• Paulo Vinicius

Resenha: "A Espinha Dorsal da Memória" de Bráulio Tavares

No mais conhecido trabalho do autor e tradutor, vemos sua habilidade em brincar com a escrita, produzindo contos que exploram os mais diferentes temas.



Sinopse:


Portal do Hipertempo, Intrusos, raças extra-terrestres poderosas, escritores de ficção científica, monstros. Esses são os mundos e os personagens que encontramos nos livros de Braulio Tavares, um dos grandes nomes da ficção científica brasileira e literatura fantástica no Brasil.


Braulio Tavares, porém, tem mil faces: compositor parceiro de Lenine e com sucessos na voz de Elba Ramalho, poeta, tradutor, antologista, cordelista, dramaturgo, incursões que faz sempre com maestria, reconhecimento de seus pares e com prêmios nacionais e internacionais.





De uma coisa vocês podem estar certos: nenhum dos contos presentes desta coletânea serão comuns. Todos vão inquietá-los seja pelo estranhamento ou pela reflexão. A escrita de Braulio Tavares é inquieta e curiosa, e nunca se encontra no mesmo lugar. É o tipo do autor que joga todas as convenções da escrita criativa fora para criar algo único e com personalidade. É óbvio que não é aquele tipo de obra que vai agradar a todos porque, por vezes, o leitor vai precisar se esforçar um pouco para compreender o que está no entrelinhas. Para mim, é revigorante ver alguém saindo desse lugar comum. Afinal, escrever literatura é uma arte e poucos são os autores que entendem essa pequena definição. Ao lidarmos com arte somos desafiados a sairmos de nossas cascas e explorarmos um novo mundo. Essa é a proposta de A Espinha Dorsal da Memória.


Para explorarmos a mente desse incrível criador de histórias selecionei quatro contos que vão nos apresentar diferentes facetas do autor. Antes de falar delas quero parabenizar a ótima edição da Bandeirola que foi financiada através do Catarse. Mais um resgate da editora que tem se destacado pelo bom trabalho editorial. Além das histórias de Braulio Tavares, ao final temos uma fortuna crítica com uma série de reportagens e entrevistas dadas sobre o lançamento do livro (sua primeira edição foi lusitana) e sobre o autor em si. Vale a pena ler para fornecer um nível a mais de compreensão sobre o que foi lido. A coletânea em si possui doze contos divididos em duas partes: na primeira temos sete contos explorando o lado insólito e estranho das ideias do autor enquanto que na segunda temos cinco contos que se situam no mesmo universo em que a humanidade recebe a visita dos Intrusos e isso provoca uma série de mudanças na Terra.


Cão de Lata ao Rabo é um daqueles contos que vão fazer o leitor estranhar de cara. É um longo período sem parágrafos ou pontos continuativos. Braulio nos apresenta uma situação de forma continuada que vai explorar a experiência de um homem por outras dimensões. O que começa como uma história de alguém tentando realizar uma incrível descoberta se transforma em uma odisseia sobre matéria e identidade. Do que somos feitos? O que nos torna indivíduos? A partir daí nosso protagonista terá sua própria forma física alterada por conta de suas experiências e o resto do mundo tentará entender quem ele é. No fundo, Braulio deseja explorar o nosso processo de individuação e como nos posicionamos em nossas próprias realidades. O conto tem muito de lisérgico e me lembrou bastante as viagens de Philip K. Dick por esse tema. Vamos ter nossas próprias percepções dobradas pelo progresso do conto. Além de ser uma aula de como manipular a escrita e conseguir escrever algo completamente diferente do comum. Sair das convenções habituais de desenvolvimento frasal.


O segundo conto é quase uma crítica social às enchentes que acontecem em nosso país e desabrigam milhares de pessoas todos os anos. Digo quase porque vai ter alguma coisa de insólita na narrativa e Braulio vai inserir esse elemento quando vocês menos esperarem. A narrativa é contada em primeira pessoa a partir de um menino que vê uma forte chuva atacando o lugar em que ele vive. À medida em que eles precisam salvar os móveis e outros objetos da casa, a água vai tomando conta pouco a pouco tudo o que vê pelo caminho. É uma narrativa tensa em que o leitor fica transtornado com a falta de esperança que vai tomando a família. Talvez essa seja a narrativa mais pungente e real de toda a coletânea porque lida com um assunto corriqueiro do Brasil. Só que ao final temos algo que vai tirar o nosso chão em uma abordagem quase lovecraftiana.



Eu tinha que inserir Sympathy for the Devil por causa do meu coração roqueiro e fã dos Rolling Stones. Claro que eu iria citar essa narrativa. E o detalhe é que esse é um dos contos mais conhecidos do autor onde ele deturpa a noção do pacto fáustico. Além de termos um Diabo como a imagem de uma Tentação Proibida que é Nastassja Kinski, a loirinha fatal da década de 1970. O interessante nesse conto é como Braulio deturpa a própria ideia do que é o demônio e como ele se manifesta em nossas vidas. Seria ele uma existência material ou uma manifestação metafísica de nossos desejos? E o que significa de fato "vender sua alma"? Através dessa exploração e de diálogos sagazes o autor nos envolve em uma narrativa que questiona quais são nossos verdadeiros desejos. O final é surpreendente.


Por fim eu queria trazer um conto do universo dos Intrusos para comentarmos. Optei por Stuntmind por nos apresentar aquela malandragem da leitura fora da caixinha. Aparentemente é uma narrativa que nos apresenta um ser humano que conseguiu estabelecer contato com os Intrusos e possui uma série de informações dos alienígenas em sua mente. Por causa disso ele passou a ser parte de uma elite de stuntminds, seres que passaram pela mesma experiência que ele. Agora, nosso protagonista vive uma vida de luxo e extravagância onde todos os seus desejos são realizados à custa da vida dos outros seres humanos que nada possuem. É um ótimo retratado de uma extrapolação da desigualdade social levada ao último nível. O protagonista faz todo tipo de ação reprovável desde se atirar em uma piscina de chocolate até observar os demais com desprezo e usá-los como objetos. Somos imediatamente transportados para nossa sociedade capitalista onde poucos possuem uma vida privilegiada e seus desejos mundanos são sonhos inalcançáveis para os demais. É daqueles contos que te dá um nó no estômago tamanha falta de empatia do protagonista.


Mais uma coletânea do Braulio Tavares, mais algumas horas de satisfação com boas histórias. É óbvio que a coletânea não é perfeita, e o autor exagera na dose aqui ou ali. Como qualquer coletânea. Terão alguns contos dos quais a gente não vai curtir; eu, particularmente não gostei da História de Maldun, o Mensageiro, embora seja uma narrativa bastante elogiada. Achei arrastada e eu me perdia com facilidade em parágrafos alongados e repletos de informação. Mas, no geral, é uma coletânea bem acima da média onde vocês irão conhecer um autor no auge de suas potencialidades, manipulando a escrita como ele considera melhor para aquilo que ele deseja entregar. Desafiador, audacioso, corajoso. São os três adjetivos que posso dar ao autor e à sua criação.









Ficha Técnica:


Nome: A Espinha Dorsal da Memória

Autor: Braulio Tavares

Editora: Bandeirola

Número de Páginas: 208

Ano de Publicação: 2020


Avaliação:


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*Material enviado em parceria com a Editora Bandeirola