• Diego Araujo

Desafio Ficções: "A Rainha do Ignoto" de Emilia Freitas

A Rainha do Ignoto é uma publicação clássica do século XIX, destacada entre as primeiras histórias fantásticas escritas no Brasil, e ainda assim perdida nos sebos até há pouco tempo. A editora Wish revitalizou o trabalho de Emília Freitas em uma edição especial que vamos comentar aqui.



Sinopse:


A Rainha do Ignoto (1899), discorrendo sobre temas relacionados à alma feminina e sua situação na sociedade patriarcal, revela uma sociedade secreta de mulheres, hierarquicamente organizada em uma ilha, denominada Ilha do Nevoeiro, governada por uma Rainha que recrutava mulheres a partir do sofrimento vivenciado por elas no cotidiano. A Rainha do Ignoto é uma curiosa narrativa que, lembrando velhas lendas, recria num clima de mistério a beleza dos contos europeus. O grande interesse do livro está na criação de uma utópica comunidade de mulheres, uma comunidade perfeita, a das chamadas paladinas que só fazem o bem e buscam ajudar aos perseguidos.





Falando em representatividade nas publicações ficcionais, nada mais justo do que oferecer uma oportunidade para que mais pessoas conheçam também os trabalhos mais antigos, de autores e autoras que superaram as limitações impostas por preconceitos recorrentes no final do século XIX e início do século XX. Além de vir do nordeste, portanto distante da capital brasileira na época (Rio de Janeiro até 1960), Emilia Freitas era ainda mulher e de uma religião diferente à que predominava no Brasil. Ela foi capaz de expressar tudo isso sobre si e suas próprias idealizações através de um romance escrito no fim do século XIX. Assim Emília Freitas escreveu A Rainha do Ignoto, uma das primeiras ficções fantásticas escritas no Brasil, lançada em 1899. A editora Wish elaborou uma nova edição deste romance após a campanha bem sucedida de financiamento coletivo em 2019.

“― Fingir amor é um crime de morte!”

Dr. Edmundo tem graduação em direito, título que ele pouco usou até então para aproveitar bons momentos pela Europa. Ao esgotar as economias da família, se vê obrigado a voltar ao Brasil, compensando o prejuízo ao viver na antiga casa da família, no Ceará. Pouco depois de chegar lá, escuta rumores sobre Funesta, uma mulher cujo mistério atiça medo e difamações entre os moradores, e Edmundo brinca dizendo que pretende se casar com ela. A curiosidade do doutor só aumenta, e ele fará o possível para saber mais sobre esta mulher.

Funesta, também conhecida como Rainha do Ignoto, reside na fantástica Ilha do Nevoeiro, onde nenhum outro navegador pôde chegar. É a rainha de uma sociedade composta apenas por mulheres, suas fiéis seguidoras, atendendo o objetivo de tornar o mundo justo a seus olhos. Ela conquista a liderança da comunidade através das qualidades mentais superiores às emocionais.

“― Dizem que, onde aparece, é desgraça certa. Chamam-na ‘A Funesta’. Deus me livre de encontrá-la.”

De posicionamento feminista, Emília faz críticas aos pré julgamentos da sociedade da época sobre mulheres diferentes do usual. Logo ao apresentar Funesta, o personagem confessa saber pouco sobre ela, e ainda assim faz uma série de deduções baseadas no senso comum entendo-a como associada ao satanás. Já Edmundo vê o mistério em torno de sua figura como algo exótico a ser conquistado. E os julgamentos reincidem assim em confissões posteriores dos personagens mesmo aqueles ajudados por Funesta, só pelas suas qualidades serem extraordinárias a ponto de ser temida. O ideal feminino segue depois por meio da perspectiva da Rainha, em uma aventura em que acompanhamos uma sociedade de mulheres encontrando problemas por onde se encontram no Brasil e buscando solucionar conforme acreditam ser a solução.



O protagonismo temporário de Edmundo prolonga a apresentação da verdadeira protagonista homônima ao título, oferecendo espaço para adaptar a progressão do romance regional ao de uma ambientação inusitada. A princípio o doutor se acostuma na nova rotina de uma vida mais simples no Ceará, mas a influência da vida na Europa o inquieta a ponto de ele ir atrás de quaisquer novidades presentes ali. Conhecer a Rainha é mudar sua rotina. Ele se torna uma personagem testemunha ao longo do romance, mesmo assim conduzindo a jornada dele até o fim. Já quanto ao término da jornada de Funesta, caberia o aviso de gatilho quanto a autoagressão de uma determinada personagem descrito em detalhes.

Pela data da publicação, surpreende o texto de Emília ser de parágrafos curtos na maioria, uma característica que favorece leitores mais habituados a publicações recentes. As expressões e situações pertinentes a época são marcadas por notas de rodapé que contextualizam e contribuem com a intenção narrativa correspondente, apesar de haver um equívoco em determinada nota que fala sobre quando teve a primeira citação da passagem de tempo do romance, porém esta já havia acontecido algumas páginas antes. Outras características recorrentes na prosa de Emília já seriam menos aceitas em histórias publicadas hoje, nada capaz de desmerecer o trabalho da autora, apenas sendo destacada nesta resenha no intuito de alertar leitores habituados a prosas modernas: há um certo exagero no uso de exclamações, frequentes por vezes em parágrafos sucessivos a ponto de deixar as frases superficiais. Outra situação recorrente é a descrição da ambientação na abertura de vários capítulos, algo tão frequente ao longo de tantos livros posteriores a este, portanto uma publicação recente receberia críticas por considerar isso clichê nas narrativas.

A Rainha do Ignoto era um artigo raro de se ver em sebos e extinto nas livrarias antes da publicação dessa iniciativa da editora Wish, que incentivou novas publicações de outras editoras. Graças a discussões sobre o feminismo e da correspondente representatividade, o trabalho de Emília Freitas está disponível a leitores da atualidade a conhecerem as idealizações presentes no Brasil já no fim do século XIX, além de mostrar o pioneirismo da literatura fantástica brasileira.

“― Se a lei é isso, se a religião é assim, muito folgo por me achar fora de ambas.”










Ficha Técnica:


Nome: A Rainha do Ignoto

Autora: Emília Freitas

Editora: Wish

Número de Páginas: 416

Ano de Publicação: 2020


Link de compra:

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