• Diego Araujo

Resenha: "Cães Negros" de Ian McEwan

Cães Negros é capaz de proporcionar ricas interpretações sobre os conflitos de amor em um casal. E esta resenha explica as possibilidades a partir dos elementos de mistério e fantásticos capazes de abstrair desta narrativa.


Sinopse:


June e Bernard, membros do partido comunista inglês, se conhecem em Londres, em 1946. Apaixonam-se perdidamente e decidem se casar. Mas durante a lua-de-mel, na França, um acontecimento misterioso altera para sempre a percepção de mundo de June. Anos depois, os dois acabam se separando.


No fim dos anos 1980, Jeremy, o genro do casal, tenta compreender como um amor tão profundo não resistiu às diferenças ideológicas. E é lendo os escritos da sogra que ele descobrirá o que ocorreu anos atrás.


Tendo como pano de fundo a Europa pós-Segunda Guerra e as marcas deixadas pelo conflito, McEwan usa seu estilo cristalino para elaborar com precisão uma história sobre o lado mais sombrio da humanidade, e seu constante ataque ao amor.







Se quisermos escrever cada história de amor possível pelo mundo, a quantidade de livros neste tema seria infinito. Quer dizer, já se faz histórias assim e com certeza há inúmeras ainda por vir, basta ser diferente do clichê “e foram felizes para sempre”. Mesmo sendo diversas, essas narrativas não são nada fáceis. O desfecho de um relacionamento é tão íntimo, portanto difícil de transcrever até entre os envolvidos, imagina para o leitor. E Ian McEwan precisou escrever todo o livro Cães Negros sobre o desfecho de um certo relacionamento. Publicado pela primeira vez em 1992, a história é sobre a crise de um casal por volta do período após a Segunda Guerra Mundial. A Companhia das Letras lançou este romance numa edição de bolso em 2021, sob a tradução de Daniel Pellizzari.


“— Quando dois lados empunham armas, vence o mais aflito.”

A história é narrada por Jeremy, genro do casal June e Bernard que vivem separados praticamente desde a Lua de Mel. Jeremy é escritor e tem o objetivo de escrever uma biografia sobre a sogra, embora a pesquisa sobre os fatos tenha muita curiosidade pessoal. Ele tem um bom relacionamento com os dois sogros e tem o privilégio de conhecer a perspectiva de Bernard sobre a vida de June, com o ônus de ficar entre o desgaste dos dois. O casal tenta usá-lo de mediador para discutir a distância ou mesmo tendo trechos que se passam dentro da própria cabeça de Jeremy. Tudo isso por causa dos Cães Negros que afetaram o modo de vida de June e renderam a narrativa de todo este romance.


“Estávamos prestes a a dar um salto de oito anos, de 1938 a 1946, pulando a guerra inteira. Essas conversas eram assim.”

Ambientado na Europa durante o fim da Segunda Guerra e parte da Guerra Fria, a parte histórica da ficção serve de contexto na formação dos personagens. Mesmo quem torce o nariz contra a ideologia política dos protagonistas pode aproveitar a história, pois o foco é no relacionamento do casal, na busca em compreender o que motivou a separação, e nisso proporciona elementos de mistério, de pistas dadas ao longo do livro sobre o passado em formas de flashbacks essenciais ao costurar esta história.


Além da trama de mistério, é possível aprofundar a alusão aos Cães Negros em significados semelhantes ao de uma narrativa fantástica. O enredo em si é realista, já a exploração quanto ao conflito gerado por esses cães vão desde comparações, metáforas a até ao confronto direto. O sentido se transforma a cada vez que os menciona, provocando reações nos personagens conforme as peças encontradas nesta investigação do biógrafo. Tudo porque exerceu um poder sobre o qual Jeremy dedicou-se a descobrir, a ponto de render todo o romance até decifrar o desfecho na juventude de June que tem reflexo no modo de vida irresoluto ao lado de Bernard.


Cães Negros torna o conflito mundano de um casal nesta narrativa extraordinária, sem precisar traçar fatos históricos da narrativa além dos que serviu de contexto, e com significados fantásticos nos elementos realistas. Em menos de duzentos páginas, o autor traz reflexões capazes de o leitor divagar pelas interpretações possíveis sobre as vidas dos protagonistas.


“Mas há muitas perguntas que não podem ser feitas a uma sogra.”











Ficha Técnica:


Nome: Cães Negros

Autor: Ian McEwan

Editora: Companhia das Letras

Tradutor: Daniel Pellizzari

Número de Páginas: 168

Ano de Publicação: 2021


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*Material enviado em parceria com a Companhia das Letras











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