• Paulo Vinicius

Desconstruindo Una: uma história sobre a violência contra a mulher

A autora Una faz um relato autobiográfico sobre sua difícil infância ao mesmo tempo em que apresenta a história do Estripador de Yorkshire. E de como a polícia britânica falhou miseravelmente em capturá-lo por conta de sua própria misoginia.



Desconstruindo Una é um quadrinho bastante pesado. Daqueles que te fazem parar e pensar por muito tempo sobre a nossa sociedade. Portanto, queria aproveitar esse espaço para conversar a respeito dos temas que Una apresenta, sem emitir juízos de valor nem nada do gênero. Primeiro porque esta não é uma HQ a ser resenhada em seu senso estrito. Segundo porque eu me sinto pouco à vontade para falar de forma mais aberta sobre a temática em si porque não tenho como me colocar no lugar de uma mulher. Então vai ser algo bem superficial, mas que pretendo tratar com respeito profundo.


Informo desde já que existem alertas de gatilho presentes nessa matéria. A respeito dos temas presentes na obra, então peço gentilmente que pessoas mais sensíveis não continuem na leitura.









Essa é uma HQ autobiográfica escrita por Una que apresenta a sua complicada infância na década de 1970 (um período entre os 10 e os 16 anos que foi fundamental para ela) e os associa à perseguição ao Estripador de Yorkshire, um serial killer que era caçado pela polícia inglesa porque se acreditava que ele matava prostitutas. Quando em sua infância, Una sofre o primeiro de vários abusos sexuais pelos quais ela passa em sua vida. Enquanto cuidava de sua irmã menor, ela é levada por um homem bem mais velho a um lugar onde ela passa por sua primeira situação de abuso. Ela não descreve precisamente o que aconteceu, mas considero nem ser preciso já que deve ter sido uma experiência traumática para uma criança. Como qualquer menina na idade dela, ela não foi capaz de contar isso aos pais e isso provocou um medo e uma retração óbvios, além de ela passar a enxergar sua sexualidade com outros olhos. Mais tarde, ela passa por um segundo abuso sexual de uma pessoa a quem ela estava namorando. Só que a relação em si não foi consentida, e se revelou ser mais uma desilusão e uma violência em si. A partir de então, Una passou a ser julgada em sua escola como uma mulher fácil, já que seu "namorado" passou a se vangloriar da situação que provocou. Isso a transformou em uma espécie de pária entre as meninas e um alvo para os homens. No processo de crescimento e desenvolvimento biológico, ela passou por uma terceira situação onde sofre um estupro coletivo que foi basicamente a gota d'água para ela. Os anos que se seguem são de drama, desespero e depressão, e o motivo para esses sentimentos não é detectado por pais, profissionais e nem educadores. É algo que a leva a deixar de lado muitas coisas saudáveis em sua vida.


Simultaneamente somos colocados diante do caso do Estripador de Yorkshire, Peter Sutcliffe. Até onde se sabe ele teria matado 13 mulheres e acusado de tentar assassinar outras 7. Sutliffe foi condenado a uma pena de 20 prisões perpétuas. Mas, o que o caso do estripador e as violências sofridas por Una tem em comum? A visão misógina que permanece até os dias de hoje. Na época, a polícia inglesa iniciou a investigação dos assassinatos partindo de uma falsa premissa: que Sutcliffe matava apenas prostitutas, configurando uma espécie de crime de ódio. Só que isso borrou o perfil do criminoso e atrapalhou as investigações. Primeiro porque quando apareceu uma menina comum que alegava ter sido atacada por Sutcliffe, o depoimento dela foi desconsiderado. Buscou-se criar um perfil psicológico para o criminoso quando este não existia. Segundo é que alguns depoimentos críticos para a investigação também foram descartados porque as testemunhas eram mulheres consideradas não confiáveis para a investigação. Levantou-se até a vida pessoal de algumas das mulheres atacadas, investigando se as mesmas não eram adúlteras ou prostitutas sem que seus maridos soubessem. Qualquer mulher com alguma postura duvidosa era taxada automaticamente como uma mulher fácil. Uma das vítimas era uma mãe solteira que precisava trabalhar em dobro para sustentar seus filhos. Os momentos em que ela saía para beber e relaxar um pouco foram considerados como um incentivo ao serial killer. Una então passa a discutir a maneira como a mulher é enxergada na sociedade. Existe um agravante até: Sutcliffe era um membro respeitado de sua comunidade. Um homem comum com família. Alguém que jamais seria atrelado a esses crimes.


São tantos temas debatidos nesse quadrinho que não sei por onde começar. Vou me ater ao aspecto factual e apresentar o que Una nos traz. Isso para que eu não cometa algum julgamento errado. Para Una, existe uma enorme dificuldade até os dias de hoje para que as famílias detectem casos de meninas que sofreram algum tipo de abuso. O estupro ainda é um dos crimes contra a mulher que tem uma incidência casos menor do que eles realmente acontecem. E a observância dos pais é falha. A autora não credita isso a uma falta de vigia; não é isso o que determina. É uma educação sexual conservadora, que não apresenta modelos pedagógicos corretos no qual a criança poderia se fiar. Hoje vivemos uma sociedade um pouco mais liberal, mas na década de 1970, havia uma névoa de ignorância sobre o assunto. Não à toa Una culpabiliza a si mesma, que ela é quem teria dado algum motivo para que os predadores sexuais a cercassem. O que ela só vai descobrir muito mais tarde em sua vida que não se tratava disso. Nas páginas da HQ vemos o quanto as violências impactaram a jovem Una. Algumas cenas são fortes como o de ela sempre deixar uma tesoura embaixo de seu travesseiro, não ser capaz de se relacionar normalmente com pessoas de outro sexo, ou até de ter momentos em que ela precisava permanecer na banheira coberta de água. As descrições dadas por ela partiram o meu coração. Entender o quanto um homem, em seu momento de se sentir poderoso diante de uma mulher, feriu de uma maneira permanente outra mulher apenas por momentos de seu próprio prazer. Algo efêmero que precisará ser preenchido novamente daqui a algum tempo; talvez causando violência a outra mulher. Quando isso vem de uma pessoa que havia conquistado a confiança dela, consegue ser pior. Porque isso causa danos à capacidade de uma pessoa em simplesmente colocar sua confiança nas mãos de outra. Quase irreversível.


Podemos dividir a HQ em duas metades: a primeira quando ela conta seu próprio histórico e o de Sutcliffe e o segundo quando ela debate o assunto apresentado dados estatísticos. Se a primeira metade já é bastante dolorosa, a segunda talvez seja ainda mais impactante. Porque não é só o depoimento de uma mulher que passou por isso (o que já seria terrível), mas perceber o quanto isso se insere em uma realidade macro. Isso porque, para os obcecados por números e tabelas, estatísticas não mentem (o que é uma afirmação bem complexa porque é possível manipular números, fazendo perguntas erradas). Vivemos em uma sociedade que ainda se baliza por impressões. Quantas meninas ainda hoje vivem o dilema de serem julgadas por seus colegas, que dão nomes ou apelidos? Una está falando da década de 1970, mas hoje estamos diante da noção de cancelamento. Uma expressão usada para os mais diferentes problemas, onde o outro lado quase não tem a oportunidade de se defender. Convivendo em uma comunidade mais pobre, como professor, já fui obrigado a intervir em situações onde a moral de uma menina era questionada por algum fato que se alegava ter acontecido. E admito que nós, como educadores, estamos pouco paramentados ou preparados para lidar com situações assim. O que é uma vergonha, faço aqui a minha auto-crítica. Quando mencionamos que falta sensibilidade ao mundo, não é uma questão de sermos mais ou menos emotivos, mas o de sermos capazes de nos colocar no lugar do outro ou de perceber quando injustiças estão sendo feitas. Ou até de passarmos uma aura de segurança que permita a quem tenha sofrido alguma violência seja capaz de contar o que se sucedeu.



Julgar uma mulher que sofre violência também é bastante comum. Seja por seu modo de agir ou de se vestir. Una nos apresenta exemplos de situações onde este argumento fraco e torto serviu para "justificar" um ataque. Culpabilizar uma mulher por uma situação extrema como essa se tornou quase que um desvio de foco. Quando ao invés de buscarmos responsabilizar os culpados, imputamos a culpa na vítima. Ainda é uma visão misógina sobre a sociedade. Una apresenta dados de 2011 em que a quantidade de crimes sexuais cometidos contra a mulher eram em número elevado. Mas, a quantidade de crimes não reportados poderia levar a um número ainda mais alarmante. Ela menciona ainda que toda a pressão social que ela sofreu em sua escola foi em uma época sem internet. Hoje com um mundo mais dinâmico e globalizado, a internet age como um ponto positivo e outro negativo. Ao mesmo tempo em que dá espaço para os crimes sejam mais visíveis, fornece uma noção de impunidade às pessoas que se escondem em suas pequenas cavernas.



Trazendo para o nosso universo da literatura, Una faz uma crítica ao fato de que a violência contra a mulher é romantizada na ficção. Autores cansam de usar um estupro ou uma violência moral/física contra uma mulher como um trampolim para a jornada do herói. Isso tem como consequência uma naturalização do estupro. Ou seja, a criação de uma cultura do estupro ao constituir uma forma de banalização. Algo que tem preocupado as autoridades e os movimentos de defesa da mulher. Una acredita que evoluímos um pouco como seres sociais, mas que ainda precisamos avançar muito na pauta da discussão sobre o papel da mulher. Desconstruindo Una é uma HQ surpreendente sobre um assunto importante nos dias de hoje. Recomendo demais a leitura, a discussão e a reflexão. Saí profundamente impactado pela leitura.


Ficha Técnica:


Nome: Desconstruindo Una

Autora: Una

Editora: Nemo

Tradutora: Carol Christo

Número de Páginas: 208

Ano de Publicação: 2016


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