• Paulo Vinicius

Resenha: "História da Sua Vida e outros Contos" de Ted Chiang

Ted Chiang nos apresenta diversas histórias colocando nossas formas de comunicação e como nos expressamos. Temos uma estudiosa de linguística tentando decifrar um idioma alienígena, um dos construtores da torre de Babel, uma tecnologia que permite com que não vejamos mais a beleza ou a feiura e muitos outros.

Sinopse:


Uma das principais vozes da ficção científica contemporânea pela primeira vez publicada no Brasil.


Um dos autores de mais destaque no cenário da ficção científica, Ted Chiang pode ser descrito como um escritor pouco prolífico: tem apenas quinze trabalhos publicados, entre contos e novelas curtas. A pequena produção contrasta com sua expressiva quantidade de premiações: os oito textos reunidos emHistória da sua vida e outros contos ganharam no total nove importantes prêmios, dentre eles Nebula, Hugo, Locus, Sturgeon, Sidewise e Seiun.

Publicadas originalmente em volumes diversos, as narrativas de Ted Chiang estão pela primeira vez reunidas em uma coletânea. Entre as histórias dotadas de rigor científico, humanidade e lirismo estão “A torre da Babilônia”, na qual um minerador sobe a famosa torre com a missão de escavar a abóbada celeste; “Divisão por zero”, uma reflexão precisa e devastadora sobre o fim da esperança e do amor, e “História da sua vida”, na qual uma linguista aprende um idioma alienígena que modifica sua visão de mundo.


Com uma prosa límpida e ideias às vezes desconcertantes, Chiang comprova seu inegável talento para a boa ficção científica: a capacidade de contar uma história humana, extremamente bem escrita, na qual a ciência funciona como expressão dos questionamentos mais profundos enfrentados pelos personagens. Um livro repleto de ideias originais e passagens inesquecíveis.


Ted Chiang é um dos mais renomados e premiados escritores de ficção científica da atualidade.


O conto que dá título ao livro, “História da sua vida”, foi adaptado para o cinema sob o título A Chegada,numa produção de Denis Villeneuve, estrelada por Amy Adams e Jeremy Renner, e indicada aos prêmios de Melhor Roteiro e Melhor Direção no Festival de Veneza e selecionada como o filme de abertura do Festival do Rio. A Chegada estreia no Brasil em grande circuito em fevereiro de 2017.



É difícil para mim entender uma coletânea como algo muito acima da média. Geralmente em coletâneas, temos histórias que gostamos e outros que não gostamos tanto. São sempre estes altos e baixos. Mas, Ted Chiang conseguiu me surpreender com uma coletânea que de oito contos somente dois não me agradaram tanto. É um percentual muito alto, o que me faz pensar em algo próximo do perfeito. Duvidam? Basta eu colocar para vocês que boa parte destas narrativas poderiam se transformar em filmes muito facilmente. Aliás, o conto que deu origem ao filme A Chegada não teria sido a minha primeira escolha. Isso demonstra a força que os contos desta coletânea possuem.


A comunicação humana


Para fins desta resenha pretendo me focar em apenas três histórias porque considero a exploração dos mesmos pelos leitores um dos principais atrativos da coletânea. E não tem como não começar e não falar do História da Sua Vida. Certamente é o conto que possui mais expectativa por ter sido transformado em filme. E é um conto bastante emocional ao nos contar a história de Louise, uma especialista em linguística que é convocada pelo governo para ajudar a decifrar a linguagem dos heptápodes, alienígenas que fizeram contato com os seres humanos. Acompanhamos sua pesquisa em decifrar formas de compreender uma linguagem tão alienígena e quais os artifícios que ela emprega para alcançar o seu objetivo. O governo deseja estabelecer relações de troca com eles, mas vamos percebendo o quanto vamos esbarrando na mentalidade e nos valores estranhos dos heptápodes.


Ao mesmo tempo, acompanhamos uma narrativa caleidoscópica apresentando momentos da filha de Louise que aparentemente morre aos 25 anos (descobrimos isso na primeira interação). Esses momentos entre mãe e filha são contadas de maneira espaçada, sem uma ordem cronológica específica. Não há muitas relações a serem estabelecidas entre a narrativa de mãe e filha e a narrativa principal. Pelo menos não que eu tenha captado diretamente. A relação que se estabelece vai ser entendida lá pelo final do conto quando percebemos um plot twist danado que chega até o leitor. Me recordo de que quando eu fui juntando as peças, meu queixo caiu, tamanho o choque da revelação. O mais interessante é o fato de a narrativa da mãe ser contada em segunda pessoa, com o leitor sendo referido como a filha da protagonista.

"[...] A facilidade de aprendizado não é a força primária na evolução das línguas. Para heptápodes, a escrita e a fala podem ter papéis culturais ou cognitivos tão diferentes que faça mais sentido usar línguas separadas do que usar formas diferentes da mesma."

O tema que mais me chamou a atenção foi a história de nossas vidas. Ter a capacidade de enxergar o passado e o futuro é algo vedado aos seres humanos. Nossas vidas são tão pequenas diante de uma realidade cósmica tão maior que o fato de conhecer apenas nos faria mal. Não estamos preparados para possuir uma capacidade precognitiva tão potente. Isso porque não aceitamos o nosso lugar no cosmos. Algo que é colocado nestas pequenas inserções de Louise são os breves momentos de uma vida. Todos eles compõem uma rica tapeçaria que nos traz bons e maus momentos. Todos eles são fundamentais para nós e só podemos vivenciá-los uma vez. A vida não é apenas formada de grandes momentos e grandes conquistas. Chiang coloca isso na forma dos valores estranhos dos heptápodes. Eles não se importam com trocas efusivas ou relações comerciais; querem observar e estudar os diversos povos que habitam o universo. Para os seres humanos que se ligam em trocas e valores, eles são hereges e incompreensíveis. Mas, quando cruzamos esta característica deles com a história da filha de Louise, tudo fica mais claro. O final é lindo no sentido de o quanto ele frita o nosso cérebro.

O que é a beleza?


"[...] Um caliagnosíaco percebe rostos perfeitamente bem; ele ou ela pode dizer a diferença entre um queixo pronunciado e um reentrante, um nariz reto e um torto, pele sem marcas e pele manchada. Ele ou ela não experimenta nenhuma reação estética a essas diferenças."

O conto Gostando do que Vê: Um Documentário também me impactou bastante. Nele temos a criação de um dispositivo chamado cali que impediria as pessoas de discernir rostos bonitos e feios. Temos uma espécie de documentário que reporta a implementação da cali em todos os alunos na Universidade de Pembleton. Vemos o esforço da empresa que deseja difundir a cali para buscar apoio nos alunos. Vários alunos são entrevistados e somos colocados diante daqueles que são contra e aqueles que apoiam a iniciativa. Cada um deles argumenta seus motivos para tal. "Especialistas" também são consultados para comentarem sobre quais os impactos éticos e emocionais nas pessoas de não serem capazes de discernir beleza de feiura.


Concomitante temos a narrativa de Tamera que usou cali desde que era criança. Seus pais queriam que ela pudesse estudar em relativa paz e não fosse alvo de julgamentos e brincadeiras maldosas da parte de colegas. Mas, Tamera se revolta contra isso no final de sua adolescência e acaba desativando o equipamento. Vemos a personagem se reajustando a um novo mundo que se abriu para ela, com pessoas belas e feias, precisando lidar com os julgamentos e as recriminações. A personagem divide o seu espaço com outras que ainda permanecem com a cali e a partir disso vemos as diferenças de pontos de vista dela.


Este conto é uma bela discussão sobre os nossos padrões de beleza em vigor na atualidade. E em como determinados benefícios só são obtidos por pessoas privilegiadas. Agora, ao mesmo tempo, retirar completamente isso da pauta também não serve como uma evolução de caráter. Isso porque a superação da avaliação de padrões de beleza vem a partir de um amadurecimento da própria pessoa. É um desenvolvimento que parte de dentro. A forma como Chiang aborda o tema de nenhuma forma é proselitista. Ele não assume um lado, mas quem ler o posfácio vai entender que ele seria favorável a algo assim. O que eu achei que eleva o tom do conto é como ele insere questões como reconhecimento étnico e o interesse da indústria cosmética nas discussões. No primeiro caso, com a cali se tornando responsável por desabilitar o reconhecimento étnico, o que seria uma versão tecnológica de preconceito. No segundo caso, com estas empresas buscando criar obstáculos para a introdução da tecnologia já que isto prejudicaria os seus interesses.

Justiça divina


O Inferno é a Ausência de Deus é outro conto muito importante. Ele faz um debate muito bom sobre se o Deus cristão seria justo ou se a justiça é algo inexorável. Somos colocados diante de Neil Fisk, um homem que busca a justiça de Deus. Ele sofre de um mal que transformou suas pernas em tamanhos desiguais. Algo que se desenvolveu desde a sua gestação. Ele teria perdido sua esposa durante a aparição de um anjo do Senhor. Sua esposa dirigia o carro quando um anjo apareceu e espalhou sua luz divina em todas as pessoas próximas. Ela perde o controle do carro e sofre um acidente fatal. A partir de então incia-se uma busca de Neil em grupos de apoio para entender como tocar sua vida adiante.


Mas, temos também a narrativa de duas outras pessoas: Janice e Ethan. Janice sofreu com problema de paralisia nas pernas desde que ela era pequena. Mesmo assim, ela se sentia abençoada e apresentava a sua história de superação a todos que ela palestrava. Um dia ela é abençoada pelo anjo Barakiel e recupera o movimento das pernas. A partir de então sua mensagem perde o efeito porque ela não consegue mais alcançar as pessoas efetivamente. Seu coração não consegue entender se sua cura é uma recompensa pelos seus esforços ao longo dos anos ou apenas um novo obstáculo a ser superado. Já Ethan nunca foi abençoado. Ele sempre se espelhou nas palavras de pregadores e acabou buscando Janice para ajudá-la em sua jornada por si mesma. Ethan entende que sua missão é o de ser um suporte para ela. Talvez com isso ele seja abençoado por anjos.


Este é um conto que vai despertar sentimentos diferentes no leitor. Como o próprio Chiang aponta nos seus comentários sobre ele, esta é uma história que se associa à narrativa do Livro de Jó. Este é um personagem que tem tudo o que é importante em sua vida retirado por Deus à medida em que ele precisava superar o que ele colocava em seu caminho. No final, ele tem sua família devolvida a ele por Deus, mas somente quando ele não tinha mais nada a ser retirado. Mas, imaginem se essa devolução não tivesse sido feita? O que é a justiça divina? Entendemos que tudo na vida é passível de uma troca. Fazemos boas ações porque desejamos ir para o céu. Se pecamos, recebemos a danação. Mas, e se não existisse isso? E se Deus não tivesse uma lógica por trás de suas ações? O quanto isso afetaria um fiel? Essa é a narrativa de Neil e vamos galgando com ele estes obstáculos até o final. Não é uma narrativa simples porque nada do que vemos é positivo. Não há compaixão. O que essa narrativa nos diz é que acreditamos em uma ilusão sobre fé. Desejamos acreditar nessa troca equivalente porque do contrário perderíamos a bússola em nossas vidas. As páginas finais desse conto são poderosas no sentido de que deixam uma mensagem permanente para os leitores. É um conto que eu recomendo a leitura como uma forma de quebrar paradigmas e repensar valores.

"[...] O entendimento da ausência de Sarah o devastava, e então ele desabava no chão e chorava. Neil ficava em posição fetal, o corpo abalado por fortes soluços, lágrimas e coriza escorrendo por seu rosto, a angústia chegando em ondas cada vez maiores até que era mais do que ele conseguia suportar, mais intensamente do que ele acreditava ser possível."

Ficha Técnica:


Nome: História da sua Vida e Outros Contos

Autor: Ted Chiang

Editora: Intrínseca

Gênero: Ficção Científica

Tradutor: Edmundo Barreiros

Número de Páginas: 368

Ano de Publicação: 2016

Avaliação:


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