• Diego Araujo

Dorohedoro e a Banalização da Violência

Dorohedoro é um mangá que teve adaptação em anime na Netflix este ano. A primeira temporada desta animação japonesa ofereceu as cenas violentas tão recorrentes neste tipo de produção, mas com certas características que motivaram a escrever esta matéria.



Muitas animações japonesas são marcadas pela característica em comum que é a de atrair um público bastante cativo: episódios cheios de cenas de ação violenta. Sendo algo normal nessas produções, chega até a ser estranho refletir na encenação de lutas sangrentas apenas ao ver Dorohedoro, anime lançado na plataforma Netflix este ano. Mesmo assim adianto que há qualidades capazes de sustentar esta matéria sobre a representação da violência na ficção. Então acompanhe este texto para saber mais sobre Dorohedoro, ver uma breve discussão sobre a retratação da violência, a razão de haver tal comportamento, a perspectiva da sociedade brasileira diante da violência e como as ficções podem abordar o conceito indo além de boas cenas de ação.


Sobre Dorohedoro


O anime conta a história de Caiman, um sujeito com amnésia que teve a cabeça transformada na forma de crocodilo por um feiticeiro. O objetivo do protagonista é simples: encontrar o responsável pelo feitiço e matá-lo. A ambientação é original em dois planos dimensionais, o conhecido como Buraco, um mundo parecido com o real, de características urbanas mas decadentes, pós-apocalíptico; e este plano sofre influências da dimensão dos feiticeiros, o mundo de fantasia onde os indivíduos têm a capacidade de lançar fumaça com poderes exclusivos do usuário, como transformar pessoas em características de animais, curar ou deixar alguém vivo mesmo com o corpo dilacerado, criar clones ou viajar no tempo. O anime apresenta essas características conforme avança o enredo, muitas vezes sem explicar os conceitos, deixando o espectador entender por si. Ainda assim deixa a desejar em algumas contextualizações, por exemplo falhando em detalhar qual o limite da feitiçaria. Certo personagem corre atrás de mais fumaça enquanto os antagonistas não sofrem desta limitação. Até o mistério de Caiman fica secundário na narrativa, dando oportunidade aos demais personagens apresentarem conflitos próprios, e deixando em destaque o assunto desta matéria: a violência escancarada.

Dilacerações são banais, sangue jorra a partir de diversas partes do corpo abertas durante a luta, os feiticeiros expelem fumaça a partir de cortes na pele ou de todo um membro... e ainda assim eles permanecem vivos, fica até confuso entender o limite da resistência humana deste anime, por outro lado abre possibilidades de entregar cenas criativas de violência. Mesmo assim ocorrem muitas mortes no decorrer dos episódios. O próprio Caiman assassina vários feiticeiros mesmo depois de descobrir não ter nenhuma relação com a transformação dele, ou ainda morrem por outros motivos fúteis. Chocante mesmo é, tirando os exageros visuais do anime, Dorohedoro representa uma sociedade indiferente à violência, e quando digo sociedade, falo desta nossa, no mundo real.



A banalidade e o fetiche da violência

Sobre as motivações de existirem atos violentos ou maléficos entre as pessoas reais, tomo de referência o artigo de Cathryn van Kessel ao relacionar a banalidade do mal levantada pela filósofa Hannah Arendt e as observações do psicólogo Ernest Becker sobre, segundo as palavras da autora do artigo, o fetiche pelo mal.

Cathryn destaca na análise de Arendt que atitudes perversas nem sempre vêm de pessoas de má intenção, pois o conceito de mal está banalizado a ponto de pessoas cometerem ações sem discernir de essas serem boas ou ruins. Cathryn traz o pensamento da filósofa ao experimento em que os participantes tinham de provocar choques em outros envolvidos no experimento, com os coordenadores da pesquisa sugerindo aumentar a voltagem cada vez mais. Na verdade o sujeito que levava choques fazia parte da equipe de pesquisa, e era um ator colocado para convencer os participantes de estar tomando choques. O intuito da pesquisa era testar o quanto eles estariam dispostos a obedecer esta ordem de causar dor nos outros. Entre alguns casos de desistência e discussões sérias, as demais pessoas obedeciam, tal como os assassinos do holocausto judeu estavam seguindo ordens do governo nazista.

Enquanto Arendt defende pessoas de má atitude inconscientes de fazerem as ações nesta perspectiva, Ernest Becker declara haver certa atração aos indivíduos de prejudicar os demais. A motivação segundo o psicólogo pode até soar contraditória, e ainda assim fácil de compreender: o sujeito faz algo de ruim para evitar de ele mesmo ser o prejudicado.

Becker defende a possibilidade da morte aterrorizar os humanos, e este medo convence alguém a agir sem avaliar as consequências aos demais, desde que garanta a sobrevivência de si mesmo. O raciocínio vai além, pois quando o humano conhece a inevitabilidade da morte, ele desejará fazer algo em vida capaz de criar um legado a ser perpetuado após sua partida, e assim torná-lo “imortal”. Este legado pode resultar em uma ambição capaz de provocar ações indiferentes ao bem-estar alheio, ou ainda identificar as possibilidades capazes de prejudicar sua ambição e as prevenir de impedir o seu sucesso ao identificar os autores desta possibilidade sendo os “seres malvados”. Assim é fácil perceber o motivo de certos representantes radicais apontar qualquer pensamento diferente do dele como terrorista ou aquela outra palavra que também termina em “ista”.

Cathryn associa as duas visões ― Arendt e Becker ― na seguinte forma: pelo esforço do indivíduo em construir o legado e assim superar a limitação da morte, ele seguirá uma visão cada vez mais estreita a esta meta, deixando de enxergar as condições das demais pessoas envolvidas ou afetadas no seu projeto. É fácil associar essas duas visões mescladas aos personagens de Dorohedoro. En é o antagonista, feiticeiro de alto nível capaz de transformar qualquer ser ou objeto em cogumelo. Sofria perigos de morrer logo na infância, o que transformou sua reação à sobrevivência a níveis extremos, e assim perpetuando em novas ações conforme as ambições nos empreendimentos e desejos de vingança, contratando lacaios para executar seus serviços sujos. Shin é um dos lacaios, híbrido de humano com feiticeiro que também presenciou a violência desde cedo. Shin fica inconformado por ter de assassinar os alvos selecionados por En por sequer proporcionarem um desafio no combate, sendo pessoas de pouca ameaça aos ideais do chefe. Apesar de descontente, executa o trabalho. Caiman é o protagonista, longe de ser o herói da história. A obsessão em recuperar a memória e a vingança contra os feiticeiros o levam a entrar em conflito com o grupo de En. Caiman é imune a magia desde quando tem a cabeça transformada em crocodilo, um privilégio perigoso a toda a sociedade feiticeira, e assim ele se torna uma ameaça, alguém a ser impedido a qualquer custo.



A perspectiva brasileira sobre a violência

No intuito de avaliar as visões conterrâneas sobre a violência no Brasil, selecionei a pesquisa de Paulo Victor com entrevistas a cariocas sobre a opinião quanto ao bordão “bandido bom é bandido morto”. Mais da metade dos entrevistados afirmam ver cenas de violência em noticiários de televisão. Poucos acompanham casos de violência relatados na rádio e portais de internet, feito blogs ou até os sites de notícia. Já as redes sociais conseguem a quantidade de audiência próxima a dos programas televisivos entre os entrevistados na pesquisa, indo da troca de tiros com policiais a cenas reais de tortura.

Por mais que acompanhemos notícias de assaltos, assassinatos e acidentes fatais, a maioria deles é ignorada pelos brasileiros, até o momento de um desses casos se aproximar do cidadão. A partir daí há as reações e o desejo de punição, e este fica tão forte a ponto de querer a justiça sem se importar se o acusado é de fato culpado. Os entrevistados também aproximam esses casos só de refletir na possibilidade de acontecer a um parente, ou mesmo aos filhos, e assim perpetua a ideia de Becker do legado do cidadão ― filho, por exemplo ― sofrer uma ameaça ser um motivo suficiente para reagir independente de ser o método ideal ou não. Um dos entrevistados também justifica o sofrimento ao culpado, conforme as palavras do próprio:

“Satisfação para as minhas frustrações, para o meu ódio, para a minha raiva. Meu ódio diminui, ou eu fico feliz se o outro sofre, e pouco importa que ele seja culpado ou inocente.”

Paulo Victor entra em questões mais críticas aos programas de noticiários sensacionalistas por aproximarem a violência aos telespectadores, incitando o medo de acontecer a qualquer um de nós, e portanto facilita a argumentação de haver mais punições. Sendo Dorohedoro uma produção japonesa, ainda teria facilidades em ambientar aspectos brasileiros no Buraco. A violência existe por aqui, com diferenças pontuais a do anime, ainda assim fáceis de adaptar.

Abordar a violência na ficção

Tim Markham critica sobre a saturação da representação da violência pela mídia ― jornalística e até na ficção ― acaba perdendo o efeito de chocar a audiência, pois o público deixa de apreender a realidade da violência após tanto consumi-la, quer dizer, até assimila, só continua indiferente a ela. Falham em até demonstrar o sofrimento da personagem vítima da agressão. Tim conclui que a falta de sensibilidade do público vem da falha em abordar esses tipos de cena. Em vez de mirar no envolvimento afetivo ao retratar um episódio violento, precisa demonstrar o essencial do ato enquanto mostra compaixão por quem é afetado. Abusar de tropos e recursos dramáticos dificulta a imersão, pois apesar de ainda haver a possibilidade do público se corresponder nessas abordagens, a cena se desencanta por fazer parte da narrativa.

A conclusão do trabalho de Paulo Victor sumariza algumas opiniões sobre maneiras a desdobrar essa visão de todo bandido ser condenado sob violência, e uma dessas sugere o papel da arte e da cultura em geral de atiçar a empatia e desconstruir estereótipos ao demonstrar narrativas focadas nas pessoas desfavorecidas, favorecendo a identificação da história dessas pessoas e assim contribuir pela sensibilidade. Felipe Castilho fez esta abordagem em Ordem Vermelha, protagonizando personagens marginais na sociedade oprimida por Una, governante considerada deusa no mundo criado pelo autor.



Outra sugestão no trabalho de Paulo é usar a narrativa para questionar a humanidade dos defensores do extermínio e penalidades agressivas em resposta a qualquer delito, como ocorre em A Parábola dos Talentos. O segundo volume da duologia Sementes da Terra traz discussões constantes entre a visão idealizada da protagonista e a ideologia do presidente eleito nos Estados Unidos desta distopia. Sem se enfrentarem diretamente, Lauren sofre nas mãos de quem apoia ou obedece as ordens deste presidente a ponto de repetir ações do passado já repudiadas no presente.

Também é preciso elaborar enredos profundos, indo além do protagonista enfrentando antagonistas, gente do bem contra bandidos. Assim colabora na qualidade literária da obra, desenvolvendo o personagem entre as qualidades e defeitos, do quanto a perspectiva pode mudar depois de enfrentar esta jornada. Afinal como Luiz Antônio de Assis Brasil critica no livro Escrever Ficção, histórias de muita ação e limitadas a bem versus mal até proporciona entretenimento imediato, e limita a isso, mas logo é esquecido dentre os próximos lançamentos deste estilo.

Dorohedoro mostra a sociedade decadente no Buraco, expõe personagens marginais capazes de tudo pela sobrevivência, e portanto perderam o receio de usar a força bruta. O ponto forte exibido nesta primeira temporada é a banalização da violência em si, do quanto ela é absurda, mais absurda ainda por ser normal. Ao mesmo tempo que é entretenimento, critica uma sociedade viciada em confrontar os problemas por meio da violência, portanto jamais obter a solução.


E essas qualidades não são exclusivas deste anime ou de outras animações que usam da violência como retrato da sociedade, nem mesmo parte somente das produções japonesas e recentes, pois no século XX já retrata a violência por meio da ficção aqui no Brasil. Tomarei de exemplo o romance O Tronco, de Bernardo Élis, cuja narrativa reproduz a violência recorrente no interior do estado de Goiás na época da publicação em suas descrições e transcrições de diálogos.


Referências

Análise da linguagem violenta no romance O Tronco, de Bernardo Elis

http://revistas.unilab.edu.br/index.php/mandinga/article/view/254/152

Pesquisa sobre a perspectiva dos cariocas em relação a punições violentas a bandidos

https://www.ucamcesec.com.br/wp-content/uploads/2017/04/BBBM-Relat%C3%B3rio-final-corrigido.pdf

Artigo de Cathryn sobre as visões de Arendt e Becker sobre a maldade (em inglês)

https://www.iajiss.org/index.php/iajiss/article/view/377/292

Artigo de Tim Markham sobre a representação da violência na mídia (em inglês)

https://bit.ly/2PBsaS7

Ao chegar no fim desta matéria, seja sincero em responder: achou que o anime poderia proporcionar uma discussão igual esta, com referências acadêmicas a sustentar as características presentes na primeira temporada de Dorohedoro? Confesso de esta pesquisa ter me levado a compreender assuntos além da minha ideia inicial ao planejar esta matéria. Entendi melhor a perspectiva da sociedade diante da violência e refleti em maneiras de deixar as cenas de ação significativas em histórias enriquecidas, sem limitar por descrições presunçosas a serem extraordinárias, para na verdade ser outra cena superficial.


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