• Paulo Vinicius

Resenha: "Adágio" de Felipe Cagno, Deyvison Manes, Brão e Natália Marques

Em um mundo onde sonhos podem ser compartilhados nas redes sociais, Kaya Muniz se sente frustrada por não conseguir controlar os seus. Mas, quando ela começa a testar uma droga e seus sonhos se tornam pesadelos, ela fica famosa do dia para a noite. Mas, o quanto a sua mente será afetada por isso? 

Sinopse:


Em 2067 um aplicativo/rede social chamado ADAGIO permite que os usuários postem seus sonhos online - ao vivo ou gravados.

É o fim do entretenimento produzido como conhecemos hoje. Não existem mais filmes, séries de TV ou vídeos online, agora as pessoas assistem apenas os sonhos umas das outras...

Quando a jovem Kaya Muniz experimenta uma droga sintética e faz uma live do seu primeiro pesadelo lúcido, ela cria um novo gênero dentro do aplicativo - o terror. A tão desejada fama vem em uma enxurrada de curtidas e compartilhamentos, mas quando se escolhe ter pesadelos toda noite, qual é o impacto emocional e mental? Qual é o preço a se pagar?




Nesta HQ, Felipe Cagno cria uma narrativa que extrapola um pouco de um problema muito atual: as redes sociais. A persona que as pessoas criam nas redes sociais e o fascínio pela quantidade de cliques e likes em cada publicação. Um tema muito atual em uma abordagem cyberpunk fenomenal, daquelas que eu não via há muito tempo. Eu já me tornei fã de todos os envolvidos nesta HQ seja o roteirista, o letrista e os dois artistas. O conjunto da obra ficou muito acima da média e a Avec está de parabéns com uma edição que não deixa nada a dever com uma HQ lançada no mercado internacional. 

O impacto das redes sociais em nossas vidas já é um tema frequentemente abordado entre especialistas. A forma como nos expressamos, como criamos uma nova persona, como lutamos por popularidade. A batalha pelos likes se tornou algo cotidiano e comum nas vidas de milhões de pessoas. É com esse tema de partida que Felipe Cagno nos mostra uma realidade assustadora onde sonhos podem ser compartilhados com o público. Tornam-se filmes em streaming e patches podem ser instalados para criar experiências diferenciadas. Uma das coisas mais curiosas na narrativa de Cagno é em como ele consegue ser tão contemporâneo ao tratar de fama e popularidade nesse mundo imersivo da internet. Ao mesmo tempo é preciso observar como é a natureza humana. Se os sonhos fantásticos e imaginativos são populares, quando o elemento do medo e do terror é introduzido parece que isso atiça ainda mais a curiosidade das pessoas. O fascínio pelo maldito torna Kaya mais popular, mesmo que seus pesadelos comecem a afetar suas relações sociais comuns. Quanto mais estranhos e bizarros os pesadelos, mais acessos seus streaming possuem. O que isso diz a respeito de nós? 

Em uma abordagem mais intimista vamos observar Kaya tendo dificuldades em perceber o que acontece ao seu redor. Sua fixação com o modelo de homem ideal e desejado (no caso, o sedutor Demian) é o que vai levar nossa protagonista a tomar decisões reprováveis. Vale dizer que Kaya não é nenhuma heroína, e sua vontade de ser notada se sobrepõe ao bom senso. Mesmo sabendo dos riscos que o pó de fada teria na sua experiência com Adágio, Kaya coloca isso no fundo em prol de curtidas. Vamos ver desenvolvimentos ruins na relação de Kaya com Penelope e isso vai degringolando até chegar a uma situação sem volta. Somado a isso, os pesadelos cada vez mais reais de Kaya vão somatizando em sua própria percepção de mundo. Ela começa a ter ansiedades e medos palpáveis; sem falar no vício gerado pela droga. A grande pergunta que é feita ao longo da narrativa é: alguns sacrifícios compensam em troca de popularidade?


Já falei muito do roteiro e dos temas trabalhados. É preciso tratar da arte em si. Em primeiro lugar o letramento está muito bom e consegue alternar entre um estilo retinho no mundo real ou em algo assustador no mundo de pesadelos. Achei muito eficiente e se liga bem à proposta feita pelo roteiro do Cagno. Por outro lado temos dois tipos de arte: a arte de Natália Marques, mais voltada para o mundo real e o mundo de pesadelos criado por Brão. No primeiro caso, a Natália consegue captar muito bem a atmosfera futurista proposta pelo roteiro. Gosto das linhas suaves que ela utiliza na construção dos personagens ao mesmo tempo em que ela não se intimida em mostrar cenas mais impactantes. A palheta azulada que ela utiliza dá um frescor às páginas que é muito legal. Uma das cenas que eu particularmente gosto, por acaso, não é azulada é com Kaya e Demian deitados no capô de um carro discutindo suas visões conflitantes de mundo. 

Brão é um artista que sabe assustar. Sério. As cenas que ele criou na narrativa no mundo dos pesadelos de Kaya são muito boas. Elas funcionam como uma forma de assustar mesmo. Por exemplo, a ideia da sombra escura que persegue nossa protagonista pode ser interpretada de diversas formas. Pode ser um elemento inconsciente dela, pode ser uma figura presente dentro do Adágio. Há muitas interpretações possíveis que só foram possíveis graças à arte sombria de Brão. A quadrinização feita por ele também é bastante ousada. Seja representando uma imaginação sendo esfacelada ou quadros que se sucedem uns aos outros como se um monstro estivesse à espreita. Foi bem natural a opção dele em usar o vermelho e o preto como formas de expressão. Simplesmente adorei a arte do Brão e fiquei curioso em conhecer outros materiais dele. 

Adágio é uma obra que mostra a maturidade da Avec ao lidar com HQs. Toda a formatação é luxuosa, não encontramos erros de revisão, além de dispor de um papel que realça a arte da Natália e do Brão. Aliás, vale destacar que no final temos sketches dos dois artistas, além de trechos do próprio roteiro. Como eu disse no começo: Adágio não fica nada a dever a um quadrinho do mercado internacional. Competente, instigante e belo. 


Ficha Técnica:

Nome: Adágio Autor: Felipe Cagno Letrista: Deyvison Manes Artistas: Brão e Natália Marques Editora: Avec Gênero: Ficção Científica Número de Páginas: 112 Ano de Publicação: 2018

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