• Jana Bianchi

Cinco Coisas que você não sabia sobre tradução: o dilema do idioma

Atualizado: Out 25

Nesta segunda parte, é hora de descobrir que saber falar muito bem uma outra língua não é a principal ferramenta de alguém que traduz.


Playlist:


Parte 1 - Apresentação

Parte 3 - O Desafio do Balão de História em Quadrinhos

Parte 4 - Desventuras da Vida de Frila

Parte 5 - Uma Linguagem Neutra



O domínio da língua de chegada é mais importante que o domínio da língua de partida. OU: saber falar muito bem uma outra língua não é a principal ferramenta de alguém que traduz.


Já comecei assim mesmo, tirando dois termos técnicos da cartola, porque a vida de quem traduz é um pouco assim, com coisas novas caindo no seu colo toda hora. Mas vou explicar: língua de chegada é a língua em que o seu público vai consumir o material — no meu caso, o português brasileiro. E a língua de partida, por sua vez, é a língua original do material — no meu caso, o inglês e o espanhol, mas por aqui temos muita coisa vindo do japonês (estou olhando para vocês, mangás e animes), do coreano (oi, K-dramas), do francês (saudades, histórias em quadrinhos do Asterix!), do alemão (imagina ter que entender a trama louca de Dark em uma língua treta como alemão?) e por aí vai.


Ou seja: estou dizendo que é mais importante você ter um ótimo português do que um ótimo inglês. Afinal, pensa comigo: se o mais importante na tradução fosse saber muito bem a língua de partida, essa profissão nem precisaria existir. Seria só jogar tudo em um tradutor da internet — certamente a entidade mais conhecedora de regras de ortografia, gramática e vocabulário de todos as línguas, idiomas e dialetos do mundo. Ou então pegar alguma pessoa falante nativa de inglês e ensinar um pouquinho de português para ela antes de colocá-la para traduzir.


Bom, se você já jogou algum texto no Google Translate e tentou ler (quem nunca?) ou se já teve uma conversa com alguém que está começando a aprender o português do Brasil, sabe que essas duas alternativas são inviáveis. E são inviáveis pela mesma razão: nenhuma língua é um conjunto de aplicações objetivas de regras de ortografia, gramática e vocabulário. Vamos dizer que regras de ortografia, gramática e vocabulário são os ingredientes principais, e a naturalidade da aplicação delas é o tômperro — que pode ir do simples sal a uma festa de especiarias. Como alguém que ama comer, acho importantíssimo lembrar que comer uma comida insossa pode até nutrir, mas não satisfaz nem um pouquinho.


No caso da tradução literária (é importante destacar aqui que muita coisa muda no caso da tradução técnica, e tudo o que eu falar aqui é baseado na minha experiência com a tradução literária), um bom texto é um texto natural. Ou, em outras palavras, um texto reproduzindo o jeito que a gente diz (que está destacado assim porque é o nome de um ótimo livro sobre tradução, escrito pela professora Stella E. O. Tagnin). E quem melhor para conhecer o jeito que a gente diz do que… a gente? Nenhum robô fala e escreve como uma pessoa que mora no Brasil — bom, para começo de conversa nenhum robô fala e escreve como uma pessoa, o que dirá como uma pessoa nascida com polêmicas linguísticas do calibre de biscoito vs. bolacha e canjica vs. mungunzá. Nenhuma pessoa de outros país (ou não alfabetizada em português) que acabou de aprender o básico da nossa língua vai falar e escrever como uma pessoa que mora no Brasil. E mais importante: em nenhum desses dois casos, a entidade tradutora vai ter o conjunto de referências locais.


Porque sim, quem traduz também é responsável por fazer a transição de referências culturais de uma língua para a outra. Em alguns casos (e a escolha vai depender do tipo do material, do público, de escolhas editoriais e por aí vai), essa transição pode ser mais sutil. Em outras, mais descarada. Já que eu decidi jogar uns termos aqui para você procurar na internet depois, digo logo que esse processo de transição de referências de um material original para um material traduzido é chamado de localização.





Quem tem mais ou menos a minha idade deve se lembrar do episódio do Chaves em que a turma da vila vai curtir uma praia no Guarujá. A estranheza disso deve ter passado batida para a maior parte do público do programa, provavelmente formado majoritariamente por crianças da região sudeste do Brasil da década de 1980 e 1990. Mas alguém que soubesse um pouco mais sobre a franquia saberia que o programa é mexicano… que sentido faz eles terem ido justo para o Guarujá? Pois então: no original, a turma do Chaves vai para Acapulco. A localização de Acapulco para Guarujá foi feita (muito astutamente, na minha opinião) por uma equipe procurando aproximar a realidade do Chaves da realidade do público. E para isso, a equipe que traduziu esse conteúdo precisava entender um pouco sobre Acapulco — um balneário mexicano muito conhecido e frequentado pela alta sociedade, mas ainda acessível à classe baixa — e muito, mas muito mais sobre o Brasil. Que lugar um público formado majoritariamente por crianças da região sudeste do Brasil da década de 1980 e 1990 identificaria como um balneário brasileiro muito conhecido e frequentado pela alta sociedade, mas ainda acessível à classe baixa? A menção de qual lugar no Brasil faria o público brasileiro passar por uma experiência similar à do público mexicano? Bingo. Guarujá foi uma ótima solução — e só uma das alternativas.


Para dar um exemplo de um serviço meu: traduzi um quadrinho de filosofia em que, em determinado momento, propunha-se que a pessoa pensasse em conjuntos de elementos, e um dos exemplos dados era o “conjunto de presidentes da Nicarágua”. Determinei no começo desse projeto que eu ia tentar aproximar ao máximo o texto do público — afinal, filosofia já é um tópico relativamente árido —, e por isso resolvi propor trocar “presidentes da Nicarágua” por “jogadores do Corinthians” (não só porque futebol é um tópico popular, mas também porque eu queria fazer uma piada super secreta ao mencionar, em um livro de filosofia, um time que já teve um jogador que chamava Sócrates).


Podia ter deixado como estava? Sim. Podia ter trocado para “governadores do estado da Bahia”? Sim também. Poderia ter escolhido qualquer outra coisa? Não exatamente, porque todo trabalho tem limitações. Há sempre linhas, de diversos tipos, que não podemos cruzar. O que me leva ao próximo ponto.



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*Jana Bianchi é escritora, tradutora de livros, quadrinhos e jogos de tabuleiro, editora-chefe da Revista Mafagafo, cohostess do podcast Curta Ficção e passeadora de lobisomens. Entre outros, publicou a novela Lobo de Rua (2016, Dame Blanche) e contos em antologias e revistas como Trasgo, Somnium e Dragão Brasil. Pode ser encontrada no site janabianchi.com.br e no Twitter e no Instagram como @janapbianchi.



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