• Paulo Vinicius

As Memórias de Marnie

Sofrendo de um grave caso de asma, Anna Sasaki é um menina retraída. Não tem amigos e acabou se tornando uma garota amarga. Sua família a leva para uma casa no interior onde ela conhece uma estranha menina chamada Marnie. Ela mora em uma casa que fica em um lugar idílico onde a maré alta esconde sua casa.

Sinopse:


Anna é uma garota muito solitária que vive com seus pais adotivos e não tem amigos. Ao se mudar para uma cidade do interior, acaba se tornando amiga de Marnie, que na verdade, não é bem aquilo que aparenta ser. A amizade das duas vai bem até que um dia, Marnie desaparece misteriosamente. Algum tempo depois, uma nova família se muda para casa onde ela vivia e Anna acaba fazendo amizade com as pessoas de lá, e vai descobrir coisas muito estranhas sobre sua amiga.




Uma das maiores qualidades do Studio Ghibli é a de produzir histórias emocionantes e mágicas a partir de temas simples. Ser capaz de mostrar que a magia está presente no dia-a-dia bastando que nos voltemos para o lado e observemos com atenção. As Memórias de Marnie foi a última grande animação em longa metragem feita pelo estúdio antes da aposentadoria de Isao Takahata e Hayao Miyazaki. A animação não contou com nenhum dos dois nem na produção ou na direção. Esta ficou a cargo de Hiromasa Yonebayashi que revelou em entrevista ter sido uma imensa honra poder trabalhar no estúdio de dois gênios da animação. As Memórias de Marnie foram lançadas em 2014, mas boa parte do público ocidental só foi capaz de conferir a produção um ano depois (no Brasil, a animação chegou no final de 2015). A animação fez um sucesso relativo no Japão, mas sua aceitação internacional foi arrebatadora tendo sido indicado ao Oscar de Melhor Animação em 2016 ao lado de outros grandes sucessos como Divertida Mente do Studio Pixar. Infelizmente a animação possuía concorrentes de muito peso e não foi capaz de obter a premiação. Mas só o fato de ter sido indicada já coroa um excelente trabalho de Yonebayashi.

A protagonista é Anna Sasaki, uma menina de 12 anos com vários problemas pessoais. Sofrendo de um caso grave de asma, ela sente que as pessoas comuns vivem em seus mundos enquanto ela vive em seu próprio mundo. A asma é apenas mais uma entre várias situações que compõem a sua vida. Ela perdeu os pais também quando era muito nova em um acidente automobilístico e foi adotada por Yoriko, sua tia. Apesar de todas as imposições que uma criança adotada fornece, Yoriko realmente ama Anna. Mas, ela acaba tendo que criar a menina sozinha já que seu marido viaja muito. Após uma sucessão de acontecimentos, Yoriko decide enviar Anna para o interior para, quem sabe fazer com que suas crises de asma tenham uma relativa melhora. Essa decisão não ajuda muito na auto-estima de Anna, porém o ambiente aberto do interior estimula a sua criatividade. Nas horas vagas, Anna gosta de desenhar. E uma estranha construção na casa de seus parentes do interior chama a sua atenção: uma imensa mansão cercada por um pântano atrai o seu olhar. Esta mansão é cercada por uma praia que é encoberta pela maré ao anoitecer, deixando o lugar totalmente ilhado. Quando Anna se aproxima da mansão, ela encontra uma estranha menina loira de olhos azuis chamada Marnie. Rapidamente Anna e Marnie se tornam melhores amigas. Mas, Marnie possui uma série de segredos os quais irão assombrar Anna ao mesmo tempo em que esta se apega ainda mais à estranha menina da Mansão do Pântano.

Sendo uma obra mais contemporânea é preciso analisar a animação com mais cuidado. Isso porque não temos nada de revolucionário aqui. No aspecto de estilização e cor, a animação é muito acima da média. Isso porque a escolha da paleta de cores empregada contribui com a fruição da história. Chama a atenção o fato de o azul estar presente por todo o cenário: desde o mar, passando pelo vestido de Marnie e até o céu do interior. O azul fornece o tom mais calmo e melancólico da história. Já a animação em si possui as características de um anime japonês, mas nada muito exagerado. Eu percebi que muito da animação poderia ter sido situado em qualquer lugar do mundo porque as características japonesas quase não estão presentes. A trilha sonora é bem tranquila e ajuda mais a compor o fundo da história. Entretanto, vale destacar a música de encerramento que é belíssima ("Fine on the Outside" de Priscila Ahn).

A animação foi baseada no livro homônimo do autor britânico Joan G. Robinson. A temática é uma história de crescimento, ao mesmo tempo em que apresenta um pouco de magia. No começo da animação, Anna é uma menina introvertida, presa em seu próprio mundo de mágoa e dor. Isso poderia ter como consequência uma pessoa amargurada quando esta crescesse. A ida ao interior e o contato com Marnie faz com que Anna se abra mais para o mundo. As conversas entre Anna e Marnie ajudam a primeira a desabafar os seus problemas. Tudo o que Anna precisava era de uma pessoa que a escutasse e a abraçasse. Apesar de que eu acho que ela precisava de uma conversa mais dura, a história conduz a recuperação de Anna de uma forma natural. Pouco a pouco, Anna vai se abrindo e isso nós conseguimos perceber até mesmo na forma como esta se veste. Se no começo da história, Anna parece mais um menino, no final Anna ganha mais contornos femininos.

O mistério de Marnie e a Mansão do Pântano é o que move realmente a história. Achei que esta parte ficou um pouco negligenciada pelo autor. Yonebayashi preferiu se concentrar mais nos aspectos mais intimistas da história enquanto Joan G. Robinson explora mais os elementos sobrenaturais e misteriosos por trás da mansão. Soou estranho a ligação entre Anna e Marnie, que no livro não parece tanto assim. A questão toda que cercava o filme era o mistério da mansão e da estranha menina de cabelos loiros. Marnie acaba sendo o veículo pelo qual Anna se abre e entende os seus sentimentos. Talvez isso possa ser explicado por conta da própria relação do ocidente com a espiritualidade. Enquanto que no Oriente, os espíritos fazem parte da vida dos japoneses, no Ocidente, a presença de um espírito geralmente é um assunto inacabado. Para a mentalidade japonesa, um espírito deve ser honrado e faz parte de todo um espectro de sensações que não pertencem ao mundo material. Já para o ocidental, ser um espírito é ter sua transcendência paralisada por conta de algum assunto não terminado. E foi exatamente isso o que Joan G. Robinson transportou para a sua trama literária. Yonebayashi não compreendeu completamente essa visão.

Por ser uma história mais intimista, outros personagens acabam não recebendo tanto espaço. Yonebayashi poderia ter trabalhado um pouco mais com Yoriko de forma a que seu amor por Anna parecesse mais natural. Explorar um pouco mais a personagem ter sido saudável para a trama. A família de Marnie também não teve muita atenção. Entendo que encaixar um  romance complexo como este em 120 minutos de projeção seja algo complexo e o produtor acabou preferindo se focar mais na dupla de protagonistas, mas em uma história tão intimista, qualquer falha na apresentação daquilo que aparece ao seu redor faz com que os defeitos fiquem mais claros.


Entretanto, a história é espetacular. A animação mexe com o nosso coração. Cada detalhe apresentado na história demonstra o carinho pelo qual Yonebayashi dedicou a cada momento. A conjunção entre animação clara e música melancólica ajudam a compor um ambiente em que uma jovem procura buscar a si mesma. Mesmo que, para isso, ela precise se perder um pouco pelo caminho e cometer erros, mas ao final, todos nós acabamos separando um espaço no coração para abraçar Anna. E Marnie? Bem, Marnie é a pessoa que mais ama Anna. Disso você pode ter certeza. Assista à animação e se surpreenda assim como eu me surpreendi.

Ficha Técnica:


Nome: As Memórias de Marnie

Diretor: Hiromasa Yonebayashi

Produtor: Yoshiaki Nishimura

Roteiristas: Masashi Ando, Keiko Niwa e Hiromasa Yonebayashi

Baseado em When Marnie was There escrito por Joan G. Robinson

Estúdio: Studio Ghibli

País de Origem: Japão

Tempo de Duração: 103 min

Ano de Lançamento: 2014


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