• Paulo Vinicius

Resenha: "A Sombra do Vento" (O Cemitério dos Livros Esquecido vol. 1) de Carlos Ruiz Zafón

Daniel Sempere é levado pelo seu pai a um estranho local chamado o cemitério dos livros esquecidos. Lá ele entra em contato com um livro chamado A Sombra do Vento escrito por um autor chamado Julián Carax. Daniel irá em busca da história deste autor o que o colocará em uma trama de amizade e traição.



Sinopse:


Barcelona, 1945. Daniel Sempere acorda na noite de seu aniversário de onze anos e percebe que já não se lembra do rosto da falecida mãe. Para consolá-lo, o pai leva o menino pela primeira vez ao Cemitério dos Livros Esquecidos. É lá que Daniel descobre A sombra do vento, romance escrito por Julián Carax, que logo se torna seu autor favorito, sua obsessão. No entanto, quando começa a buscar outras obras do escritor, Daniel descobre que alguém anda destruindo sistematicamente todos os exemplares de todos os livros que Carax já publicou, e que o que tem nas mãos pode muito bem ser o último volume sobrevivente. Junto com seu amigo Fermín, Daniel percorre a cidade, adentrando as ruelas e os segredos mais obscuros de Barcelona. Anos se passam e sua investigação inocente se transforma em uma trama de mistério, magia, loucura e assassinato. E o destino de seu autor favorito de repente parece intimamente conectado ao dele.





A Sombra do Vento é um daqueles livros mágicos que entram na lista de qualquer leitor. Seja ele um amante de fantasia, de drama, de policial, de mistério. Isso porque a escrita de Zafón ultrapassa as barreiras que separam os gêneros literários. Então, eu não poderia deixá-lo de fora do Ficções. Sim, já estou antecipando uma nota perfeita para este livro porque não tem como não elogiar a narrativa posta aqui. A gente pode até reclamar das sequências, dizer que elas não ficaram à altura deste primeiro volume, mas aqui não tem como iniciar com um adjetivo melhor do que poético. E Zafón realiza essa façanha com um toque perfeito de latinidade, com uma escrita diferente da que estamos acostumados a encarar. Ao final da leitura, me senti tocado com a melancolia e a ternura das palavras presentes no livro. Tudo me tocou de alguma forma.


O livro possui uma narrativa em primeira pessoa em algo como se fosse um livro de memórias. A trama nos é contada por Daniel Sempere, um jovem filho de um dono de livraria que acaba envolvido em uma história que ultrapassa a sua compreensão. Ter contato com A Sombra do Vento o colocará frente a frente com as vidas de Julián Carax, Miquel Moliner, Penelope Aldaya, Nuria Monfort e outros personagens. Ao mesmo tempo a própria história de Daniel se desenrola com suas idas e vindas e seus dramas adolescentes. A mágica que torna este livro tão especial é que ele possui algumas coincidências e uma metanarrativa, ou seja, existe uma história sendo contada dentro da história. E Zafón consegue carregar ambas as histórias com maestria, sem peso. Alguns podem reclamar que o livro é demasiado longo, mas eu considerei o tamanho apropriado, porque ele precisava trabalhar todas as tramas com bastante calma e parcimônia. Não havia espaço para uma narrativa apressada. Isso poderia prejudicar o resultado final.


Zafón flerta com a fantasia em alguns momentos. Não diria que ele se encaixaria nesse gênero. Vou classificá-lo como realismo mágico, mas acho que nem isso eu consideraria se parasse para refletir melhor. Existem momentos de situações que podem ser entendidas como inexplicadas, quase jogadas no campo das brumas. Mas, são situações que um leitor mais atento poderia encontrar outras explicações que não o fantástico. Vou entender o livro como um realismo mágico apenas por mero enfeite e para meu próprio agrado do que necessariamente entendê-lo como tal. Recriminem-me se quiserem, mas jogo esta para as Musas que acho que não irão me condenar.



Nosso protagonista é Daniel Sempere, filho do dono de uma livraria. Seu pai o leva aos dez anos a um lugar chamado de o cemitério dos livros esquecidos. É um lugar onde aparentemente ficam guardados volumes esquecidos, autores que tiveram seus livros abandonados e acabaram tendo suas últimas edições enviadas a este local. Ainda temos poucas informações sobre o que é o cemitério e como ele veio a ser. Creio que o autor vá se voltar para isso em volumes futuros. Cada livreiro tem o direito de escolher um livro ao qual deverá proteger por toda a sua vida. Daniel escolhe A Sombra do Vento de um autor chamado Julián Carax. O livro é arrebatador para ele; uma escrita belíssima que o faz buscar outros livros do autor. Sua paixão pelos livros de Carax o faz ir atrás da figura do próprio autor, saber mais a respeito daquele de quem ele havia se tornado um fã. E é aí que ele vai esbarrar em uma história dramática de um personagem que ao mesmo tempo em que é encantador, possui uma vida sofrida.


Podemos dizer que Julián também é um protagonista embora saibamos de sua história de forma indireta por aquilo que Daniel vai descobrindo a seu respeito. E é aí que entra a mágica da narrativa contada por Zafón. O quanto da história é verdadeira e o quanto é falsa? O quanto é exagero? Isso porque a gente vai acreditando na narrativa sendo contada através das investigações feitas por Daniel e Fermín, até que em certo momento um personagem chega e pergunta: "Mas, espera aí... você chegou a ouvir o outro lado da questão? Não é importante saber o outro ponto de vista?" E aí é que passamos a rever tudo aquilo que foi descoberto anteriormente. Nós, como leitores, tendemos a acreditar em uma narrativa contada. Até como pessoas mesmo, gostamos de quando há uma distinção clara entre preto e branco, uma dicotomia certa e precisa. Só que isso não é algo realista. É nesse cinza que Zafón trabalha e nos encaminha para onde quer realmente nos levar. O quanto de agência teve Julián nos fatos que ocorreram ao seu redor? Embora em muitos momentos a história de Julián seja uma linda história de amor de Romeu e Julieta, não se enganem: isso não é uma história de amor. Zafón vai te dar uma bela de uma rasteira quando você menos esperar.


Podemos falar de outros personagens como Fermín e Fumero. Vou começar por Fermín, nosso nobre companheiro e parceiro de Daniel. Um homem que esconde segredos, mas que vai ser aquela pessoa sábia que tem muito a ensinar ao jovem rapaz. Pode ser que ele seja a mão do autor buscando guiar o personagem pelos caminhos corretos, quase como deus ex machina, mas acho isso bem de leve. Como um bom sábio, Fermín não leva, ele apenas mostra as possibilidades. Quem tem o poder de decisão é Daniel. E este é um personagem que, assim como nós, vai errar bastante. E através dos seus erros, vai se tornando alguém melhor. Já Fumero é aquele vilão que os leitores gostam de odiar. Desprezível, maldoso, repugnante. Mas, ao mesmo tempo, ele representa tudo aquilo que a Espanha franquista era: uma ditadura que ora esteve do lado dos nazistas, ora teve que se adequar a um momento de pós-guerra onde as alianças pendiam de acordo com a hora do dia. Tudo dependia de quem estava em alta naquela semana. Fumero era o homem certo naquele momento. Claro que como a gente pôde acompanhar na história de nosso mundo, esse momento foi finito: teve dia e hora para acabar. O mais curioso é o quanto Fumero estava no centro de tudo dentro da narrativa; como um imenso buraco negro que a tudo sugava e nada deixava para trás.



Talvez o grande tema de A Sombra do Vento sejam escolhas. O quanto as escolhas que fazemos moldam as nossas vidas. Seja Daniel decidindo o que fazer a respeito de sua obsessão por Carax, seja por Julián e seu amor que acaba se tornando impossível e faz sua vida parar no tempo. Daniel também terá sua própria escolha romântica a fazer, seja no começo em que terá seu coração dilacerado, seja mais para a frente onde ele estará dividido. O que fazer? Como fazer? São questões que todo adolescente em sua idade passa, inseguranças que constroem os tijolos da experiência que irão nos levar à vida adulta. Chega a ser engraçado a maneira como Fermín conversa com Daniel e a forma dúbia como os seus diálogos parecem. Ao mesmo tempo em que suas falas mostram o quanto ele sabe que isso pertence a uma fase adolescente da vida de um homem onde o coração de uma única mulher é todo o universo assim como ele dá a seriedade que Daniel precisava naquele momento em específico. Por outro lado Carax está preso em uma espiral de tristezas e remorsos. Reaver a vida após uma série de perdas pode ser uma tarefa terrível para uma pessoa e ele sente isso na pele. Aquele momento em que você apenas quer queimar o mundo inteiro e fazê-lo pagar por todo o mal que lhe foi impingido.


Podemos entender também que o livro trata de segundas chances. E estas segundas chances precisam ser aproveitadas da melhor forma possível porque a vida merece ser vivida. É assim que eu vejo as histórias tanto de Daniel, como de Carax quanto de Fermín. Ou até mesmo de Fumero e Nuria. Podemos colocar todos estes personagens no mesmo saco. Um destes personagens se dedicou a uma pessoa ao longo de toda a sua vida, amando-a obsessivamente. A ponto de sacrificar a sua própria, mesmo sabendo que não teria nada em troca. Quando Daniel começa a unir a existência dessas pessoas, fica claro que a vida precisa seguir em frente e o relógio volta a andar.


Eu poderia ficar horas discutindo esse livro, mas acho que minha resenha já está grande demais e temo entregar demais da história. Zafón tem aquela escrita que precisa ser apreciada com parcimônia, sem pressa para se chegar ao destino final. Seus personagens ficam gravados em nossa memória, tendo o mesmo efeito que o livro descoberto por Daniel há tantos anos atrás quando ele, pequeno, adentra pela primeira vez naquele labirinto que é o cemitério dos livros esquecidos. Tenham certeza que esta é uma história que jamais será esquecida por mim.










Ficha Técnica:


Nome: A Sombra do Vento

Autor: Carlos Ruiz Zafón

Série: O Cemitério dos Livros Esquecidos vol. 1

Editora: Suma

Tradutora: Márcia Ribas

Número de Páginas: 464

Ano de Publicação: 2017 (nova edição)


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