• Paulo Vinicius

Hórus, o Príncipe do Sol

Hols é um menino que mora em uma pequena ilha. Quando ele estava caçando lobos, ele encontra uma espécie de pedra falante chamada Mogue. Hols retira um espeto do meio da pedra que na verdade se tratava de uma poderosa espada. É aí que Mogue revela seu verdadeiro propósito...

Sinopse:


Situado na Idade do Ferro na Escandinávia, o filme abre com a Horus lutando contra uma matilha de lobos cinzentos, e acidentalmente acorda um gigante de pedra antigo, chamado Mogue. Horus consegue puxar um "espinho" do ombro do gigante, que parece ser uma espada enferrujada e antiga. O gigante proclama ser esta a "Espada do Sol", dizendo também que quando a espada for devidamente reforjada, ele virá para Horus, que será então chamado o "Príncipe do Sol". O pai de Horus, no leito de morte, revela que a família veio de uma aldeia costeira do norte, que foi devastada pelo perverso bruxo Grunwald, deixando-os como únicos sobreviventes. Antes de morrer, o pai de Horus incumbe o filho a regressar à sua terra natal e vingar-se da vila.




Para mim, ver Horus, o Príncipe do Sol foi uma tarefa emocionante. Foi a primeira grande animação que juntou a dupla Isao Takahata e Hayao Miyazaki. Uma dupla que por 50 anos nos maravilhou com verdadeiras obras de arte da animação. Quando comecei a ver Horus não me esquentei muito com o fato de que as técnicas empregadas seriam extremamente primitivas (estamos falando de uma animação de 1968) ou que a história seria ingênua ou caricata demais. Eu queria poder entender a mente criativa desses dois malucos geniais cuja trajetória tenho tentado compreender.

Esta é a história de Hols (ah... vou chamar de Hols mesmo... Horus me remete a Egito o que nada tem a ver com a animação), um menino que vivia em uma ilha distante junto de seu pai. Quando ele estava caçando alguns lobos prateados, Hols encontra uma imensa rocha falante chamada Mogue. Este pensando que Hols estava ali para o prejudicar, o ataca. Mas, após alguns momentos de conversa, Mogue entende que Hols estava apenas atrás dos lobos. É então que Hols decide ajudar Mogue que estava com um espeto cravado no ombro. Este se revela ser a espada do sol que não havia ainda sido forjada. Mogue diz a Hols que no futuro, a espada seria importante para ele. Quando volta para casa, o pai de Hols está morrendo e pede que ele encontre outras pessoas. Conta também que a vila onde Hols nasceu foi amaldiçoada por um demônio chamado Grunwald. Após navegar alguns dias por alto mar, Hols encontra uma vila de pescadores onde decide permanecer. A vila era atacada por um peixe gigante que estava devorando todos os peixes, deixando os pescadores sem ter o que comer. Hols parte para ajudar os pescadores e consegue deter o peixe gigante. Em seguida ele encontra uma estranha menina harpista chamada Hilda que, assim como ele, foi abandonada após sua vila ser amaldiçoada. Ambos voltam para a vila de pescadores onde Hilda é bem recebida. Mas, Grunwald quer destruir a humanidade e a paz da vida dos pescadores logo será posta em risco. A única arma capaz de deter Grunwald é a espada do sol, mas ela precisa ser forjada. E agora? Será que Hols conseguirá deter as ambições de Grunwald?

A recepção de Hols na época de seu lançamento foi inusitada. Isso porque as animações japonesas até aquele momento eram algo voltado para o público infantil. E Takahata e Miyazaki apresentam um produto muito diferente: uma história mais complexa, com cenas de violência e mais adultas e uma mensagem por trás do que era apresentado. Em estudos recentes, o trabalho da dupla foi considerado fundamental para uma mudança no paradigma da animação de estúdio. Não só a técnica como o enredo passaram a se tornar elementos de estudo para outros animadores.

Se formos levar em consideração os dias atuais, a animação de Hols é bem fraca. Mas, devemos situar Hols em seu período. Para quem já viu outras animações mais antigas como Doraemon ou até Yamato podemos ver como é importante o tratamento que Miyazaki dá para cada cena. Em seu livro The Anime Art of Hayao Miyazaki, Dani Cavallaro aponta que Miyazaki teve um mestre muito importante para o desenvolvimento de sua técnica: Yasuo Otsuka, com quem Miyazaki trabalhou em Hols. Otsuka tinha consciência da importância da sequência dinâmica e da velocidade de movimentação dos demais personagens pelo cenário. A cena da perseguição de Hols aos lobos no sopé da montanha ou até mesmo a luta de Hols com o peixe gigante mostram a necessidade de evolução da animação japonesa. A trilha sonora composta por Michio Mamiya ajuda a compor a ambientação com músicas que se assemelham a canções celtas ou nórdicas.

O curioso acerca da última frase é que o enredo é baseado não em lendas nórdicas, mas em lendas do povo Ainu, oriundos da região de Hokkaido. É a reinterpretação de uma história oral chamada Yukar que conta justamente como a humanidade conseguiu se livrar do frio que assolava as plantações dos Ainu e trazer de volta a luz do sol. Infelizmente haviam restrições para o uso de tradições mitológicas japonesas naquele período, e a animação acabou usando cenários da Escandinávia no lugar das paisagens de Hokkaido.

Alguns temas curiosos estão presentes na animação. O principal deles é a existência de bondade em todos os corações. A humanidade existe mesmo naqueles que passaram muito tempo ao lado do mal. Isso é refletido na menina Hilda que precisa se decidir se quer viver feliz entre os homens ou se pretende continuar a ser manipulada por Grunwald. Aqui Takahata demonstra a sua sagacidade e sutileza: ele fornece um discurso de liberdade feminina ao demonstrar que a personagem não queria mais ser apenas um objeto nas mãos de homens inescrupulosos. Quando ela se liberta e consegue decidir o que quer, a felicidade se aproxima a ela. Numa sociedade machista e conservadora como a japonesa, este discurso era complicado. A mulher deveria ser submissa e seguir o que outros lhe falavam. Porém, aqui, em uma simples animação, Takahata usa um tom libertário para as mulheres.

Outro tema presente é a solidariedade entre as pessoas. Takahata insinua um discurso de comunitarismo, pois apenas quando as pessoas passaram a trabalhar em conjunto em prol da sobrevivência da vila é que eles foram capazes de derrotar o demônio. Se analisarmos a partir de um outro ponto de vista, Grunwald representaria os interesses ocidentais de dominar os povos tradicionais e fazê-los se esquecer de suas raízes. As vilas desaparecendo seria um produto da invasão selvagem das áreas tradicionais. Takahata defende a sobrevivência da natureza: isso vamos ver em várias outras animações em que ele esteve na produção. Acho até que em Hols ele está mais panfletário do que em outras animações futuras, causando até um certo estranhamento.

Hols definitivamente é um ponto de virada nas animações japonesas. Com um enredo bem construído, apesar de um tanto ingênuo, é o início de uma longa parceria entre dois gênios que nasceram para se complementar e nos presentear com obras de arte. Uma trilha sonora muito bonita ajuda a compor o quadro desta animação. Recomendo a todas as idades apesar de algumas cenas um pouco mais violentas. Mas, a mensagem que é passada na animação (de superar a solidão, de solidariedade e união entre os povos) é muito bacana e recomendável.

Ficha Técnica:


Nome: Hórus, o Príncipe do Sol

Diretor: Isao Takahata

Produtor: Hiroshi Okawa

Roteirista: Kazuo Fukazawa

Estúdio: Toei Doga

País de Origem: Japão

Tempo de Duração: 82 min

Ano de Lançamento: 1968


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