• Paulo Vinicius

Resenha: "Dragões da Tempestade" de Leonardo Reis

Atualizado: 1 de Mai de 2019

Em uma fantástica e épica história que colocará reinos em guerra, a escolha de um homem pode decidir o destino de muitas pessoas. Leonardo Reis no apresenta uma nova maneira de contar histórias. Preparados? Apertem os cintos então que o filme vai começar.

Sinopse:


Para assegurar que os horrores da guerra não retornariam, os sacerdotes criaram uma ordem sagrada, os Dragões da Tempestade, guerreiros preparados desde a infância, para um único propósito: nunca serem derrotados e assim preservarem a paz. Por séculos eles cumpriram sua missão.

Mas uma antiga profecia está prestes a se realizar: o Imortal será revelado, arrastando os Campeões do Dragão pelas portas da morte, trazendo a guerra derradeira e o fim das Três Nações. Ao mesmo tempo os sacerdotes têm visões sobre o nascimento de Zairos, um guerreiro cujas escolhas poderão mudar o destino do mundo.

Porém quando um antigo inimigo retorna para lhe tirar tudo de novo, Zairos se divide entre o dever e a vingança, em um caminho que pode deflagrar as forças imortais da antiga profecia em uma guerra sem precedentes, destruindo tudo aquilo que ele jurou proteger.

Uma fantástica e épica jornada, cheia de ação e drama, glória e tragédia, honra e traição, amor e ódio, vingança e redenção. Sangue, lágrimas, um toque de fantasia e surpresas inimagináveis em um final de tirar o fôlego, criando uma história sem precedentes e uma lenda imortal.

Caminhe lado a lado com os Dragões da Tempestade, descubra os mistérios da sangrenta profecia e faça a sua escolha: paz ou... GUERRA?



Conheci o autor Leonardo Reis em um evento de fantasia realizado no Rio de Janeiro (o Stalo). Lá ele apresentou para nós uma proposta de escrita curiosa. E se a nossa experiência de leitura fosse como uma viagem a um cinema onde assistiríamos a um filme? Na visão do autor, sua escrita seria capaz de pegar toda a experiência cinematográfica e levá-la para o papel, fazendo o caminho inverso que muitos livros fazem. Admito que aquilo me deixou intrigado. Pensei que para que essa transposição fosse bem sucedida o autor precisaria pegar muitos elementos que não estão necessariamente nítidos no momento em que você assiste a um filme. Não é só a história que precisa ser transposta: o ângulo de câmera, uma trilha sonora, as expressões faciais, a passagem do tempo, os momentos dramáticos. Tudo isso precisava ser feito de uma maneira a ser bem parecida com esta experiência.

Ou seja, isto torna o aspecto da escrita fundamental na resenha do livro. Das minhas três corujas de avaliação, decidi dar um peso maior à primeira delas. E talvez é onde eu vá me deter mais. Sinceramente eu não conheço muito a respeito da noção de cinelivro e até pretendo pesquisar um pouco mais a respeito. A proposta é interessante e merece ser melhor analisada por outras pessoas com mais experiência do que eu. Como blogueiro e leitor, posso dizer que a ideia de transpor cinema para um livro feita em Dragões da Tempestade é bem realizada. No começo eu estranhei bastante porque a maneira como a história é contada é bem diferente do normal. Talvez o que alguns leitores não gostem (e eu acho que o Leonardo já deve ter ouvido isso algumas vezes) é que a história não deixa tanto espaço assim para a imaginação. O autor te apresenta a cena, os personagens e como eles estão dispostos e o que está acontecendo no momento. Já até advirto aos colegas: não há como criticar esta parte. Se o Leonardo está propondo fazer uma apresentação cinematográfica, esta configuração é obrigatória na escrita dele. Ele tem que apresentar cena, personagens e ação. E eu acho que ele faz isto muito bem. Tem alguns elementos sutis neste sentido que podem passar despercebidos para os leitores como, por exemplo, o falcão sobrevoando o cenário e mostrando os personagens, a cavalgada de um dos personagens em direção a floresta e a cena se focando naquele instante como em uma perseguição ou até em cenas mais dramáticas. Essas situações apresentam nada mais, nada menos do que jogos de câmera. Aqui o autor usa um elemento de filmagem para passar um sentimento de urgência ou de panorama para o leitor. E isso é muito bem feito.

Só acho que em alguns momentos o autor exagera um pouco. Alguns capítulos apresentam tantas passagens de cenário que o romance se parece mais com uma peça de teatro (como Romeu e Julieta ou Lisístrata) que o leitor perde o foco sobre o que está acontecendo naquele momento. Não são muitos os momentos, mas senti esse pequeno problema. Eu adorei os momentos de flashback e como eles são importantes para a execução da história. Alguns leitores podem achar bobagem e até se incomodarem com estes jogos de flashes, mas eles são muito importantes para dar uma iminência em algum momento da trama. Determinados acontecimentos são tão impactantes que o autor usa um recurso de apresentar momentos anteriores da história de maneira rápida para fazer o personagem refletir sobre suas motivações. Mas, tudo isso no espaço de poucos segundos. Este é um estilo nitidamente cinematográfico e fornece algo único para a narrativa.

Os personagens são interessantes e bem construídos. Gostaria que o autor tivesse se aprofundado mais nas motivações dos personagens de apoio, mas isso é bem difícil dado o próprio estilo de escrita que prefere ser mais dinâmico do que descritivo. Aqui vai ficar um pouco do mote que eu vou usar na hora de falar do enredo: equilíbrio/balanço. Acho que a crítica mais pesada que eu poderia fazer seria a questão do balanceamento entre o estilo de escrita, a apresentação de personagens e o desenvolvimento do enredo. Muitas vezes imaginamos, por exemplo, em Tolkien, uma escrita chata e descritiva ao extremo. Entretanto, esta lentidão na apresentação dos personagens e do que eles fizeram além de suas motivações serve para criar uma aura de magnificência aos mesmos. Quando saímos do fatídico (e leeeeeeeeeeeeeeeeeeeerdo) Conselho de Elrond, já conhecemos os personagens da Comitiva e o que eles querem. Em Dragões da Tempestade, Orgath, Zairos e Minara recebem bastante tempo de cena. Sabemos o que eles querem, o que desejam e o que pretendem.Porém, faltou um pouco de cuidado com personagens coadjuvantes na história. Mas, é totalmente compreensível que o autor não possa dar um tempo absurdo para esses personagens dado o estilo cinematográfico da história. Em um filme a ideia é que tudo aconteça de uma forma dinâmica informando ao espectador apenas o necessário para que ele compreenda o enredo apresentado por ele naquelas horas de projeção.  Aliás, nem seria legal para a proposta passar capítulos e mais capítulos descrevendo cada personagem. Por isso, eu usei a palavra balanço/equilíbrio. Não tenho a solução ideal para o autor (gostaria de ter até, para dar uma ajuda), mas o melhor que eu posso comentar é que ele, autor, precisa encontrar o melhor equilíbrio entre apresentar personagens, desenvolver a narrativa e manter o dinamismo.

Voltando aos protagonistas. Adorei a maneira como o drama pessoal destes personagens é carregado por toda a história. E o leitor fica preso à narrativa, querendo saber o que vai acontecer a seguir. Em alguns momentos, o leitor fica tenso com as escolhas dos personagens. As cenas de luta são excepcionalmente bem construídas, aliás. Aplausos para o autor. Muito engraçado que na mesma semana em que eu li Dragões da Tempestade eu estava vendo a série do Punho de Ferro na Netflix. E a segunda metade dessa série é repleta de lutas com um banho de artes marciais. E a sensação que eu tive ao ler Dragões da Tempestade é de estar assistindo a um bom filme de luta. Cenas carregadas de uma boa dose de ação, movimentos não tão absurdos (tá... kung fu e lutas de espada tem movimentos absurdos... Mas todos no livro são humanamente possíveis) e aqueles momentos em que os personagens se encaram e a tensão fica no ar. Os momentos mais íntimos são bacanas e não há nada forçado aqui. Não são momentos doces demais (ou "corny", como costuma se dizer em inglês). Os protagonistas conseguem carregar bem a trama ao longo das páginas.

E eu volto novamente à questão do balanço para falar do enredo. Senti falta de um detalhamento maior sobre os reinos especificamente. Axengard e Brummata são apropriadamente construídos, apesar de que o segundo fica representado mais na figura de Olho da Noite do que por seus governantes. Quem governa Brummata? Por que a imperatriz de Solfira é uma menina? A população de Brummata aceitava bem as ações de Olho da Noite? Estas são questões não muito bem respondidas na narrativa. Talvez uma inserção de umas três ou quatro cenas pequenas abordando estas dúvidas pudesse ter resolvido isso. Não dá para perder muito tempo com a construção do mundo em uma obra que se dispõe a ser dinâmica, entretanto não dá para deixar estes elementos sem alguma solução de enredo. Balanço. As cenas que se passam em Axengard são muito boas e ajudam a compor a iminência daquilo que virá a acontecer na história. E, aliás, nem são tantos momentos assim que se passam na corte de Axengard e só elas já fazem o leitor imaginar as motivações dos governantes deste reino.

O grande tema do romance são as escolhas que fazemos. E o quão comprometidos estamos em mantermos a integridade de nossas escolhas. O autor coloca Zairos por poucas e boas para que ele consiga manter a sua escolha de pé. A essência do personagem é construída ao redor da lealdade por trás da sua escolha de proteger Thalderan. Todos os personagens são colocados diante de escolhas difíceis que os moldam como pessoas. Sejam estas escolhas voltadas para algo nobre, ou para uma vingança ou até um egoísmo. Podemos dizer que até mesmo Olho da Noite precisa fazer suas escolhas. Ele poderia ter trilhado outro caminho, mas infelizmente sua opção pelo mais simples talhou sua maneira obtusa de enxergar o mundo. No fim de tudo será mais uma escolha que determinará o futuro do mundo criado pelo autor.

Dragões da Tempestade é um bom romance e um excelente experimento de como mudar a sua forma de escrever, mantendo a qualidade da narrativa. A maneira como o autor trabalha os capítulos, os cenários, as disposições dos personagens, tudo contribui para algo bem único e curioso. Faltou um pouco de desenvolvimento nos personagens e um pouco mais de construção de mundo, mas isso precisa ser feito sem perder a qualidade da proposta de Leonardo: o estilo cinematográfico de escrita. Espero ler muito mais coisas do autor em um futuro próximo e saiba que já tem um fã.


Ficha Técnica:


Nome: Dragões da Tempestade

Autor: Leonardo Reis

Editora: AutoPublicado

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 169

Ano de Publicação: 2016


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