• Paulo Vinicius

Resenha: "Floresta é o Nome do Mundo" de Úrsula K. Le Guin

O planeta Athshe é um mundo florestal rico em recursos naturais. Os humanos buscaram fazer uma colonização para retirar madeira de lá. Para realizar a extração, eles pegaram voluntários de um povo nativo que vive no planeta. Um povo pacífico e que não entende o que é a guerra. Mas, a guerra vai chegar até eles...



Sinopse:


O planeta Athshe era um verdadeiro paraíso, coberto por densas e colossais florestas. Seus habitantes, humanoides com pouco mais de um metro de altura e corpos cobertos por pelos verdes e sedosos, viviam em paz.


Então outros vieram. Muito mais altos e de pele lisa, eles caíram do céu e começaram a desbravar o território ao seu redor, enxergando os nativos como meros animais selvagens. Eles vieram de um mundo em ruínas e superpovoado, faminto por matérias-primas, madeira e grãos: a Terra.


Sem precedentes culturais para tirania, escravidão ou guerra, os nativos encontram-se à mercê de seus novos e brutais colonizadores.


Quando o desespero atinge níveis inimagináveis, uma revolução é inevitável. Cada golpe contra os invasores será um golpe contra sua própria humanidade. Mas os conquistadores alienígenas os ensinaram a odiar.... e não há como voltar atrás.





Esse é um daqueles romances para te fazer pensar em muita coisa. Daqueles difíceis de digerir, com mensagens poderosas e uma autora enraivecida no leme. Não é o primeiro romance da Le Guin que eu leio, mas certamente é um dos que mais se diferenciam de tudo o que eu li até agora. É também um romance que vai entrar na minha lista de melhores do ano, mas, caramba. Quando eu terminei de ler precisei respirar um pouco para poder transformar minhas impressões em palavras. Certamente a autora não tinha uma visão otimista sobre a humanidade e nossa capacidade de abandonarmos o nosso belicismo.


A humanidade está em um novo planeta buscando colonizá-lo. Um planeta repleto de recursos naturais possíveis de serem enviados para Terran, lar da humanidade. Só que Atshea é um planeta repleto de árvores, florestas e criaturas nativas que são pequenas e peludas. Os atsheanos, chamados de creechies pelos humanos, são empregados de forma "voluntária" nas extrações de madeira das pequenas colônias existentes no planeta. Bem, esse trabalho voluntário se torna escravo porque os colonos não entendem os creechies como seres humanos. Os tratam como animais. Pouco a pouco as ações dos colonos se tornam mais e mais violentas; estupros se tornam comuns porque mulheres não foram enviadas para Atshea. Assassinatos são entendidos como acidentes. Os creechies são uma comunidade pacifista; dentro de seu código de conduta a violência é vedada. Eles não agridem ou machucam ninguém. Mas, tudo tem seu limite. Vai ser preciso um creechie enfurecido para virar toda a cultura deles de cabeça para o ar. E esse alguém é Selver. E ele tem uma rixa violenta com um dos principais colonos presentes em Atshea.


"As raças primitivas sempre devem ceder espaço às civilizadas. Ou devem ser assimiladas. Mas com toda certeza não podemos assimilar um monte de macacos verdes. E, como você diz, eles só são inteligentes o suficiente para nunca serem totalmente confiáveis."

Não preciso dizer que a escrita da Le Guin está precisa como uma navalha nesse livro. Uma narrativa em primeira pessoa a partir de três personagens diferentes: o creechie Selver, o pesquisador humano Lyubov e o colono Davidson. A autora consegue impor vozes bem distintas nos três personagens. Selver mostra toda a ingenuidade e o pacifismo de uma cultura que valoriza o tempo dos sonhos. E que busca entender por que os humanos tanto os odeiam. Lyubov é um antropólogo enviado a Atshea para estudar os hábitos e comportamentos dos nativos locais. Ele faz amizade com Selver depois de salvá-lo de ser agredido por Davidson. Já Davidson é um colono humano que nos mostra aquilo que há de pior e mais preconceituoso na humanidade.


Dadas as devidas adaptações é possível relacionar a colonização de Atshea com a chegada dos portugueses no Brasil. Okay, os nativos brasileiros não eram exatamente povos pacíficos, mas assim como os creechies eles não entendiam o significado da palavra governo. Eles até possuíam um chefe e um membro mais idoso com poderes místicos. Mas, nada de burocracia, sistema eletivo ou qualquer coisa do gênero. A chegada dos homens em Atshea modifica toda a dinâmica do mundo. Os creechies respeitam a natureza e entendem que ela faz parte do equilíbrio natural das coisas. Segundo eles, representam o contato e a transição entre o mundo real e o mundo dos sonhos. Sem florestas não há vida. As moradias deles são integradas na floresta. Madeira é o produto ao qual os colonos estão atrás neste mundo. Eles não se importam com quantas árvores vão cortar ou se será possível o replantio. Durante o período colonial no Brasil, os portugueses dizimaram mais de 80% da Mata Atlântica situada entre o Rio Grande do Norte e o sul do Brasil. Era uma imensa faixa de floresta tropical que atravessava o Brasil. Hoje, esta mesma mata ocupa apenas três estados brasileiros. Muito se perdeu em riquezas naturais e o próprio meio ambiente regional foi alterado por causa dessa espoliação selvagem. Em uma das cenas, Selver reclama do motivo de tamanha destruição a ponto de os humanos (chamados de yumanos pelos creechies) terem criado uma ilha inteira de devastação onde nada cresce mais.


"Homens matam outros homens, a não ser na loucura? Algum bicho mata a própria espécie? Só os insetos. Esses yumanos nos matam com tanta leviandade quanto nós matamos cobras. Aquele que me educou disse que eles matam uns aos outros em brigas e também em grupos, como formigas lutando. Não vi isso. Mas sei que não poupam quem implora pela vida."


Parte dessa colonização e da forma como os humanos se relacionam com os creechies mostra também o preconceito e a intolerância com o diferente. Porque boa parte dos colonos, inclusive o comandante por trás do projeto todo, não entendem os creechies como seres inteligentes. Ou seja, estamos diante de um processo de desumanização, semelhante ao que foi feito entre europeus e africanos durante o período do tráfico transatlântico de escravos. O africano era visto como um ser desprovido de humanidade e se utilizava de passagens bíblicas para justifica tal ato. Processo semelhante é empregado aqui, mas com bases no senso comum e na "normalização" do que significa ser humano e inteligente. Para eles, isso implica em uma estrutura fisiológica x e em uma capacidade de viver dentro do que se considera humano. No começo da narrativa em um diálogo entre um colono e Davidson ele compara os creechies a vacas e alega que as vacas não reclamam de ser escravizadas.


O etnocentrismo corre forte nas páginas do livro. Le Guin foi sagaz ao colocar diversos pontos de vista e a partir deles trabalhar como esses personagens enxergavam o mundo que os cercava. Certamente o leitor vai ter bastante dificuldade em ler os trechos cujo ponto de vista é o de Davidson. Ele possui aquela interpretação crua do fazendeiro que deseja se livrar dos obstáculos o mais rápido possível. Ao mesmo tempo podemos encarar a visão de Lyubov como a do antropólogo passivo. Ele vê aquilo que está acontecendo e até é contrário à exploração feita de seu trabalho. Mas, age como o intelectual omisso. Aquele que traça inúmeros discursos, faz pontuações só não se posicionando de uma forma efetiva. Provavelmente essa é uma crítica de Le Guin a como o anarquismo havia se tornado um movimento mais intelectual do que prático. A autora era militante e não se conformava em como os movimentos haviam perdido força principalmente em um momento em que o capitalismo havia se enfraquecido durante a crise do petróleo, o desastre da baía dos Porcos, o assassinato de Kennedy, a derrota no Vietnã. Lyubov é o cerne dessas críticas da autora.


"Se os yumanos são homens, são homens que não sabem ou não foram ensinados a sonhar e a agir como homens. Por isso, seguem suas vidas atormentados, matando e destruindo, induzidos pelos seus deuses internos, que não vão libertar, mas vão tentar arrancar pela raiz e negar. E se forem homens, são homens maus, que negaram os próprios deuses, que temem ver o próprio rosto na escuridão."

Um tema bastante atual presente na narrativa é o da desinformação. Diante da revolta dos creechies aos maus tratos sofridos nas mãos dos humanos, a nave espacial que havia estacionado para entregar mulheres humanas oferece aos colonos o ansível, uma tecnologia desenvolvida por uma das raças alienígenas que fazem parte da Aliança e que tinha a capacidade de tornar a comunicação entre Athshe e Terran em algo instantâneo. Esse aparelho enviava as mensagens que eram decodificadas e depois retransmitidas ao destinatário. Só que na visão dos colonos mais conservadores isso se tratava de alguma espécie de conspiração alienígena para conquistar os seres humanos. Na visão de Davidson, por exemplo, a mensagem seria alterada de alguma forma pelos alienígenas que deturpariam a informação a ser entregue posteriormente. Isso mesmo com todas as garantias de segurança e proteção de integridade oferecidas. No momento atual em que vivemos existem esses questionamentos. Desinformação é espalhada em um piscar de olhos em que a ciência acaba sendo substituída pelo achismo. Os companheiros de Davidson acabam apoiando-o muito por causa de suas "certezas" infundadas, de sua opinião forte e veemente. Combater a desinformação é uma tarefa complicada e vemos o quanto a Aliança precisa rechaçar a ameaça.




"Por quatro anos, eles se comportaram conosco como se comportam uns com os outros. Apesar das diferenças físicas, nos reconheceram como membros de sua espécie, como homens. No entanto, não reagimos como membros da espécie deles deveriam reagir. Ignoramos as reações, os direitos e as obrigações da não violência. Matamos, estupramos, dispersamos e escravizamos humanos nativos, destruímos suas comunidades e derrubamos suas florestas. Não seria surpresa se eles decidissem que não somos humanos."

Davidson representa a noção do sistema patriarcal, do machão inveterado que domina com força e fúria. Não admite a fraqueza. Para ele, as coisas deveriam ser feitas a seu modo, com destruição e eficiência máximas. Mas, ao mesmo tempo ele luta para conter seus instintos e criar justificativas para os seus atos. Ele é a mola que coloca a narrativa em movimento até porque todas as suas ações colocam os esforços daqueles que querem resolver a questão pela diplomacia em risco. Mas, confrontado com algumas questões, ele não sabe como responder. Quando o faz, usa força devastadora. Como quando se vê colocado contra a parede ao ser acusado de estuprar creechies e vê seus próprios companheiros o olhando com ares de preconceito, já que ele mesmo estimulou os demais a enxergarem os povos nativos como não-humanos. Ou seja, na visão estreita dos colonos conservadores ele estaria cometendo um ato de zoofilia. Outra situação em que seu porte de machão é quebrado é quando ele é confrontado por Selver e eles lutam um contra o outro. Na cultura athsheana, ficar deitado e de bruços é o equivalente a um pedido de rendição e algo aceito por eles. Mas, Davidson vê com vergonha essa ação dele e não admite que o tenha feito.


Floresta é o Nome do Mundo é um dos romances mais profundos que eu li esse ano. Não sei se estará entre os meus melhores por conta de ser uma leitura complexa no sentido de que não saímos bem ao terminá-la. Le Guin não escreveu algo de entretenimento aqui, mas jogou na nossa cara certas verdades inegáveis. Como eu disse anteriormente, aqui não temos um final feliz, mas algo inevitável. É um livro que vai ficar marcado profundamente na minha alma.


"Um realista é um homem que conhece tanto o mundo como os próprios sonhos. Vocês não têm sanidade; entre vocês, não há um homem em mil que saiba sonhar. Vocês dormem, acordam e esquecem seus sonhos, dormem novamente e acordam novamente, e assim desperdiçam sua vida inteira, e pensam que existência, vida, realidade, é isso!"









Ficha Técnica:


Nome: Floresta é o Nome do Mundo

Autora: Ursula K. Le Guin

Editora: Morro Branco

Tradutora: Heci Regina Candiani

Número de Páginas: 160

Ano de Publicação: 2020


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*Material enviado em parceria com a editora Morro Branco



















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