• Paulo Vinicius

Resenha: "A Face dos Deuses" (As Crônicas da Aurora vol. 1) de Gleyzer Wendrew

Atualizado: 27 de Mai de 2019

Uma perigosa aliança entre Vatria e Venn vai obrigar Heros a tomar decisões terríveis que vão afetar sua família e seu reino para sempre. Uma guerra entre Vatria e Maaen vai acontecer... não importa o quanto Heros tente evitar. O ódio vencerá a honra?

Sinopse:


Heros Kinnhäert, rei de Maäen, ainda é atormentado pelos horrores vividos durante a Longa Guerra, e tudo que deseja é descansar em paz, mas ao saber da terrível aliança entre dois grandes senhores, vê-se preso em uma teia de conspirações nunca antes vista, e não medirá esforços para evitar a destruição de seu país…

No Norte, Koran K’Voöhk é um orgulhoso guerreiro que retorna à sua cidade após o exílio que lhe foi imposto ainda garoto e se depara com a mais pura decadência: sua Família está em declínio; seu castelo, abandonado aos ratos; seus inimigos, ainda mais poderosos… Conseguirá ele reerguer o nome de sua Família e recuperar o prestígio que ela um dia tivera?

Mentiras, laços frágeis, falsas emoções e adagas traiçoeiras permeiam um mundo cercado de religião, política e deuses misteriosos.




Info Dumping. Esta é uma palavra que assombra muitos autores. Quando a construção de mundo ultrapassa o necessário? Como encontrar o equilíbrio perfeito entre personagens e narrativa? Nem sempre é fácil porque a construção de mundo é importante para calcar a narrativa em bases sólidas. Ao mesmo tempo não é possível deixar o desenvolvimento dos personagens de lado porque do contrário falta o elemento da empatia e da identificação. Mas, também é preciso levar a história adiante porque a narrativa depende disso. Dúvida cruel não?

A Face dos Deuses possui uma boa narrativa construída dentro do gênero da dark fantasy. Aliás, leitores, se vocês tem estômago fraco ou não curtem histórias com muita dose de violência, caiam fora. A história tem muitas destas cenas com mortes bem ilustrativas. Aviso isto porque algumas pessoas não lidam bem com esta temática. Eu gostei porque delineia muito bem qual a proposta do autor. Vamos ver muita intriga de corte, maquinações políticas, alianças sendo formadas e desfeitas, bem no estilo de Crônicas de Gelo e Fogo. Entretanto, eu traçaria uma relação com outra leitura que eu fiz recentemente, que é Passagem para a Escuridão do autor Danilo Sarcinelli. Minha comparação é unicamente porque são leituras que eu fiz em um período muito próximo e ambos tratam basicamente dos mesmos temas. Só que A Face dos Deuses faz uma curva para uma ambientação mais sombria.

"Se casar para evitar uma nova guerra e a iminente destruição de seu país fosse o preço que o belo kaniäg tivesse que pagar, ele o faria..."

Temos aqui uma escrita feita em Pontos de Vista onde o autor posiciona as cenas em algumas cidades espalhadas pelo continente. A narrativa em terceira pessoa onisciente serve para apresentar os vários núcleos da história. Essa ferramenta se encaixa muito bem na proposta do autor, porém eu preferiria que ele optasse por fixar personagens no qual estabelecer seus Pontos de Vista. Ora vemos a história pelos olhos de Heros, ora pelo de Cleyo, ora no de Koran, no de Nieme, no de Kazoya, no de Vlad. Isso não prejudica a história de forma alguma. Mas, quando a nossa atenção e foco ficam tão dispersos se torna complicado estabelecer um relacionamento qualquer com os personagens. George R.R. Martin escolhe uns 6 ou 7 personagens (de centenas de personagens espalhados na narrativa) onde se focar para apresentar um determinado núcleo narrativo. Para a narrativa de Gleyzer escolher poucos POVs daria um dinamismo e uma coesão maior para a história. Mas, novamente: é só uma sugestão... pode ser que os planos do autor sejam outros.

Os personagens são muito bem apresentados. Não consigo dizer exatamente quem é o protagonista da história. Pelo que eu pude entender os protagonistas são os próprios países em si: Venn, Maaen e Vatria. São como se estes fossem os personagens e que cada um fosse o antagonista do outro. Existe claramente uma divisão sobre que lado representaria o "bem" e que lado representaria o "mal". Apesar de que o autor começa a borrar um pouco essa visão no final do primeiro volume. Ficamos conhecendo a história de cada um dos personagens e como eles chegaram até o lugar onde estavam. A sensação que eu tive com a história do Gleyzer é a mesma que eu tive com a do Danilo: é como se o autor tivesse posicionando os personagens para os próximos volumes. Como peças de xadrez. Entretanto, o problema aparece quando o desenvolvimento de personagens e a construção de mundo se sobrepõem ao desenvolvimento da narrativa. Já chego lá.

Gostei demais dos personagens ao final do primeiro volume. Sinto que alguns deles já se tornaram suficientemente importantes para eu ficar curioso para saber o que vai acontecer com eles a seguir. Este é um ponto fundamental na escrita de uma narrativa. O extenso trabalho que o Gleyzer teve ao dar vida e intercruzar diversos personagens foi fundamental para ele ter personagens sólidos. E digo que estes personagens agora já devidamente apresentados irão gerar coisas muito interessantes no segundo volume. Cada um deles foi deixado em situações que deixam o leitor ansioso pelo que pode vir.

Tudo o que envolve a construção de mundo é fenomenal. Posso imaginar o trabalho do autor ao traçar linhas do tempo, ao construir escudos para cada uma das famílias e até criar títulos específicos para cada um dos reinos. A ideia de vestir a face dos deuses, que dá nome ao livro, é muito curiosa. Cada um dos deuses representa uma das emoções humanas e quando uma pessoa está com uma emoção muito forte, ele "veste" a face do Deus. Ideia bacana que eu quero ver o autor desenvolver melhor em outros volumes. Toda a história da Longa Guerra e dos bastidores que cercam o que pode ser o início da próxima é extensamente trabalhado pelo autor. Isso fornece ao leitor um senso de familiaridade que ao final do livro vai montando as peças de um quebra-cabeças. Os apêndices no final do livro são extremamente interessantes: o autor teve a preocupação de criar uma série de "literaturas" que dão mais riqueza ao mundo. Eu sempre valorizo este tipo de material adicional que compõe muito do que o autor cria e nem sempre acaba nas páginas de um romance.

"Quando os meninos finalmente conseguiram encurralá-lo numa rua sem saída, viram o padeiro se agarrar a um pedaço de pau, brandindo-o no ar de forma ameaçadora e jurando que mataria qualquer um que chegasse perto."

Porém, eu preciso destacar que o livro possui um ritmo muito afetado pela construção de mundo. Esta se sobrepõe demais à narrativa. São muitas informações despejadas nas páginas do romance que acabam por deixar a história constante. Faltou por exemplo um clímax para este primeiro volume. São muitos flashbacks apresentados de forma a mostrar as motivações dos personagens. Compreensível que o autor desejasse fazer isso até para se livrar do info dumping por completo no segundo volume. Mas, isto poderia ter sido feito de ma maneira mais suave. Na minha opinião, o excesso de informações prejudica muito o andamento da narrativa. Tanto é que a história que acontece no presente possui pouco espaço. Acredito que seria próximo a um terço da história é o que está acontecendo no momento em que o livro se passa. Este fato é agravado pela opção do autor de criar vários POVs. A cada novo POV o autor acaba precisando descrever o personagem. Até mesmo Nieme que possui apenas um capítulo para ela, tem sua personalidade delineada por inteiro neste momento singular. Até creio que o segundo volume tenha uma qualidade exponencialmente maior justamente porque o autor tratou de todo o info dumping neste primeiro volume.

Este é um bom livro de fantasia e demonstra mais uma vez a você, leitor, que os autores nacionais conseguem escrever um material de muita qualidade. Aliás, eu concordo com o meu amigo Diogo Andrade (autor de A Canção dos Shenlongs) ao dizer que precisamos até parar de nos referir a fantasia nacional ou não. Vamos ler bons livros de fantasia, sem criar um subgênero chamado livros de fantasia brasileiros. Nada disso. Aqui está mais um exemplo de um bom livro de fantasia, com personagens interessantes e uma boa construção de mundo. Aliás... boa não, excelente construção de mundo. Já estou ansioso pelo segundo volume.

"O coração é transformado em algo tão frio e indestrutível quanto gelo branco."

Ficha Técnica:


Nome: A Face dos Deuses

Autor: Gleyzer Wendrew

Série: As Crônicas da Aurora vol. 1

Editora: Hydra

Gênero: Fantasia

Número de Páginas: 160

Ano de Publicação: 2016


Outros Volumes:

A Dança dos Mortos (vol. 2)


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