• Paulo Vinicius

Resenha: "Diário Simulado" de Delson Neto

A vida de Shura é uma bagunça. Ela mora com sua família em um lugar pequeno precisando sustentar uma mãe fria, um irmão folgado e uma tia inútil. Sua namorada Violet é sua eterna companheira nas ruas claustrofóbicas de Nova Avalon. Mas, tudo promete mudar já que ela pode se tornar uma policial. Ou será que sua realidade é uma ilusão?



Sinopse:


O limiar entre o real e o virtual pode ser tão perigoso quanto a travessia da juventude para a vida adulta. Os caminhos são diferentes, mas as escolhas que apresentam são mais parecidas do que alguém pode pensar.


Shura sabe que não tem a vida perfeita. Ela não precisa que lhe digam que sua família é disfuncional ou que ela não tem perspectiva de futuro. O que ela precisa é de um plano — e isso, felizmente, ela tem. As luzes da cidade não a impedem de imaginar um futuro, mas a cegam o suficiente para que ela deseje nunca ter olhado para trás.





Philip K. Dick era um autor clássico de ficção científica que se destacava por suas narrativas provocadoras capazes de bagunçar a nossa mente ao borrar os limites entre o real e o virtual. Em suas histórias, raramente éramos capazes de fazer essa distinção com clareza. Diário Simulado vem com essa mesma proposta ao nos apresentar uma personagem que luta consigo mesma para decidir o que é real para ela: o real ou o virtual. Só por essa pequena frase já é possível desconfiar que estamos entrando em um território lamacento onde nada é certo e tudo é efêmero. Assim é a escrita de Delson Neto: daquelas que te fazem olhar o real com outros olhos.


"A luz da geladeira se esgueirava junto da fria névoa de gelo vinda do interior do freezer, envolvendo a cozinha em um azul trêmulo. Atrás da pia havia uma única janela, responsável por trazer toda a claridade do letreiro queimado do Karpas, o restaurante oriental de procedência duvidosa que se alojava debaixo do primeiro andar do cortiço."

Tudo pode ser uma bagunça na vida de Shura Lee. Decidida, impulsiva e incandescente, nossa protagonista busca mudar sua realidade para sempre. Ela vive em um pequeno apartamento ao lado de sua mãe, seu irmão e sua tia. Se Shura é esquentada, sua mãe é o exato oposto e praticamente ignora sua filha. Seu irmão é irritante e vive junto de um rabo de saia em frente à televisão. Sem contar com sua tia Izolda, uma imprestável completa que vive dizendo que será buscada por um noivo rico na semana que vem. Se não fosse Violet, sua namorada, a vida de Shura seria um completo inferno. Depois de mais uma noite de farra ao lado de Violet, Shura acorda de ressaca. Depois das discussões matinais com sua querida família, ela desce para pagar o aluguel atrasado para o senhor Kwan. Para a sorte dela, tudo irá mudar agora que ela vai se tornar uma policial em Cornewall. O dinheiro vai entrar e ela finalmente irá poder morar sozinha. Ela e sua amiga Trisha saem para comemorar com muita dança e milk shakes até que um ataque de neodruidas arrebenta com o ShakeR, onde elas se encontravam. É agora que tudo irá mudar e a noção do que é real vai ficar muito bagunçada.


Delson Neto conseguiu escrever um ótimo scifi. Daqueles que você diria que saiu da mente de um Philip K. Dick. Isso porque os elementos de ficção científica nem são tão pesados assim, podendo ser lidos simplesmente por quem deseja uma boa história. O que frita a mente do leitor é justamente essa alternância entre o que é real ou não. Quando ele começa a nos apresentar os neodruidas e como os policiais perseguem esses criminosos, as coisas começam lentamente a se tornar mais complicadas. Aparece as noções dos avatares e as simulações que tornam a vida dos habitantes de Nova Avalon mais palatável. A maneira como ele vai nos envolvendo em sua trama é marcante. A narrativa é, principalmente, em terceira pessoa, mas temos entradas iniciais antes de cada capítulo em que Shura parece estar escrevendo um diário. Se a parte da narrativa em primeira pessoa serve para nos contar como Shura se encontra emocionalmente naquele momento, as partes em terceira nos permitem conhecer melhor os pensamentos da personagem. Para ser sincero, a escrita das entradas é tão boa que eu fiquei com vontade de ler um romance do Delson escrito inteiramente com a voz da Shura.


"A cidade era uma besta forjada em néon e metal. Shura a amava, mas temia que as memórias se transformassem em mais um artifício daquele sarcófago de vidas cruzadas."

Ao final da história temos um conto chamado A Garota na Ponte que se passa depois dos acontecimentos de Diário Simulado. Sem dar spoilers, a trama gira em torno de um novo tipo de simulador chamado Drops capaz de fazer uma pessoa estar ao mesmo tempo na realidade e em uma simulação ao mesmo tempo. Os detalhes do drops não ficam tão claros, mas o criador deste novo sistema vai atrás de Shura (que tem boas habilidades como hacker) para que ela teste o novo sistema que teve sua patente roubada por uma empresa. O objetivo deste cliente é encontrar coisas que ele possa aprimorar depois. Claro que vão ter muitas complicações que vão alterar bastante a proposta inicial. Basta apontar também que eu achei que se a história principal tem muito de Philip K. Dick, a inspiração do conto está mais no cyberpunk de William Gibson.



Voltando à história principal, é incrível como ela é muito mais uma história Shura e sua relação com Violet do que qualquer outra coisa. Sim, vamos ter conspirações loucas e confusões mentais, mas se pararmos para pensar, é a relação de Shura e Violet que vai nortear a história e boa parte das decisões da protagonista. Sua amada é uma parte importante de sua vida e a presença dela é a sua bússola. Sem entrar em detalhes, é lógico que em algum momento esta relação será testada. Quando Shura se vir privada de Violet, ela vai se perder. Parece que um pedaço dela foi arrancado de seu ser. Tem um momento quase no final da história em que será dada a ela a possibilidade de uma escolha egoísta ou uma altruísta. E a escolha que ela acaba fazendo condiz bastante com a personalidade dela.


O que faz de Shura alguém tão interessante é o quanto ela é verossímil. Ela não é nenhuma heroína. Somente alguém buscando viver sua vida à sua maneira. Não há nenhum indício nela de querer participar de uma revolução nem nada do gênero. Até a possibilidade de retirarem sua possibilidade de escolha para ela é revoltante. Violet atua como uma apaziguadora, como alguém capaz de diminuir o fogo da personalidade da protagonista. A parceria das duas é muito bacana porque uma não interfere na liberdade da outra. Uma é paixão e a outra é razão.


"Nunca é tarde para falar o que queremos. Negar aquele pedido, confessar que não sabemos fazer aquilo que nos pedem. Mas, parece que é sempre cedo demais para desistir de nossas ilusões. De tanto projetarmos uma imagem errada, nos apegamos às sombras da caverna. Esqueci quem eu era antes de meus desejos me consumirem e eu fingir ser aquela garota que nunca fui."

Sobre o cenário em si, vale destacar a alegoria excelente que Delson usou sobre Camelot. O mundo real é regulado e controlado por um governo que comanda todos os aspectos da vida dos cidadãos. Não há espaço para todos, mas há os prazeres que todos podem ter. A música, os cigarros, a bebida... ou seja, é um mundo onde o entretenimento serve para arrefecer a vontade de se revoltar contra o status quo. Cabe às pessoas aceitar o que lhes é oferecido. É isso o que os neodruidas chamam de brumas. As brumas impedem as pessoas de enxergar o que é real. O que você vive é real ou você se acomodou a uma simulação de realidade? Você prefere a Dama do Lago que ou a Feiticeira Morgana? Real ou Ilusão? Na Nova Avalon de Delson, temos uma utopia/distopia onde as pessoas estão acomodadas demais em suas vidas para buscarem algo diferente.


Algo que vai bagunçar a cabeça dos leitores é em como Delson usa um loop para contar a história dos dilemas de Shura. Star Girl e Gone Girl são partes da história e representam momentos da vida da protagonista. Mas, você, leitor, saberá diferenciar o que está dissonante em cada um dos três momentos da vida da protagonista? O que mudou? Quem desapareceu? Para montar estes momentos o autor deve ter tido muito trabalho. Porque até mesmo o tom da narrativa mudou. No primeiro temos uma aventura comum com alguns aspectos futuristas, mas focando na vida de Shura. Na segunda parte, temos uma história contada de trás para frente com a protagonista buscando respostas para suas dúvidas ao mesmo tempo em que tenta descobrir o que ela deseja. Já na última parte, temos uma narrativa mais melancólica onde ela precisa lidar com as consequências de suas escolhas e em como seguir em frente.


A história é fascinante e revela muito do potencial do autor. Preciso apenas criticar um pouco a barriga que existe na metade da história. Entre a segunda parte e o clímax da terceira parte tem momentos em que parece que a história não está se movendo. E isso cansa um pouco o leitor. Entendi que o autor precisava desse momento maior para mostrar as dissonâncias existentes na realidade de Shura e como Gorlois e o Senhor de Muitos Nomes acabam mexendo em parte com as escolhas dela. Mesmo assim, eu sinto que esse trecho poderia ter sido menor e mais orgânico, mas okay, nada que tenha me feito perder o interesse. Já quero ler mais coisas do Delson, seja nessa realidade cyberpunk que ele criou ou em qualquer outra que ele deseje bagunçar a minha cabeça.


"É tudo questão de perspectiva. Sempre foi e sempre será. O homem abraça o que lhe convém, e nós somos meros expectadores daquilo que criamos para ser, a priori, controlável e volúvel. Nossas criações agora andam com as próprias pernas."








Ficha Técnica:


Nome: Diário Simulado

Autor: Delson Neto

Editora: Plutão Livros

Número de Páginas: 231

Ano de Publicação:2019


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