• Paulo Vinicius

Resenha: "Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas" de Philip K. Dick

Atualizado: Jun 4

Um dos maiores clássicos da ficção científica do século XX ganha uma edição nacional pela Editora Aleph. Você acha que conhece a história de Deckard? Pense de novo... este livro é muito diferente do filme. Confiram!



Sinopse:


Inspiração para um dos maiores clássicos do cinema, dirigido por Ridley Scott, este romance é de autoria do prolífico e revolucionário Philip K. Dick, um dos maiores expoentes da contracultura na ficção científica durante as décadas de 60 e 70. Rick Deckard é um caçador de recompensas, vivendo em uma San Francisco decadente, coberta pela poeira radioativa que dizimou inúmeras espécies de animais e plantas. Um novo trabalho pode ser o ponto de virada para melhorar seu padrão de vida e realizar seu sonho de consumo: uma ovelha de verdade, para substituir a réplica elétrica que ele cria em casa. Para isso, Deckard precisa perseguir e aposentar seis androides que estão foragidos, se passando por humanos. Mas as convicções do detetive podem mudar quando percebe que a linha que separa o real do fabricado não é mais tão nítida quanto ele acreditava. Em Androides sonham com ovelhas elétricas?, título original deste livro, Philip K. Dick cria uma atmosfera sombria e perturbadora para contar uma história impressionante, e abordar questões filosóficas profundas sobre a natureza da vida, da religião, da tecnologia e da própria condição humana. Esta nova edição conta com capa ilustrada por Rafael Coutinho, com design de Giovanna Cianelli. A cena imaginada por Coutinho homenageia o filme e retoma o ar policial noir do romance, ao mesmo tempo em que explora a atmosfera de dúvida e segredos presente na obra de Dick.





A busca de Rick Deckard


É impossível não relacionar o livro ao filme Blade Runner. O clássico de ficção científica nas telinhas é uma influência tão marcante que se tornou maior do que o próprio livro. Mas, a diferença entre os dois meios é muito grande. Diria até que livro e filme acabam se complementando.


Rick Deckard é um caçador de recompensas. Seu trabalho é "aposentar" andróides rebeldes. Ele tem uma esposa depressiva e uma ovelha elétrica no telhado, motivo de vergonha para o casal. Deckard deseja muito ter um animal de verdade, mas eles são caros nesse mundo. Mas, Rick vê que sua vida pode melhorar quando o caçador mais experiente é ferido ao caçar uma nova série de andróides: os Nexus-6. Sua semelhança com humanos é tão grande que mesmo testes de reconhecimento sofisticados não conseguem dar uma resposta absoluta.


Dick questiona neste livro o que nos torna humanos. Será que determinados sentimentos não podem ser copiados por uma máquina experiente? E o que os andróides pensam a respeito de nós? A capacidade dos Nexus-6 de copiarem determinadas habilidades humanas é tão grande que mesmo um caçador de recompensas experiente como Deckard tem sua fé questionada. Algumas cenas demonstram o terror por trás disso> a sutileza com a qual uma das andróides expressa seus sentimentos em uma apresentação musical; a paixão e o desejo que Rick sente por Rachel Rosen; e a emboscada na falsa delegacia quando Rick não era capaz de dizer quem era humano.




Como diz Deckard, se os andróides são capazes de copiar até mesmo a criatividade por trás da composição de uma música, o que resta ao homem? Dick humaniza muito os andróides e nos deixa realmente confusos ao longo da trama. Algumas reações dos andróides são semelhantes demais como os ciúmes de Rachel, mais adiante na história. O autor faz também uma forte crítica social. Através das guerras criamos um mundo decadente e desesperançoso onde casais precisam comprar animais quase extintos para demonstrar status. O nível de absurdo de Deckard ansiando ter um avestruz ou uma coruja apenas para ser bem visto pelos vizinhos é gigante. O leitor percebe como ter um animal elétrico desperta vergonha para quem possui e preconceito de quem rodeia. A esposa de Deckard precisa recorrer a uma máquina para despertar sentimentos. É a demonstração definitiva de quebra de contato do homem com o mundo que o cerca. Assim como em outras obras, Dick ilustra sua falta de fé na evolução do homem como um ser inteligente. O homem é capaz de destruir, de arrasar e de parasitar o planeta. Aos escolhidos (os detentores de recursos) resta abandonar o planeta. Para o resto sobra conviver com uma esfera oca e terminal.


"Naquela época, a precipitação era esporádica e altamente variável; alguns Estados estavam quase livres dela, outros tornaram-se saturados. As populações errantes se moviam à medida que a Poeira se movia. A península sul de San Francisco foi o primeiro lugar a ficar livre do pó, e um grande número de pessoas respondeu ao fato indo morar ali; quando a Poeira chegou, alguns morreram e o restante partiu. J. R. Isidore ficou."

A ambientação do livro é radicalmente diferente do filme. A obra de Ridley Scott me remete diretamente a Neuromancer, de William Gibson. A trama do livro tem uma essência mais intimista e voltada para o estudo do homem como um ser racional. A empresa responsável pela fabricação dos Nexus-6 é pouco citada no livro enquanto que no filme ela forma uma grande sombra que assola o protagonista.




Preciso citar também os cabeças-de-galinha, as pessoas afetadas pela radiação resultante da Guerra Terminus. Isidore só quer ser útil para alguém e quando os três andróides se escondem em sua moradia é como se sua existência se completasse. A crença em uma divindade absoluta é o que mantem sua sanidade. Dick quis apresentar com John Isidore o que acontece com alguém que tem sua crença negada por argumentos racionais. A cena da aranha que tem suas pernas arrancadas diante de um Isidore horrorizado é emblemática. Alguns questionam que o personagem não tem muito sentido para a trama principal. Discordo... é com obras como Valis e Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas que Dick consegue trabalhar suas ideias sobre a importância da religião para o homem. Pelo que eu pude assimilar a religião é o que dá motivos para a existência de um indivíduo, na visão do autor. A religião é um dos componentes para a esfera de realidade que cerca este indivíduo. Quando Deckard descobre a realidade por trás da caixa de emoções, ele vê sua sanidade desaparecendo. Aonde agora ele poderia ancorar sua fé? Em quem buscar orientações?


De certa forma, Dick critica a necessidade de acreditar em um poder superior. Mas, ele não enxerga o homem desprovido de religião. Mais do que isso: ao nos afastarmos da fé, perdemos nossa inocência. Buscamos soluções científicas que não preenchem o todo. Nesse aspecto, John Isidore tem muitas similaridades com Horselover Fat, protagonista do livro Valis.


O livro é uma obra clássica que, independente de se ter visto o filme, deve ser lida como uma obra encerrada em si mesma. A prosa de Dick sempre nos provoca confusão, estranhamento e reflexão. Nos faz questionar sobre o que nos torna humanos.













Ficha Técnica:


Nome: Blade Runner - Andróides Sonham com Ovelhas Elétricas

Autor: Philip K. Dick

Editora: Aleph

Tradutor: Ronaldo Bressane

Número de Páginas: 288

Ano de Publicação: 2019 (nova edição)


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