• Paulo Vinicius

Resenha: "Anacrônicos" de Luiz Brás

Pessoas que se foram retornam para o mundo dos vivos. Isso causa o caos em todo o sistema social do mundo. A narrativa é vista pelos olhos de um grupo de personagens que tem sua vida alterada para sempre.


Sinopse:


Nesse conto de ficção científica, o autor nos mostra o que acontecerá com o mundo quando nossos entes queridos já falecidos começarem a retornar à vida.




Luiz Brás tem o hábito de bagunçar as nossas percepções ao ler seus livros. Seja qual for o tema, você pode ter certeza de uma coisa: nunca tenha certeza de nada. Assim como nas narrativas de Philip K. Dick, o intuito do autor é, na maior parte das vezes, algo que não está tão aparente nas linhas. Junte isso a uma escrita competente e o que você tem é um conto desafiador. Embora curtinho, é possível tirar volumes de seus parágrafos. Mas, eu queria me focar em dois temas para não dar spoilers demais da narrativa: memória e caos social.


Antes de mais nada, é preciso dizer sobre o que é a narrativa: um dia pessoas mortas começam a voltar para suas casas. Essas pessoas voltam em ondas começando das mortes mais recentes até chegar às mais antigas. Esses retornados recebem o nome de anacrônicos e eles não podem ser afastados, atacados ou destruídos. Estão ali para fazer apenas uma ação, repetidas vezes. A mãe de um dos personagens volta todos os dias para casa para preparar um bolo. Todos os dias. Mas, o que acaba se assentando como algo que se torna corriqueira, vai tomando proporções catastróficas à medida em que mais e mais anacrônicos vão chegando e ocupando o espaço dos vivos. O resto você vai precisar ler para saber.


O que ilustra a memória de uma pessoa? A percepção que temos dela ou sua existência material? Já dizia Fernando Pessoa que a única realidade social é o indivíduo. Construímos a nossa memória a partir de nossa construção de mundo. Portanto, é natural que a memória de uma pessoa seja única para cada indivíduo. Para o protagonista, a pessoa que ele estava enxergando como anacrônica é difícil como ser entendida como aquela que lhe foi amada um dia. Aquela existência material e estranha era apenas algo físico, desprovido de qualquer sensação de familiaridade. Chega a um ponto em que estar junto dessa pessoa é desconfortável e chega a confundir a maneira como o protagonista se lembra dela.


"Você percebe que sempre guardou o passado numa arca meio nebulosa, mas ao alcance das mãos e dos olhos. A fechadura era quase invisível, por isso muito resistente, e a chave eram as imagens aprisionadas em fotos e vídeos. Ao acessar essas imagens a fechadura e a tampa da arca se abriam, revelando o tesouro do tempo anterior. [...] Mas os anacrônicos corromperam sua preciosa arca imaginária. Todas as memórias foram contaminadas pela sombra da fraude."

O caos social começa a se formar quando indivíduos carismáticos começam a aparecer como Hitler, Maomé e até Jesus são mencionados como anacrônicos. Só tem um porém: os anacrônicos realizam apenas uma ação. Não podem ser entendidos como seres pensantes e capazes de mais de uma ação. Mas, os indivíduos ao redor deles, que estão vivos, iniciam um processo de relação com estes. Como lidar com as multidões furiosas que se unem ao redor de um Hitler anacrônico? Ou de uma futura guerra religiosa entre aqueles do lado de Maomé, outros ao lado de um Buda ou até de um Jesus? As áreas habitáveis começam a desaparecer já que os anacrônicos ocupam o espaço dos ativos. É aí que algo drástico vai precisar ser feito.


Adorei a forma como Luiz Brás quebra a quarta parede e tece críticas a nós, leitores. Se estamos esperando uma narrativa comum em que o protagonista segue uma jornada do herói, não é isso o que vamos encontrar aqui. Só senti falta de algumas páginas a mais para que eu pudesse entender qual é o ponto final da narrativa. Porque o autor deixa a história em aberto, mas ela acaba ficando em aberto demais. Mas, talvez isso seja um pouco do meu vício como leitor, esperando algo capaz de fechar o meu raciocínio quando, na verdade, o autor não quis fazer isso. São reminiscências de um leitor desesperado por algo mais. Para provar o seu domínio sobre a narrativa e até fechar a crítica em si, o autor emprega seu poder e usa o deus ex machina para comprovar que a realidade pode e é cruel. Anacrônicos é uma narrativa simples e direta, mas mostra volumes da pena do autor.











Ficha Técnica:


Nome: Anacrônicos

Autor: Luiz Bras

Editora: Link Editora

Número de Páginas: 28

Ano de Publicação: 2017


Avaliação:


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*Material enviado em parceria com o autor


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