• Paulo Vinicius

Resenha: "A Melodia Feroz" (Monstros da Violência vol. 1) de V.E. Schwab

Kate e August pertencem a pontos diferentes de uma cidade. De um lado, todos vivem em um ambiente "seguro" mantido através de acordos e subornos. Do outro lado, uma força militar busca destruir seus inimigos esperando um dia encontrar a paz.

Sinopse:


Kate Harker e August Flynn vivem em lados opostos de uma cidade dividida entre Norte e Sul, onde a violência começou a gerar monstros de verdade. Eles são filhos dos líderes desses territórios inimigos e seus objetivos não poderiam ser mais diferentes. Kate sonha em ser tão cruel e impiedosa quanto o pai, que deixa os monstros livres e vende proteção aos humanos. August também quer ser como seu pai: um homem bondoso que defende os inocentes. O problema é que ele é um dos monstros, capaz de roubar a alma das vítimas com apenas uma nota musical. Quando Kate volta à cidade depois de um longo período, August recebe a missão de ficar de olho nela, disfarçado de um garoto comum. Não vai ser fácil para ele esconder sua verdadeira identidade, ainda mais quando uma revolução entre os monstros está prestes a eclodir, obrigando os dois a se unir para conseguir sobreviver.




Algumas vezes nos deparamos com ideias tão incríveis e originais que uma história se torna sensacional a cada virada de página. Outras vezes as ideias são muito legais, mas o autor não consegue entregar algo à altura de sua inspiração original. A Melodia Feroz está no segundo caso. Conheço o trabalho de Victoria Schwab por Um Tom Mais Escuro de Magia que foi um dos pontos altos para mim em 2017. Uma leitura ágil e fluida em que eu devorei quase 200 páginas em um único dia. Já A Melodia Feroz não teve o mesmo efeito sobre mim.

Victoria Schwab tem uma escrita doce e sutil. Conseguimos ver algumas das descrições que ela faz e somos transportados até o local. O mesmo pode ser dito das situações envolvendo os personagens. Todas são carregadas de sentimento. Cada gesto, cada olhar, cada movimento de corpo produz uma leitura. August é um personagem muito gestual; ele imagina o mundo como notas musicais e isso é transportado para as linhas do livro pela autora. Vou voltar a essa alegoria da música alguns parágrafos mais abaixo. O foco narrativo está em terceira pessoa, mas mais próximo dos personagens, como se estivéssemos empoleirados em seus ombros. Ora vemos o mundo sob a rebeldia de Kate, ora sob a melancolia de August.

“Bem ou mal eram palavras frágeis. Os monstros não ligavam para intenções ou ideais.”

Os personagens são bem distintos entre si. Kate Harker é uma menina que passa a imagem de rebelde e feroz, mas ela apenas deseja ter a atenção do pai. Sua mãe e ela se envolveram em um estranho acidente do qual ela não conhece todos os detalhes. A gente percebe na personagem uma fúria nem um pouco escondida por Kate. Se tiver a oportunidade, vai ferir alguém apenas para mostrar o seu ponto. Curiosamente, mesmo tendo todo esse instinto feroz, Kate ainda não cometeu uma injustiça ou um crime. E isso vai fazer toda a diferença na relação dela com August.

O segundo protagonista é um sunai, uma espécie de demônio surgido a partir de grandes catástrofes. Os sunai são uma espécie de justiceiros, que se alimentam das almas daqueles que cometeram alguma atrocidade. Nesse primeiro volume sabemos que existem três sunai: August, Leo e Ilsa. O legal é que os seus poderes funcionam a partir de música para poder sugar as almas destas pessoas. August usa um violino, Ilsa possui uma voz melodiosa e Leo pode usar qualquer instrumento. Os instrumentos musicais até mesmo demarcam como é a personalidade dos sunai: August é mais soturno e introspectivo, Ilsa é doce e gentil como uma flor e Leo é um homem de objetivos e direto.


Estamos diante de uma distopia que confronta um mundo controlado a partir de uma mão forte e monitorado o tempo inteiro e outro onde todos são livres, mas vivem sob a sombra do medo. Demônios chamados corsai e malchai surgiram no mundo e passaram a atacar as pessoas. Os corsai são seres mais primitivos que devoram tudo por onde colocam seus olhos. Já os malchai gostam de se divertir manipulando as pessoas. Callum Harker, pai de Kate, era uma pessoa envolvida com o mundo do crime e logo foi capaz de armar uma espécie de trégua com os corsai e os malchai. Para isso as pessoas precisam pagar pela sua proteção. Em troca, Callum os protege dos dois tipos de demônios. Mas, essa trégua vai se revelar bem frágil. Do outro lado, Henry Flynn possui um exército à sua disposição e transformou o seu lado da cidade em um campo de batalha. Todos vivem em uma guerra constante todos os dias de sua vida. A pergunta é: onde você gostaria de viver? Em um mundo de falsas aparências ou em outro em uma guerra constante?

O título do livro, por incrível que pareça, não se refere à aparência monstruosa de August. Se refere à natureza selvagem de Kate. Em várias oportunidades, é ela quem se revela ser mais monstruosa do que ele. E essa pergunta surge nos lábios de August e nas reações de Kate em diversas oportunidades. A jovem não consegue se encontrar consigo mesma. Ela quer agradar ao pai, mas qual é o motivo para isso? Apenas ser aceita? Rapidamente a personagem percebe o quão vazio isso é. Progressivamente ela se encontra em um dilema ao precisar encontrar uma motivação para continuar existindo. Uma boa metáfora aparece na parte final do livro. Enquanto August representa o estoicismo da música clássica, Kate é a rebeldia do rock.

“Quando alguém aperta um gatilho, dispara uma bomba, faz um ônibus cheio de turistas cair da ponte, o resultado não são apenas escombros e cadáveres. Existe outra coisa. Algo mau. Uma consequência. Uma repercussão. Uma reação a todo o ódio, dor e morte.”

Já August é o monstro que não é um monstro. Ele não aceita ter de se alimentar de almas humanas. Está há muito tempo sem se alimentar e isso causa uma situação perigosa em que ele pode ser tomado pelo seu lado sombrio. Na visão do personagem, nenhuma vida deve ser tomada dessa forma. Não por suas mãos. Leo deseja que ele abrace o seu instinto e repudia a decisão de Henry Flynn por manter uma trégua com Harker. Se Leo é a justiça cega e absoluta, August é a justiça flexível que busca encontrar a bondade no coração das pessoas. O fato de ele ter vivido fechado dentro do complexo dos Flynn por toda a sua vida o tornou uma pessoa inocente quanto aos males do mundo.

Para mim, a narrativa é mal aproveitada pela autora. Era possível explorar várias nuances não só das personalidades dos dois protagonistas como das situações sociais vividas nas grandes cidades. No entanto, Victoria preferiu focar suas atenções em chacoalhar as fundações da cidade V. A história começa mostrando o status quo e as diferenças entre os dois lados da cidade e termina como uma história de perseguição. Achei mal aproveitado e no final acabou sendo mais uma história em uma distopia. Pior do que isso: a gente consegue imaginar que isso vai terminar em uma história de amor entre os dois personagens, a la Romeu e Julieta. Isso é insinuado vez ou outra ao longo da narrativa, mas ainda não aconteceu. Eu achei que essa história poderia ter sido um pouco mais esticada sem a necessidade de correr tanto para destruir tudo.

“Sou o que acontece quando uma criança tem tanto medo do mundo em que vive que escapa da única maneira que conhece: com violência”.

Estamos diante de uma boa história que pode entreter alguns leitores. Para mim, foi apenas mais uma história com alguns tropes mais conhecidos. Os personagens são contrastantes e revelam um pouco daquilo que a autora deseja trabalhar ao longo da história. Até as criaturas e o "sistema de magia" são criativos. No entanto, para mim, a autora não foi capaz de atingir os seus objetivos. Deixou alguns ganchos para o segundo volume que encerra a duologia.


Ficha Técnica:

Nome: A Melodia Feroz Autora: Victoria Schwab Série: Monstros da Violência vol. 1 Editora: Seguinte (no Brasil) Gênero: Fantasia/Distopia Tradutor: Guilherme Miranda Número de Páginas: 384 Ano de Publicação: 2017


Outros Volumes:

O Dueto Sombrio (vol. 2)


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