• Amanda Barreiro

Resenha: "Escuridão Total Sem Estrelas", de Stephen King

A natureza humana é esmiuçada em toda a sua crueldade em quatro contos memoráveis do mestre do terror.


Sinopse


Na ausência da luz, o mundo assume formas sombrias, distorcidas, tenebrosas. Em Escuridão Total Sem Estrelas os crimes parecem inevitáveis; as punições, insuportáveis; as cumplicidades, misteriosas.

Em 1922, o agricultor Wilfred e o filho, Hank, precisam decidir do que é mais fácil abrir mão: das terras da família ou da esposa e mãe. No conto Gigante do Volante, após ser estuprada por um estranho e deixada à beira da morte, Tess, uma autora de livros de mistério, elabora uma vingança que vai deixá-la cara a cara com um lado desconhecido de si mesma. Já em Extensão Justa, Dave Streeter tem um câncer terminal e faz um pacto com um estranho vendedor. Mas será que para salvar a própria vida vale a pena destruir a de outra pessoa? E, em Um Bom Casamento, uma caixa na garagem pode dizer mais a Darcy Anderson sobre seu marido do que os vinte anos que eles passaram juntos.

Os personagens dos quatro contos de Stephen King passam por momentos de escuridão total, quando não existe nada – bom senso, piedade, justiça ou estrelas – para guiá-los. Suas histórias representam o modo como lidamos com o mundo e como o mundo lida conosco. São narrativas fortes e, cada uma a seu modo, profundamente chocantes.


Alerta de gatilhos: violência explícita, tortura e estupro.


Escuridão Total Sem Estrelas


Dificilmente um livro de contos consegue manter um padrão para todas as narrativas apresentadas; muitas vezes, a qualidade não é uniforme ou a temática acaba sendo demasiado esticada e, portanto, distorcida. Em Escuridão Total Sem Estrelas, as quatro histórias são muito diversas tanto em formato narrativo quanto em conteúdo, e precisam ser analisadas com mais cautela. No entanto, enquanto unidade literária, a seleção feita para a publicação é excepcional ao promover uma identidade muito particular à coletânea, que se esforça em mostrar o pior lado do ser humano em contos desesperados e absolutamente angustiantes.


Famoso por seus monstros do dia a dia, Stephen King se supera em 1922 e em Um Bom Casamento, apresentando início e conclusão de sua saga pelos horrores da mente de forma magistral. Talvez a fórmula do sucesso seja a desesperança latente em cada conto, buscando na profunda decadência a verdadeira natureza do monstro.


1 - 1922






A narrativa de 1922 apresenta tantas nuances quanto é possível se esperar de um conto. Possivelmente uma das melhores histórias curtas que já li, sob todos os aspectos. A desolação de uma pequena fazenda familiar nos confins dos Estados Unidos é um dos elementos-chave para fortalecer a trama, movida pela mesquinhez e pelo machismo de uma época em que o chefe da família poderia fazer o que bem entendesse.


A trama expõe uma terra arrasada pelas dificuldades financeiras e pelo capitalismo que avançava pelo agronegócio, devastando a subsistência de pessoas que dependem de suas plantações modestas. É nesse cenário de depressão que Wilfred, um agricultor frustrado pelos avanços da indústria, precisa tomar decisões que talvez lhe custem a própria paz.


"Eu me lembro de ter pensado: Esta noite nunca vai acabar. E estava certo. De todas as maneiras que importam, ela nunca terminou."

Stephen King articula o horror de forma a chocar o leitor e passeia pelo sobrenatural, pela loucura e pela crueldade sem definir limites. É Wilfred quem conta sua própria história, um narrador não muito confiável, mas essencial para transmitir todos os sentimentos evocados por 1922. Este é o meu conto favorito da coletânea e uma das histórias mais perturbadoras que já li, mas não pelo conteúdo explícito contado nele, e sim por todos os simbolismos que traz. É necessário ter em mente o contexto da obra, mas sempre observando as críticas que existem por trás, as entrelinhas, o não-dito.


A Netflix adaptou o conto para um filme homônimo em 2017. Apesar de deixar para trás muitos elementos importantes e optar por preservar outros mais duvidosos, o filme consegue captar muito bem a aura de escuridão total da história. Fica a recomendação para quem aprecia filmes mais introspectivos.


2 - Gigante do Volante




Alguns contos são mais indigestos que outros. Gigante do Volante é o tipo de história que não se consegue ler rapidamente, porque o conteúdo é chocante demais para ser consumido de uma só vez, mas que também parece uma tortura estendê-lo além do estritamente necessário. E não é que a história não seja boa, é que é simplesmente horroroso acompanhar a trajetória da personagem Tess.


Tess é uma escritora de romances investigativos no estilo mais água com açúcar, uma mulher bem-sucedida, com uma vida metodicamente programada e com uma boa dose de esclarecimento e confiança. Isso até ser violentamente estuprada e abandonada para morrer em um cano de esgoto próximo a uma rodovia. Nesse ponto, King passa por todo o processo, desde a preparação e vias de fato até as consequências, e nada é mais angustiante do que vivenciar o desespero de Tess.



Gigante do Volante é uma narrativa sobre o maior medo de provavelmente todas as mulheres, e se isso já não fosse aterrorizante por si só, é também sobre dor, vergonha e o desejo de vingança sórdido que nasce da mais profunda desesperança. Narrado em terceira pessoa, o conto propõe um ritmo mais acelerado que 1922 e trata de uma temática sensível e muito problemática. A opção pela terceira pessoa é, sem dúvidas, a mais adequada e respeitosa para o assunto: ainda que não seja o lugar de fala do autor, a forte crítica contida na narrativa e a elegância com a qual conduziu a história refletem uma postura consciente e viabilizam a relevância de seu discurso.



3 - Extensão Justa





Imagine poder estender o que você quiser: sua altura, seu cabelo, suas férias, sua viagem, sua vida. Essa oportunidade é oferecida a Dave Streeter, um cara com uma vida pacata e um câncer terminal.


Extensão Justa é um dos contos mais fracos de Escuridão Total Sem Estrelas, o que eu menos gostei e um dos mais previsíveis. O pacto fáustico é um elemento narrativo bastante conhecido por todos os leitores, explorado em diversos gêneros e (quase) sempre segue o mesmo padrão: desejo realizado e contrapartida exigida, geralmente envolvendo um dilema moral. Particularmente, não percebo nenhuma inovação nesse sentido e, apesar de não ser uma história ruim, o conto é bastante plano e linear.


A narrativa é feita em terceira pessoa, permitindo um olhar mais amplo sobre toda a situação, as ações de Streeter e as consequências. As personagens não são muito carismáticas, mas definitivamente a temática apresentada pode facilmente ser visualizada por qualquer leitor. A questão que fica, então, é a moral da história.



4 - Um Bom Casamento





Quarto e último conto da coletânea, Um Bom Casamento é também um dos melhores. Darcy e Bob vivem um casamento perfeito: uma vida financeira estável e bem-sucedida, dois filhos crescidos e bem criados e longos anos de amor. Acontece que nenhum casamento é tão perfeito assim. Em uma noite sozinha em casa, Darcy encontra, por acaso, uma caixa na garagem que esconde segredos guardados há décadas.


"E existe quem conheça a outra pessoa de verdade?"

A trama busca trabalhar a premissa de que é impossível realmente conhecer o outro, e um casamento pode se revelar ser uma comunhão entre dois desconhecidos. Stephen King utiliza a ideia de que é possível sim compartilhar uma vida inteira com uma pessoa e ainda assim não fazer ideia do monstro que ele ou ela escondem por debaixo do amor matrimonial. A velha narrativa do inimigo sob o mesmo teto é explorada em Um Bom Casamento, mas isso não torna a história menos interessante ou assustadora.



Darcy e Bob são personagens muito complexas e interessantes e a dinâmica dos dois insere momentos de aflição na trama. Desde a descoberta de Darcy, tudo é muito frágil e cada cena acrescenta mais tensão às diversas camadas produzidas pela narrativa. Além disso, tudo é muito factível e não é difícil visualizar a situação de Darcy acontecendo a qualquer momento, em qualquer casa.


A narrativa em terceira pessoa é intensa e segue um ritmo mais próximo do suspense do que do horror, sendo este último presente em questões psicológicas intrínsecas ao desenvolvimento da história.


Assim, Um Bom Casamento encerra a coletânea Escuridão Total Sem Estrelas e entrega ao leitor um trabalho aterrorizante e essencialmente humano e real, com momentos de agonia, desesperança e a mais completa ausência de luz.












Ficha Técnica:


Nome: Escuridão Total Sem Estrelas

Autor: Stephen King

Editora: Suma

Tradutora: Viviane Diniz

Número de Páginas: 392

Ano de lançamento (no Brasil): 2015


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Livro cedido em parceria com a editora Companhia das Letras


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