• Paulo Vinicius

Resenha: "Caixa de Pássaros" de Josh Malerman

Malorie vive em um mundo sem imagens. Assolados por aparentes criaturas que acionam o lado selvagem das pessoas, todos decidem se encolher em um mundo de trevas. Mas, Malorie precisa levar seus filhos a um lugar melhor. É aí que irá se iniciar uma sombria jornada por um rio.

Sinopse:


Quatro anos depois de as mortes terem começado, há poucos sobreviventes em Michigan. Malorie e seus dois filhos pequenos estão entre eles. O trio faz parte do grupo que tenta resistir em um mundo no qual abrir os olhos pode ser fatal. Vivendo em uma casa abandonada, Malorie e os filhos não sabem o que se passa do lado de fora. Sempre com as janelas e portas cobertas e sem comunicação com o exterior, o local é uma área isolada no meio do caos. Até o momento em que uma misteriosa neblina atinge a região e Malorie toma uma decisão que adiou por muito tempo. Após quatro anos trancados, Malorie e as crianças fogem da casa em um barco a remo na esperança de encontrar um lugar distante do surto que matou todos ao seu redor. De olhos tapados, os três encaram uma viagem assustadora rumo ao desconhecido.




Josh Malerman tem se tornado um autor bem popular entre os leitores de terror. E eu até acho legal a gente ter uma segunda opção além do Stephen King. Não digo que não existam hoje outros autores de terror, mas, Malerman acabou se tornando pop, e isso ficou ainda mais evidente quando Caixa de Pássaros foi adaptado e se tornou parte do catálogo da Netflix. O livro é também o primeiro trabalho do autor e tem ainda muitas inconsistências e problemas justamente por ser um trabalho de estréia. Mesmo assim, já vemos algumas das qualidades da escrita do autor e a capacidade dele de inserir pequenos temas filosóficos.


Não Olhe


Livros que mexem com os sentidos ou de alguma forma os subvertem não são novidade. Estão aí clássicos como Ensaio sobre a Cegueira, O Som e a Fúria e muitos outros que tratam do tema em uma escrita bem sensitiva para o leitor. O que Malerman inova é a criação de uma atmosfera claustrofóbica usando poucos recursos de escrita. Isso gera uma narrativa muito intimista sobre uma mãe e seus dois filhos em um mundo que foi para o ralo devido a um ataque de criaturas que despertam o lado selvagem do homem quando vistos. Méritos para o autor que conseguiu criar um tipo de criatura que ele não precisou mostrar em nenhum momento. Sua mera existência causa o pavor e o medo. Boas histórias de terror não precisam recorrer ao gore ou a criaturas abjetas para serem assustadoras. Um bom exemplo disso é o filme Alien, o Oitavo Passageiro. Mais da metade do filme, a criatura é apenas insinuada como uma ameaça para a população a bordo da nave. Essa insinuação gera um medo primevo, pois entra em jogo a própria sobrevivência. O mesmo acontece aqui. Ninguém consegue descrever como são as criaturas (se é que elas realmente existem). O medo está no efeito que olhar para uma criatura causa no ser humano.

" - Eu a encontrei na banheira, Malorie. Flutuando. Os pequenos pulsos cortados com a gilete com a qual ela tinha visto eu me barbear milhares de vezes. A água estava vermelha. O sangue pingava da borda da banheira. Havia sangue nas paredes. Era uma criança. Oito anos. Será que olhou pela janela? Ou ela mesma simplesmente decidiu fazer aquilo? Nunca vou saber a resposta."

Algumas pessoas alegam até que a narrativa de Malerman toca em um medo psíquico ou até em algo mais inconsciente. Que tudo não passaria de uma paranoia coletiva provocado por uma doença ou um efeito placebo que afetou boa parte dos EUA. Lógico que isso é uma bela de uma extrapolação e se caso seja realmente isso, é um exagero sem tamanho. Mas, fato é que o aspecto medo é muito bem trabalhado pelo autor e é algo que fica marcado na própria angústia dos personagens em precisar lidar com a visão. Para vocês terem uma ideia, Malorie treina suas crianças a funcionar em um mundo sem o emprego dos olhos. As crianças desenvolvem uma audição fora do comum.

Os ambientes são muito escuros contribuindo para essa sensação de aprisionamento e insegurança. Temos duas narrativas se alternando: uma passada desde o começo do surgimento do Relatório Rússia até a estadia na casa e uma segunda linha com a travessia de Malorie e as crianças pelo rio. Na primeira linha vemos como a civilização acaba se esfacelando em cascata até se tornar o mundo sombrio da segunda linha. Tem uma fala dos personagens que é ótima que diz que eles parecem estar em uma caixa de papelão tentando abrir a tampa para poder sair. Mas, o medo de sair supera o desejo de liberdade. O significado do título Caixa de Pássaros está nessa metáfora, além de simbolizar o emprego de pequenos pássaros na casa que serviam de sistema de segurança para os moradores.


A escuridão de nossa alma


"Você se lembra do céu?, pergunta a si mesma ainda remando, por incrível que pareça. Estava tão azul. E o sol estava tão amarelo quanto o desenho de uma criança. A grama era verde. O rosto de Shannon estava pálido, suave, branco. Assim como as mãos dela, apontando para as nuvens. Naquele dia, havia cores em todos os lugares para onde se olhava."

A segunda linha retrata uma difícil jornada de poucos quilômetro até um possível abrigo para os personagens. Essa jornada é marcada por incertezas (será que existe um lugar seguro?) e a confusão (o que tem na nossa frente?). Algumas situações corriqueiras se tornam difíceis obstáculos para os personagens. Por exemplo, uma simples mudança para um afluente do rio se torna um jogo mortal; a presença de outros animais por perto é uma ameaça real porque eles percebem o quanto os seres humanos se encontram indefesos. Ao mesmo tempo a jornada possui um segundo motivo que é tentar resgatar a humanidade perdida por Malorie diante dos acontecimentos dos quatro anos anteriores. A fé dela na esperança morreu. Isso é completamente perceptível na maneira como ela lidar com as crianças e o ambiente ao seu redor. Os seus pensamentos mostram o quanto disso foi tomado pela falta de visão. Aliás, esta falta de visão se reflete também em como o mundo para ela não apresenta mais uma luz.


Os personagens são muito bem trabalhados e ele até precisa de muito pouco para isso. Como ele coloca todos dentro de uma casa e a trama acontece toda ali dentro, se torna mais uma exploração da psiquê diante de uma situação extrema do que uma jornada. Nesse ponto, Caixa de Pássaros me lembra tramas como Sob a Redoma e O Nevoeiro, de Stephen King, onde o autor coloca os personagens em um lugar fechado para ali dentro trabalhar os temas que deseja. A desesperança é o tema central da narrativa. Se pensarmos que dentro da casa, Tom representa a luz, entendemos o quanto a humanidade estava perdida. Isso porque todos dependem de uma única pessoa para tocar a vida adiante. O jeito sonhador do personagem é o farol que eles precisam para buscar alguma forma de tornar o seu sofrimento mais aceitável. E o personagem faz todo o possível para manter sua essência otimista. Tanto é que os problemas maiores começam a acontecer em um momento em que o personagem não estava junto do núcleo de protagonistas.

A desesperança é tamanha que Malorie não chega sequer a dar nomes às crianças. Um é o Garoto e outra é a Menina. Aqui vemos um pouco de A Estrada de Cormac McCarthy presente no estilo de Malerman. Uma narrativa crua e objetiva onde o amor de mãe é substituído por um instinto extremo de sobrevivência. A forma como Malorie se relaciona com as crianças vai ser entendido pelos leitores como desumano, mas a personagem e as crianças são frutos de um mundo que virou de cabeça para baixo. A escrita do autor ajuda a fornecer essa impressão. Apesar do que eu ainda acho a escrita do Malerman aqui muito em fase de evolução. Ele ainda precisava trabalhar um pouco mais a maneira como ele faz os personagens se comunicarem e a maneira como ele nos coloca em seu universo. Falta um pouco de sutileza para ele, mas isso é algo que eu acredito que ele tenha trabalhado mais em livros posteriores.

"Desde que nasceram, as crianças foram treinadas a ouvir os sons da floresta. Quando eram bebês, Malorie amarrava camisetas sobre os olhos delas e as levava até a beira da floresta. Ali, apesar de saber que eram pequenas demais para entender alguma coisa do que lhes dizia, ela descrevia os sons da mata."

De qualquer forma, Caixa de Pássaros é uma excelente estréia e mostra um autor preocupado em estabelecer a sua identidade diante dos leitores. Uma narrativa marcada por uma claustrofobia extrema (em vários momentos nos sentimos amarrados e presos) em um mundo onde as pessoas não podem ver, caso contrário podem acabar sendo mortas. Temos uma mãe lutando por sua sobrevivência e a de seus filhos e tenta encontrar algum lugar que possa servir de abrigo e quem sabe fornecer alguma lembrança de uma vida melhor.


Ficha Técnica:


Nome: Caixa de Pássaros

Autor: Josh Malerman

Editora: Intrínseca

Gênero: Terror

Tradutores: Carolina Selvatici e Alexandre Raposa

Número de Páginas: 320

Ano de Publicação: 2019 (nova edição)


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