• Diego Araujo

Resenha: "Através do Vazio" de S.K. Vaughn

Através do Vazio faz a protagonista enfrentar problemas decorrentes de uma tecnologia espacial futurista, esses provocados por algo que nenhum avanço é capaz de eliminar: a ambição humana.


Sinopse:


É Natal de 2067. Os acordes de uma música natalina ecoam pelas ruínas de uma espaçonave que flutua pela escuridão. Lá dentro, May desperta lentamente ― a única sobrevivente de um acidente desastroso na primeira viagem tripulada a Europa, a lua de Júpiter. Sozinha no vazio do espaço, em uma nave caindo aos pedaços, May tenta desesperadamente reencontrar o caminho para a Terra. A única pessoa capaz de ajudá-la é Stephen Knox, um cientista brilhante da Nasa... e um homem que ela magoou profundamente antes de partir. Enquanto ela batalha pela própria sobrevivência e sinais de sabotagem começam a vir à tona, a voz de Stephen parece ser a única coisa capaz de atravessar o vazio insondável do espaço e levá-la de volta para casa em segurança.




Conforme a tecnologia avança, novas possibilidades de trabalho surgem. Algo apenas especulado antes torna-se acessível com os devidos aprimoramentos, gerando novas perspectivas à humanidade, ou novas fontes de lucro para desenvolver novos recursos, ainda incapazes de alcançar o ego do proprietário. A cada nova tecnologia há também perigos. Fragilidade quanto às condições extremas do espaço fora da realidade acostumada na Terra, uma quantidade limitada desses recursos, pondo em risco uma pequena parcela dos efetivos de pesquisa e mantendo a medida de segurança sendo acionada tarde demais. E tem o perigo causado pelo que nenhuma tecnologia poderia amenizar, pois na verdade só a alimenta: a ambição humana.


Através do Vazio trata da sobrevivência de Maryam ― mais conhecida por May ― numa nave com problemas técnicos no meio do Sistema Solar. Publicado em 2018 por S. K. Vaughn e trazido pela editora Suma em 2019 no Brasil sob a tradução de Renato Marques, os elementos da ficção científica são aproveitados ao levar a tensão do romance a níveis fora da atmosfera terrestre.


“Não existia lugar mais solitário do que o vazio do espaço.”


May é a comandante da nave Hawking II, a primeira a prosseguir até o satélite Europa para averiguar água congelada no local e confirmar a existência de vida microscópica. Uma tragédia acontece seguido de um caso de amnésia em May, despertando na Hawking II sem mais ninguém da tripulação presente, restando a companhia do sistema de inteligência artificial ― IA ― da nave, nomeada de Eva por May. Eva também teve o sistema comprometido, incapaz de avaliar determinados setores da nave. Assim May trabalha em parceria com a IA afim de restaurar o sistema dela e poder contatar a NASA e requisitar resgaste.


Stephen Knox é engenheiro e ex-esposo de May, divorciado dias antes da missão à Europa. Sabe da tragédia acontecida na Hawking II e fica apreensivo por causa da mulher com quem dividiu parte da vida. Entra em contato com Robert Warren, o superior responsável pela missão, e procura entender a situação da nave de May, buscando também outros meios quando Robert recusa-se a informar sob a demanda de sigilo. Ele na Terra e May no espaço, ambos tentam se comunicar Através do Vazio na busca da sobrevivência, por mais nebulosas que sejam as motivações de cada um, testadas além do limite conforme o enredo prossegue.


“ ― Não fale sobre o ‘gigantesco passo’ que você está dando. Você está servindo à humanidade.”


A história acontece em 2068, um futuro especulado quando os cientistas poderiam trafegar maiores distâncias no espaço e realizar atividades em busca de responder questões levantadas sobre o universo, como a existência de vida extra-terrestre. A tecnologia avançada é imposta ao limite desde o começo, com a Hawking II comprometida sem May lembrar da causa, e sendo o tema dos primeiros conflitos da comandante. A narrativa trata da parte tecnológica com descrições técnicas, nada complexo a ponto de limitar a leitura a apenas cientistas e entusiastas, mas ainda assim é explicativa até situar o leitor ao problema a ser solucionado no capítulo vigente. É um estilo de escrita com intenção de atender a determinado nicho de leitores, sendo difícil atrair quem não se interessar pela parte técnica da ficção. Caso assimile este tipo de descrição, descobrirá as inúmeras formas de perigo oriundas desta tecnologia e os limites de recursos por esta missão ser pioneira. O autor abusa das falhas do componente e acrescenta novas dificuldades à trama. Quando já parece estar no limite, sempre tem outro fator a explorar e testar a protagonista ainda mais, esta também abusada nas diversas consequências do corpo transtornado no ambiente espacial.


Tratando do futuro, as tecnologias são elaboradas a partir do tempo atual, compartilhado por nós junto com o autor, conforme as projeções tecnológicas possíveis nas próximas décadas. Mesmo assim este romance apresentou recursos ditos como inviáveis de existir ou com capacidade verdadeira aquém do mostrado no romance, e esses são justificados no próprio enredo, seja limitando as especificações da tecnologia por ser “confidencial” de quem produziu ou dos criadores responsáveis da tecnologia tirando sarro dos cientistas que afirmavam ser impossível de acontecer. E essas justificativas não surgem do nada, a construção dos personagens desenvolve as personalidades a ponto de o argumento deles ser condizente com as tecnologias criadas.


“― Ah, sim. Ciência: o outro fetiche!”


Parte da construção dos personagens ocorre a partir de flashbacks, partes da memória que May restaura com o tempo, ou algo vindo do próprio Stephen. Esses capítulos do passado dão a resposta na hora certa, garantindo o andamento do romance com a informação adquirida. Só falhou na distribuição desses flashbacks quando teve os últimos, com informações nada relevantes à situação vigente, feitas apenas com intuito de aparar as pontas soltas deixadas pelas cenas do passado anteriores que nem chegam a ser necessárias comparadas aos acontecimentos decisivos do romance. Falando de informações, ocorre uma caracterização prolongada de determinado personagem antes de seguir nas últimas etapas. Longos parágrafos explicando sobre ele em vez de distribuir as informações ao longo do romance, pois ele é citado desde o começo.


A panfletagem política do autor é evidente, com frases inconvenientes ao prosseguimento do romance. São declarações exaltadas pelos personagens conforme a ideologia deles, o problema é usar de argumentos repetitivos a ponto de serem clichês, quando poderia apenas deixar a situação ― esta já aberta a interpretações ― e focar no desenvolvimento da história.


Através do Vazio tem um início devagar, precisando situar o leitor à proposta desta aventura de sobrevivência espacial. Mesmo isolada dos demais personagens, o romance consegue criar tensão na situação de May. Os problemas funcionais da nave e condições do espaço são os antagonistas mais imediatos, explorando muitos aspectos possíveis e surpreendentes ao elevar a tensão, esta constante até as últimas páginas.


“Varrer tudo debaixo do tapete em nome do progresso.”











Ficha Técnica:


Nome: Através do Vazio

Autor: S.K. Vaughn

Editora: Suma

Tradutor: Renato Marques

Número de Páginas: 376

Ano de Lançamento: 2019


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*Material enviado em parceria com a Editora Suma


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