• Paulo Vinicius

Resenha: "A Ordem Vermelha" (Filhos da Degradação vol. 1) de Felipe Castilho

Em uma cidade governada por uma deusa, um falcoeiro, um anão, uma assassina e um sinfo irão lutar para recuperar a liberdade. E descobrirão que a cidade de Untherak esconde segredos sombrios. 

Sinopse:


Você destruiria seu mundo em nome da verdade?

A última região habitada do mundo, Untherak, é povoada por humanos, anões e gigantes, sinfos, kaorshs e gnolls. Nela, a deusa Una reina soberana, lembrando a todos a missão maior de suas vidas: servir a ela sem questionamentos. No entanto, um pequeno grupo de rebeldes, liderado por uma figura misteriosa, está disposto a tudo para tirá-la do trono.

Com essa fagulha de esperança, mais indivíduos se unem à causa e mostram a una que seus dias talvez estejam contados. Um grupo instável e heterogêneo que precisará resolver suas diferenças a fim não só de desvendar os segredos de Untherak, mas também enfrentar seu mais terrível guardião, o general Proghon, e preparar-se para a possibilidade de um futuro totalmente desconhecido. Se uma deusa cai, o que vem depois?

Ordem vermelha: Filhos da degradação é o preâmbulo da jornada de quatro improváveis heróis lutando pela liberdade de um povo, um épico sobre resistir à opressão, sobre lutar contra o status quo e construir bravamente o próprio destino. Porta de entrada para um novo mundo com inspirações de fantasia medieval, personagens marcantes e uma narrativa que salta das páginas a cada vila, ruela e beco de Untherak. O primeiro livro de fantasia que a editora intrínseca lança em parceria com a CCXP - Comic Con Experience, escrito por Felipe Castilho em cocriação com Rodrigo Bastos Didier e Victor Hugo Sousa.




Uma coisa que leitores de fantasia nacional precisam concordar comigo é como os autores brasileiros são ousados. Raramente eu vejo uma obra comum no meio dos livros publicados por aqui. Seja uma fantasia com tons orientais, uma escola de magia no Brasil que lida com tráfico de drogas, uma matilha de lobos motoqueiros do Brasil Central é impossível encontrar o comum. Talvez pelo mercado nacional ser tão agressivo com autores novos e preferir best-sellers internacionais. Ou seja, para alguém se destacar ele precisa realmente se diferenciar do normal. E é isso o que Felipe Castilho faz em A Ordem Vermelha: se diferenciar. 

Algo que me impressionou desde o começo da narrativa é como o autor é seguro. A escrita dele dá pouca margem para instabilidade. Tudo é construído de uma forma progressiva para que o leitor seja absorvido pouco a pouco pela narrativa e consiga se tornar empático com aquilo que está acontecendo no mundo. Nada é colocado por acaso entre os capítulos; tudo vai desembocar em algum momento posterior. Essa segurança na escrita não é algo que vemos frequentemente por aí. Muitos autores novos pecam porque a narrativa se torna muito instável, sofre de altos e baixos o tempo todo. Aqui temos um ritmo reto e constante do início ao fim. Apesar de isso ser uma virtude, também é um defeito. Se o ritmo (ou como alguns gostam de falar: o pacing) é constante, ele não dá margens para muitos altos. A narrativa progride em seu próprio compasso e isso pode desagradar alguns fãs que esperam uma ação mais desenfreada e frenética. A gente até tem isso nos momentos finais da narrativa (com os capítulos em contagem regressiva), mas não é isso em 90% da trama. 

“As seis faces da deusa Una observam você aonde quer que vá. Às vésperas de mais um Festival da Morte, chegou a hora de retribuir esse olhar. Bem de perto”. 

Para mim, que gosto de um desenvolvimento mais lento e seguro, é excelente. No final do livro eu já estava vendido para tudo o que o autor tinha colocado. Porém, preciso enxergar do ponto de vista também daqueles que esperam algo distinto. Por essa razão, o pacing vai afetar a narrativa em si. Mas, pensem no seguinte: a maior parte das grandes séries sofrem com o primeiro livro. A síndrome do volume inicial afeta a todos porque o autor precisa estabelecer as bases nas quais ele vai trabalhar posteriormente. Apresentar o mundo, mostrar as relações entre os personagens, desenvolver a política, introduzir o tema a ser trabalhado... isto é, mostrar a você o status quo, o padrão narrativo. Isso para que o autor possa quebrar o padrão ao longo da série. A narrativa é apresentada em terceira pessoa a partir de alguns personagens como Aelian, Raazi e Harun. Estas são as principais vozes narrativas. 

Os personagens são lentamente trabalhados pelo autor. Ele dedica algum tempo mostrando suas motivações e objetivos finais. Muitos acham que o Aelian é o protagonista. Eu discordo. Para mim, os três pontos de vista principais são os protagonista. O autor equilibra o tempo de tela de cada um. Claro que se eu tirei uma coruja da avaliação final, preciso justificar o motivo. E este vem no sentido de que o autor passa muito tempo na construção de mundo o que acaba por deixar alguns momentos de lado entre os personagens. Aliás, dá até para desconfiar que o verdadeiro protagonista de A Ordem Vermelha é a própria Untherak e não os personagens em si. A sensação que eu tive é que o Felipe usou de um expediente semelhante ao que Bradley Beaulieu fez em Twelve Kings of Sharakhai. Ao descrever a cidade com tanto esmero, ela ganha vida e parece se mover com um propósito junto dos personagens. Algo que acontece na cidade afeta o próprio universo literário do autor. Quando uma das construções é derrubada lá pela segunda metade da história, o acontecimento fica cercado por todo um gravitas, toda uma urgência. 

"Cada um repara de um jeito na areia que cai na ampulheta, seja grão a grão ou num fluxo contínuo. O tempo é relativo.(...)"

Com esse foco na cidade, as relações entre os personagens e dos personagens com o mundo fica um pouco de lado. Pelo plot twist no final da história, já deu para perceber que esse deve ser o foco do volume final da série (sim, é uma duologia). Mas, algumas coisas que eu gostei foram o fato de o autor nem sempre ser óbvio (apesar de ele empregar alguns clichês) e da representação feminina na narrativa. Esta última ficou excelente com personagens bem realistas no sentido de que não é nenhum estereótipo feminino, mas sim mulheres que pensam, agem, sentem. Quanto aos clichês que alguns reclamaram, a mim não incomodaram. Até uma das "mortes" que o pessoal tanto reclama teve o impacto emocional em mim. Mesmo a gente sabendo o que pode acontecer, sentir é diferente de saber. Eu sabia que aquilo ia acontecer, mas me entristeci da mesma forma. É difícil nos dias de hoje não usar algum clichê; eles estão aí para serem usados. Uma velha ferramenta continua a ser uma boa ferramenta quando bem empregada. 

Já fiz as críticas sobre a narrativa lá em cima, portanto agora eu sou só elogios. Como me agradou as temáticas trazidas pelo autor. Dá vontade de soltar um palavrão aqui de como é libertador ver um cara usar tantos temas contemporâneos com tamanha desenvoltura. É isso que a gente precisa. Destemor. Não vou falar de todos porque aí eu estragaria algumas das surpresas que o Felipe aprontou na história. Antes de mais nada eu vou tocar no tema da alienação. E aqui fica claro que a religião de Una é o ópio do povo. Toda aquela exploração que Una faz há mais de mil anos foi assimilada pela população. O status quo é ser explorado... é ser um servo. Isso formou uma sociedade acomodada e estática que depende do jeitinho para ter algum nível de conforto. No começo da narrativa, Aelian é a própria imagem perfeita dessa exploração. Apesar de ele entender no seu âmago o quanto aquilo é ruim, se tornou tão parte dele que qualquer coisa diferente não é compreendida. O mais curioso é que mais à frente quando os paradigmas começam a ser quebrados, algumas pessoas não conseguem aceitar a exploração que lhes havia sido imposta. Muitos lutam contra isso. Mesmo a verdade estando ali na cara deles, os séculos de exploração se manifestavam com força. Felipe discute com clareza a noção de alienação... aliás, se os leitores conseguirem fazer a associação, não é diferente dos dias de hoje. Qual é a diferença entre o que os Autoridades faziam em Untherak e o que os políticos fazem em Brasília? A própria figura da deusa pode ser associada facilmente a outra figura de autoridade tupiniquim.

Outro tema tratado é o da revolta popular. O que acontece posteriormente em Untherak é fruto de séculos de exploração, fazendo o caldeirão se encher cada vez mais e mais. Rousseau, um filósofo francês do século XVIII, apontava ser impossível conter a insatisfação popular por muito tempo. Existe um limite pelo qual um ser humano tolera ser explorado. O problema maior é a imobilidade. Assim como na Revolução Francesa, em A Ordem Vermelha temos uma insurreição popular onde faltava apenas uma cabeça para que o movimento pudesse seguir adiante. Aparição usa de táticas de guerrilha para tentar minar o poder de Una. O papel de Aparição é apenas conscientizar as pessoas da necessidade de uma mudança real: o fim da escravidão, a suspensão de privilégios, a separação entre religião e Estado. Todos são ideais iluministas de um filósofo que foi precursor de Marx. 

Ah... só para deixar um último detalhe: aquele final se parece muito com o Êxodo em que o povo de Moisés foge do Egito. Se o Felipe colocar um Mar Vermelho a ser separado no segundo volume não vou estranhar nada. 

"Untherak inteira é uma cela, meu bem - disse a cortesã. - E talvez seja melhor assim. Vai saber o que existe à solta nos pântanos e na Degradação? As barras das celas e as muralhas nos prendem e nos protegem. É o preço das coisas. E tudo tem um preço."

Só tenho a dizer com o quanto eu fiquei impressionado com a leitura. Não é um livro perfeito, nada disso, mas é muito acima do que temos hoje no mercado. Isso porque além de o autor ser muito bom, ele teve uma equipe que lhe auxiliou com revisão, copidesque, divulgação. A Ordem Vermelha serve para mostrar a outras editoras grandes o quanto uma boa plataforma pode colaborar para um livro de sucesso. 


Ficha Técnica:

Nome: A Ordem Vermelha Autor: Felipe Castilho Série: Filhos da Degradação vol. 1 Editora: Intrínseca Gênero: Fantasia Número de Páginas: 448 ​Ano de Publicação: 2017


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