• Paulo Vinicius

Resenha: "Dylan Dog Nova Série vol. 4" de Roberto Recchione, Angelo Stano e Daniele Bigliardo

Surge John Ghost, o novo grande vilão das histórias de Dylan Dog. Um homem de negócios, antenado com o mundo digital e defensor da ideia da teoria do caos. O exato oposto do old boy. John contrata Dylan para resolver um caso ligando uma série de assassinatos ao lançamento do novo celular Ghost 9000.


Sinopse:


O lançamento do Ghost 9000 enlouquece os clientes. As pessoas matam para arrancar da mão dos legítimos proprietários o futurístico smartphone. Que segredo oculta a maravilhosa joia da tecnologia? E que mistérios se escondem no passado de John Ghost, o homem que chefia a produção do hiperexclusivo dispositivo, uma figura que intriga Dylan Dog, mudando para sempre a existência do Investigador do Pesadelo?






Ainda em uma trend de criar novos desafios para o personagem, o que seria um herói sem seu grande vilão? Sem Xabaras, que foi o grande vilão de Dylan, Recchione nos introduz um vilão que representa o extremo oposto do que é o nosso investigador. Um vilão manipulador, que compreende o funcionamento do mundo desde as suas menores engrenagens. Ele representa aquilo que existe de pior no capitalismo: a exploração, a indiferença, a opressão, a busca selvagem pelo lucro. John é um homem que não se importa com os métodos necessários para alcançar os seus objetivos escusos. E Recchione não perde tempo em colocar os dois personagens frente a frente. Embora aparente não possuir nenhuma habilidade sobrenatural, o vilão demonstra toda a sua sagacidade e falta de escrúpulos bem na cara de Dylan. Só que o personagem nada pode fazer porque teoricamente ele não fez nada. Se aproveitar de um sistema econômico que visa a exploração não é crime. E nada do que acontece nessa edição pode ser atrelado a ele; o fato de ele ser o dono da empresa que fabrica um produto não o condena caso o produto tenha algum efeito colateral. A edição fica nesse intenso vai e vem entre os personagens e produz alguns dos momentos mais intensos dessa nova fase. A melhor definição para a linha de pensamento de John está no prólogo da narrativa quando ele aparece na cama com duas mulheres. Ao sair para resolver seus negócios ele chama uma delas de gorda e que não quer mais vê-la em sua cama. A partir daí, o personagem demonstra em uma linha dedutiva de raciocínio os próximos passos de uma adolescente ferida que tem um pai como um importante empresário. Vemos o papel daquele que balança as asas de uma borboleta que causa a teoria do caos.

Recchione é o responsável direto pela reformulação editorial do personagem. E aqui ele prova a sua habilidade como roteirista que continua a ser afiadíssima. Um dos pontos altos dessa edição é como o protagonista é o tempo todo colocado em situações desconcertantes justamente por ele não ter a menor intimidade com aparelhos eletrônicos e modernidades. E lidar com isso é essencial para a resolução do caso. Recchione usa a narrativa para mostrar o quanto John e Dylan são opostos absolutos em caráter e pensamento. É esse contraste que faz do vilão tão interessante. E o quanto ele foge do lugar comum. Não é só alguém que vai te confrontar e dizer o quanto ele defende aquilo que você abomina, mas o quanto o vilão ser ameaçador sem ter precisado mostrar nenhum tom de ameaça. O clima de antagonismo está ali presente, mas nenhum tiro é disparado. A gente sabe que eventualmente os dois terão interações mais hostis. No momento o roteiro se limita a mostrar o quanto o personagem representa um vilão à altura de Dylan.


Temos dois artistas nesta edição, algo inédito até o momento nesta nova fase. O primeiro deles é Angelo Stano que faz a arte de capa e o prólogo e o epílogo. O outro é Daniele Bigliardi que faz a arte do miolo da história. A arte de ambos os artistas não é tão distinta uma da outra em estilo o que fornece uma uniformidade à história. Claro que há diferenças sutis na forma como eles abordam a transposição do roteiro para a página. Stano prefere uma abordagem mais econômica, sem a necessidade de emprego de muitos balões de diálogo. Já Bigliardi gosta de se concentrar no trabalho de expressão dos personagens. O que eles conseguem dizer sobre si, sobre o que estão pensando sem que seja necessário descrever exatamente para o leitor. Outro ponto é que Stano gosta de manipular bem a relação entre p preto e branco, dando preenchimento e perspectiva às páginas. Por outro lado, Bigliardi tem um ótimo domínio sobre os traços em cena. O que serve como um ponto forte para a sua construção dos personagens. Ou seja, a arte está em altíssimo nível nessa edição e é a melhor entre as quatro primeiras.


Essa é uma edição onde Recchione faz claras críticas sociais a uma sociedade de consumo. Todo o prólogo mostra como um simples aparelho celular é construído. O emprego de mão-de-obra estupidamente barata, representando quase um sistema escravista, passando pela distribuição até chegar às mãos dos clientes. Tem uma dupla de páginas fascinante onde uma mulher aparentemente rica está com o Ghost 9000 em mãos. O vendedor fala a respeito de todas as vantagens do aparelho, os recursos disponíveis e outras coisas. Ao final, ele afirma à compradora que o celular tem um preço quase obsceno. É aí que a mulher decide comprar o aparelho; mas, não apenas um como dois aparelhos. Isso mostra o nível de desigualdade social ao qual estamos expostos no mundo atual. Enquanto pessoas pobres produzem mercadorias caras em série (sem poder desfrutar das mesmas) outras pessoas com maior poder aquisitivo são capazes de ostentá-las como objetos de desejo. É uma maneira bastante ilustrativa de demonstrar o funcionamento do conceito de mais-valia. Principalmente se tomarmos como base a realidade difícil de alguns países mais pobres seja no Extremo Oriente ou no caso de alguns países africanos.


A imagem ao lado é a do desenvolvedor do Ghost9000 e é uma clara homenagem ao mago dos quadrinhos, Alan Moore. O mais curioso de tudo é que Recchione não deixou dúvida disso já que não apenas a aparência dele é semelhante como na cena seguinte a quando os personagens vão embora de sua casa ele volta a lidar com situações do oculto. Algo ao qual os personagens não estavam cientes.


Essa é mais uma história que visa desconstruir o personagem, mas no sentido de como ele aborda seus casos. Dylan sempre se manteve à distância em relação aos desenvolvimentos tecnológicos, preferindo confiar nos seus instintos e na sua inteligência. Mas, chegou um momento em que isso não é mais possível diante de uma nova realidade de inimigos que se embrenharam em uma sociedade repleta de problemas. Ficar à parte da internet é ficar longe de um manancial de informações que podem ajudá-lo a resolver seus casos. Fora que seu novo oponente opera dentro dessas regras. Ignorar é também dar uma vantagem a ele, algo que pode colocar vidas em risco.


Mais uma ótima edição sendo que essa realmente me cativou por ter mantido um clima de tensão no leitor. Recchione dá a receita certa para essa nova fase do personagem e nos apresenta um adversário aterrorizante. Não por ser super poderoso ou capaz de manipular habilidades acima da compreensão humana. Nada disso. Esse é um oponente que vai mostrar o quanto a realidade atual é ruim e o quanto o sistema é defeituoso. John Ghost não precisa ser um demônio ou uma criatura sobrenatural para nos colocar medo. Suas ações revelam o quanto de conhecimento ele tem sobre onde vive e como faz para subverter as regras. O emprego de dois artistas poderia ter sido perigoso ao não fornecer harmonia, mas o que houve foi exatamente o oposto.











Ficha Técnica:


Nome: Dylan Dog Nova Série vol. 4 - A Serviço do Caos

Autor: Roberto Recchione

Artistas: Angelo Stano e Daniele Bigliardo

Editora: Mythos

Tradução: Julio Schneider

Número de Páginas: 100

Ano de Publicação: 2019


Outros Volumes:

Vol. 1 Vol. 8

Vol. 2

Vol. 3

Vol. 5

Vol. 6

Vol. 7


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