seus pais para poder superar os seus desafios.

Ficha Técnica:


Nome: Kubo e as Cordas Mágicas

Diretor: Travis Knight

Produtores: Arianne Sutner e Travis Knight

Roteiristas: Marc Haimes e Chris Butler

Autores: Shannon Tindle e Marc Haimes

Estúdio: Laika

País de Origem: EUA

Tempo de Duração: 102 min

Ano de Lançamento: 2016


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