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Atualizado: 23 de mai. de 2024

Considerado um clássico dos quadrinhos europeus, A Balada do Mar Salgado nos traz a misteriosa figura de Corto Maltese, o verdadeiro marinheiro. Tendo sido resgatado por Rasputin, Corto se vê envolvido em uma trama que envolve o sequestro de dois jovens filhos de um homem importante nas águas do Pacífico. No meio de tudo isso, temos o Monge, alguém cuja identidade é desconhecida, mas que possui muita história a ser contada.


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Sinopse:


Oceano Pacífico, dia de Tarowean de 1913. O sanguinário corsário Rasputin, a serviço do misterioso Monge, resgata seu antigo companheiro, Corto Maltese, amarrado e jogado à deriva no mar. Este é o início de uma incrível trama que se desenrola pelos mares do sul, às vésperas da Primeira Guerra Mundial. Drama e aventura se misturam ao fantástico e ao mistério, apresentando personagens inesquecíveis como Cain, Pandora, Crânio, Slutter, Sbringolin e muitos outros. Considerada um clássico da literatura mundial, Uma Balada do Mar Salgado foi publicada originalmente na Itália em 1967 e na França entre 1973, consagrando seu criador, Hugo Pratt, como uma das grandes personalidades artísticas do século XX. O álbum de estreia do Ulisses moderno, Corto Maltese, que dispensa poder e riqueza em favor da liberdade, um dos personagens mais importantes das histórias em quadrinhos de todos os tempos. A edição da Trem Fantasma traz a história completa de Uma Balada do Mar Salgado no traço original em preto e branco do mestre Hugo Pratt em uma edição repleta de extras em cores, incluindo aquarelas e esboços do autor, além de prefácio de Umberto Eco. Uma edição de colecionador em capa dura e papel de alta gramatura.






Está aí um clássico dos quadrinhos franceses. Corto Maltese é considerado um personagem icônico e suas histórias já se tornaram famosas pelo mundo inteiro. Aqui está a essência do trabalho de Hugo Pratt. Essa edição da Trem Fantasma faz jus ao legado do artista e como início dessa resenha queria destacar o longo artigo inicial escrito por ninguém menos do que Umberto Eco. Ele procura resumir em algumas páginas a longa trajetória e influência do personagem, discutindo a inovação da obra de Pratt e de como o personagem era um eterno amante da liberdade, navegando pelos mares desconhecidos. Mesmo falando bastante sobre esse volume, ele não dá nenhum spoiler da história, então podem ficar tranquilos. Acho até que vale a pena ler para que possamos entender mais o quanto o personagem tem toda uma aura de grandiosidade e os paralelos com o livro Moby Dick, de Herman Mellville estão por toda a parte. Essa é a minha primeira aventura pelo universo do personagem e quero deixar bem claro o quanto me impactou. Aliás, é a primeira HQ que leio do próprio Pratt.


Rasputin está tendo um péssimo dia. Ao lado de sua tripulação ele está se dirigindo para uma abordagem ousada, digna de um grande pirata quando dois acontecimentos marcantes mudam para sempre a sua vida. Ele resgata dois jovens, um rapaz e uma menina, de um naufrágio. Eles parecem ser filhos de algum figurão da região, a família Groovesnore. Rasputin imagina já quanto dinheiro ele pode conseguir em um possível resgate. Mas, logo em seguida ele se depara com um homem preso no mastro em alto mar. É ninguém mais, ninguém menos que Corto Maltese, com quem Rasputin já cruzou algumas vezes e não tem boas recordações disso. Só que Corto é alguém afiliado a um homem misterioso chamado Monge que controla toda aquela região do Pacífico. Então o marinheiro não vê outra saída se não trazer o seu desafeto a bordo e a partir daí pensar quais serão seus próximos passos. Ele ataca um navio carregando carvão, um recurso importante na região e Corto começa a ficar incomodado com Rasputin, cujos métodos não lhe agradam nem um pouco. Ao mesmo tempo, Cain e Pandora começam a criar vários problemas a bordo, o que os obriga a tomar uma decisão sobre o destino dos dois.


Se você pegou esse quadrinho para ler, certamente tem alguma familiaridade com o trabalho de Pratt. Ver a arte dele diretamente é uma experiência bastante diferente. A Balada do Mar Salgado é a primeira história do Corto então ele ainda está trabalhando nos designs de personagem. Tanto que vamos ver nas próximas histórias Pratt solidificando como ele imagina o marinheiro. Sua arte é toda no lápis e no emprego de carvão. As linhas são bastante precisas e o artista é um gênio no emprego da presença/ausência. No fundo o que ele faz em PB é o que vou deixar aparecer e o que não aparece. As silhuetas compõem o quadro e formam os cenários. Mesmo usando o lápis Pratt consegue dar detalhes e características bastante específicas ao cenário e a quem está presente nele. Há uma forte pesquisa sobre vestuário e tradições da região, sendo possível perceber como ele representa as comunidades do Pacífico com formas de se vestir bastante diferentes. Posso imaginar o quanto ele precisou ir atrás de informações específicas para representar povos que nem tinham tantas informações assim a respeito. Pratt também trabalha muito o aspecto gestual dos personagens, o que lhes dá personalidade e individualidade. Por exemplo, Corto é um sujeito meio estóico e malandro enquanto Rasputin é uma dinamite ambulante, vociferando e fazendo amplos gestos.


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A narrativa de Pratt é bastante tranquila e ela segue um ritmo constante ao longo da história. Se você está procurando um quadrinho de ação, esta não é a sua pedida. Aqui temos uma história de piratas, traições e relacionamentos com uma bela virada narrativa ao final. A estrutura da história segue uma narrativa em três atos com o começo sendo o encontro com Cain, Pandora e Corto e como eles são apresentados à tripulação, a segunda parte sendo o ataque de Rasputin e a chegada à ilha Escondida e a terceira parte sendo todo o clímax envolvendo a loucura do Monge e como lidar com os personagens envolvidos. Há uma preocupação de Pratt em apresentar os personagens, todo o contexto onde se passa sua história e envolver os personagens em uma trama que os conecta de modo indelével. Há uma clara evolução nos personagens já que todos eles saem de um ponto A e vão a um ponto B, mesmo que essa mudança seja apenas um revelar de sentimentos adormecidos. Mistérios rondam a história como, por exemplo, a identidade do Monge, apesar de que Pratt solta algumas pistas na metade da história e o leitor meio que dá uma adivinhada antes da revelação. Em vários momentos o leitor fica apreensivo com Corto que é colocado em algumas situações bastante perigosas. Ou seja, o mar não é exatamente um ambiente calmo e tranquilo.


Corto é o ideal do homem livre. E isso é possível perceber completamente no roteiro de Pratt. Ele não chega a ser um personagem bonzinho no sentido estrito da palavra. De vez em quando, percebemos o quanto ele pode ser ardiloso e até colocar uns contra os outros. Só que se trata de um sujeito honrado, ou seja, ele acaba fazendo a coisa certa quando a circunstância não lhe dá outra alternativa. Por exemplo, ele não concorda com os métodos de Rasputin, mas não faz nada para impedi-lo. Só que quando o capitão passa uma linha específica, Corto não se contém. Queria entender mais sobre essa relação com a figura do Monge e como Corto se envolveu com ele, mas parece que não vai ser bem aqui que vamos descobrir. Essa falta de vontade do personagem em se atrelar a responsabilidades é seu ponto forte, mas também sua vulnerabilidade. Pratt o trata de uma forma tão livre que o personagem parece etéreo em várias cenas. Me incomodou isso um pouco ao mesmo tempo em que me deixou intrigado. Normalmente o papel de um protagonista é tocar a história adiante, mas Corto não faz isso ao longo da história. Ele funciona mais como um catalisador para que certos fatos se acelerem.


Vemos na história o funcionamento dessa rede de relações no Pacífico. Se trata de um cenário bem tenso, com uma história acontecendo pouco antes da Primeira Guerra Mundial e as marinhas dos países estando bastante presentes na região. Vemos ingleses e alemães nessa história, lembrando que ambos estão em lados opostos do conflito. Rasputin tem boas relações com um almirante alemão a quem ele deseja favorecer, mas os dois jovens são filhos de uma importante família inglesa local. Isso o coloca em uma posição onde ele precisa tomar uma decisão bem rápida, caso contrário ele estaria colocando todos os seus planos em risco. No meio disso tudo, Pratt nos mostra as traições e acordos em cadeias de comando e como a pirataria podia ser usada como um instrumento para o controle local. Vale a pena prestar atenção principalmente no final com o destino de Slutter nas mãos dos ingleses. Caso determinadas situações não tivessem acontecido, o resultado final poderia ter sido bem inglório.



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Por outro lado temos a figura do Monge que age como uma espécie de comandante dos piratas dessa região. Um homem que age com um misto de misticismo e força de comando. Pratt consegue nos passar bem o quanto essa figura estranha é vista pelos demais. Se fôssemos pensar de maneira lógica, não seria estranho pensar como rufiões poderiam traí-lo rapidamente, mas ele consegue controlá-los. Há um respeito tácito exposto pela maneira como ele se porta e até as artimanhas que ele usa para impor o medo quando necessário. Gostei de ver o momento em que ele chega a encarar numa boa a marinha de um país estrangeiro sem medo de ser feliz. Ao mesmo tempo em que há esse poder de comando, sentimos logo que o mistério que ele esconde possui dor e arrependimento naquela capuz que esconde seu rosto. Nenhuma das pessoas que ele encara como aliadas viram seu rosto, o que lhe confere esse ar místico. Tem um momento na narrativa em que Crânio chega a pensar que o Monge seria uma espécie de título dado a várias pessoas ou que ele seria um homem muito velho. Crânio é um sujeito esperto, e o quanto essa sua reflexão vem de um pensamento próprio ou ele estaria apenas manipulando a opinião dos personagens é algo incerto. A terceira parte da história é toda voltada para lidar com o seu ocaso e loucura e aí vemos o quanto o personagem escondia sentimentos até de si mesmo.


Disse que Corto é um personagem que não move a história para a frente. Rasputin assume essa função. O seu estilo caótico e descontrolado, apesar de ser uma raposa astuta, é o que acaba tendo esse papel. É muito interessante ver as interações dele com Corto porque parece que alguma coisa vai explodir quando os dois estão juntos. Eles são polos muito opostos um ao outro. Porém, existe um grau de respeito na maneira como Corto se refere a ele. Rasputin deseja que as pessoas tenham respeito por ele. O mesmo respeito e deferência que o Monge tem. Só que há uma diferença clara entre os dois: enquanto que o Monge é um indivíduo naturalmente carismático (mesmo que pelo medo e intimidação), Rasputin precisa forçar situações para que isso aconteça. E é impossível prever o efeito que algumas de suas atitudes vão ter ao longo da história. Ele é lógico na sua maneira de abordar o mundo. Só que ele se encontra como um obstáculo para quase todos os personagens. Então seria óbvio pensar que todos querem se livrar dele de alguma maneira.


Essa minha primeira experiência com Corto Maltese foi bem legal. Não conhecia o trabalho de Pratt e foi uma boa experiência narrativa. Me incomodou um pouco o meio da história que tem uma barriga, me levando a crer que a história poderia ser um pouco menor, mas o autor quis investir mais no desenvolvimento de personagens. A arte de Pratt é uma aula de arte em PB que precisa ser melhor observada pelos leitores e todos aqueles interessados na nona arte. No mais, quero acompanhar mais histórias do personagens e já estou ansioso pelo próximo volume da coleção.


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Ficha Técnica:


Nome: Corto Maltese - Uma Balada do mar salgado

Autor: Hugo Pratt

Editora: Trem Fantasma

Gênero: Ficção

Tradutor: Marcello Fontana

Número de Páginas: 184

Ano de Publicação: 2023


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Geiler von Kaysersberg foi um humanista do século XVI que fez um sermão sobre os tipos de leitores malucos por livros. Foi um comentário feito em cima de um trabalho de alguns anos antes.


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Durante os séculos XV e XVI vimos surgir na Europa um importante movimento que abraçou todas as esferas do campo cultural para criticar aquilo que a Igreja católica vinha fazendo há séculos: concentrando e alijando o conhecimento das demais classes sociais. Claro que isso é uma simplificação daquilo que foi o movimento renascentista, mas no seio desse movimento surge o humanismo, uma forma de pensar que colocava o pensamento humano e a razão na frente da doutrina católica. A Igreja sofreu uma série de críticas por conta de sua postura corrupta com a venda de cargos e indulgências, além do escândalo das relíquias sagradas. Alguns membros do clero perceberam a necessidade de se reinventar, de buscar novas formulações para resgatar os fieis perdidos por conta de todos esses problemas. Um destes foi Geiler von Kaysersberg, um humanista que em um de seus sermões fez comentários sobre uma obra escrita por Sebastião Brant, um estudioso em leis do século XV, chamada A Nau dos Insensatos. Tratava-se de uma série de alegorias feitas na forma de poesia que criticava uma série de loucuras e pecados dos homens de sua época. Ia desde roubos, assassinatos até o adultério e a ingratidão. Brant chega até a mencionar a descoberta do Novo Mundo em sua obra, acrescentando novos pecados ao que já era corriqueiro antes. Em Brant, chama a atenção a crítica feita ao intelectual, uma das primeiras de sua obra. Seria um homem erudito que estaria em um ambiente repleto de livros a ponto de se afogar neles. Os óculos na ilustração simbolizam um homem que enxerga o mundo através de uma lente embaçada, um homem que vive longe da realidade.


Em um sermão no século XVI, Geiler faz alguns comentários sobre o livro de Brant e divide esse homem erudito em sete tipos, simbolizados nos sinos que ficam no chapéu de um bufão. Neste artigo queria trazer alguns comentários sobre os sinos criados por Geiler e o quanto alguns deles remetem a estereótipos contemporâneos. É bastante curioso porque isso partiu de um padre tecendo formulações sobre o seu cotidiano e nos dias de hoje conseguimos ver algumas dessas personalidades que destacamos em nossas brincadeiras e memes nas redes sociais. Vamos falar brevemente de cada um dos "sinos" e vejam se vocês reconhecem cada um deles.


Primeiro Sino: "o louco que coleciona livros por ostentação."


Geiler nos apresenta o louco por livros que considera aquilo que coleciona como parte de sua mobília. É aquele colecionador que não se importa muito com os títulos que adquire ou sequer em lê-los, mas se preocupa em como eles ficarão em sua estante. A visão dos livros como ostentação se tornou parte de um estranho hábito ou fetiche onde vemos pessoas de diferentes níveis de riqueza e status apenas colocando essas obras no fundo. Durante a era da pandemia vimos se tornarem piadas na internet os papeis de parede representando livros ou as estantes alugadas. Até mesmo importantes membros da política ou da cultura comprando livros a quilo. É um reflexo de uma sociedade que se distancia dos hábitos de leitura e os entende como um simbolismo estranho do ser erudito ou de pertencer a algum grupo de pessoas privilegiadas. Essa visão do livro existia desde meados do século XVI quando a burguesia desejava encontrar formas de enobrecer e ganhar status social. Nos dias de hoje o efeito é semelhante.


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Segundo sino: "O idiota que deseja ficar sábio consumindo livros em demasia"


Em sua descrição sobre este estereótipo, Geiler entende o consumo de livros como algo ligado à nutrição do espírito. Um homem erudito que consome livros demais não implica em alguém obtendo a verdadeira sabedoria. Para Geiler, ele é apenas um glutão que consome o seu alimento sem nenhum critério. Ele compara também a um general que possui soldados demais para uma invasão e se sente confuso e sem saber o que fazer. Mas, queria me concentrar na primeira associação que reflete melhor algumas posturas hoje. Frequentemente vemos maratonas literárias ou metas a serem atingidas ao longo do ano. E esse tipo de iniciativa tem seus prós e contras. É elogiável quando vemos pessoas desejando fazer leituras, saindo de uma inércia provocada por questões da vida. Só que isso se torna rapidamente complicado quando ler se torna uma obrigação onde aquele que fica para trás se sente emocionalmente frustrado. Sem falar no fato de que quantidade não implica qualidade. Quando lemos apenas porque desejamos cumprir uma meta, deixamos de lado o ler para refletir, para compreender temas, para debater conceitos e teorias. Ou seja, a leitura em quantidade pode implicar apenas em uma leitura como um fast-food que deixa um estômago embrulhado.


Terceiro sino: "O idiota que consome livros sem lê-los"


Geiler comenta sobre o leitor que adquire conhecimentos apenas pela curiosidade de tê-los. Podemos associar o simbolismo do homem que passa voando pelas fachadas sem observá-las, como ele nos coloca, ao do flaneur, do homem que passeia. Mas, em um aspecto literário isso é uma visão superficial de como se relacionar a um livro. Na nossa sociedade de consumo, e principalmente dentro do nosso hobby literário, adquirir livros é quase um fetiche. Com frequência postamos nossas imensas pilhas de livros, postamos vídeos de desempacotar o que compramos. Mas, a pergunta é: lemos tudo o que compramos? Sei que existem leitores velozes (e isso cai no segundo sino), mas na maior parte das vezes não lemos quatro ou cinco livros por mês. E no mês seguinte já estamos comprando mais. E nossas pilhas aumentam e aumentam cada vez mais. Faço esse comentário, mas me coloco no meio desse hábito. Até porque a maior parte dos influenciadores literários sobrevivem da novidade. Se não conseguimos falar do livro novo que acabou de sair, perdemos o bonde da expectativa. E de forma indireta incentivamos o hábito de consumo. O que isso nos torna? A crítica feita por Geiler não deixa de ser incômoda porque toca em um fato atual.


Quarto sino: "o louco que ama livros suntuosamente iluminados"


O nosso padre questiona a necessidade de ouro ou flores nas iluminuras de um livro. Quando tantas pessoas passam fome, não é ostentar demais apreciar um livro por sua beleza externa? Ele tece críticas às imagens e ilustrações existentes em uma obra. Em uma visão mais voltada para o catolicismo, Geiler questiona a necessidade delas em um livro quando o mundo que Deus criou é tão mais interessante. É uma crítica que retoma algumas conceitualizações saídas do movimento iconoclasta do final da Alta Idade Média que questionava a existência de imagens e pinturas. Talvez esta seja uma das poucas críticas que não esbarrem na atualidade. Isso apesar de haver um grupo de críticos que sempre questiona a necessidade da inclusão de imagens e ilustrações em livros que se imaginem ser de ficção. Ou posso estender a crítica a quem questiona se quadrinhos seriam literatura ou não (isso é uma enorme discussão que não vem ao caso trazer aqui).


Quinto sino: "o idiota que encaderna seus livros com panos suntuosos"


Nessa imagem, Geiler critica o louco por rótulos, pelo superficial, pelo externo. Isso me remete a uma boa e velha discussão sobre a gourmetização literária, tão comum hoje com os livros em capa dura, impressos em papel especial, com gravuras e imagens feitas por artistas renomados, a pintura trilateral, o alto relevo. Geiler nos faz refletir sobre aonde se situa o conteúdo do que é escrito, aquilo que realmente importa em uma leitura. Hoje se tornou parte de nossas análises o editorial de um livro, os aspectos gráficos dele. E costuma ser um fator determinante em seu sucesso ou não. Recentemente tivemos uma polêmica em relação ao lançamento de O Caminho dos Reis, primeiro volume da série Stormlight Archive, um livro esperado há muito por fãs de fantasia. Frustrando alguns fãs mais puristas a editora afirmou que iria lançar o livro em uma capa brochura e papel mais comum. Era óbvio desde o começo que o livro teria um valor de compra elevado para o contexto de 2022 no Brasil. O povo brasileiro está com baixo poder aquisitivo devido a uma série de problemas econômicos como alta inflação e taxa de juros além de um dólar elevado. Isso impacta em todos os setores produtivos. Estamos pedindo a chegada desse livro há tempos e ao invés de pedirmos que o livro saia no formato mais econômico possível, queremos que ele saia no mais luxuoso e caro. É um contrassenso. É uma ostentação boba, já que o que mais vale na obra é o enorme universo criativo e instigante criado pelo autor.


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Sexto sino: "o idiota que escreve e produz livros mal escritos sem ter lido os clássicos e sem nenhum conhecimento de ortografia, gramática e retórica"


Bem, esta é uma crítica bem abrangente nos dias de hoje. Comecemos falando sobre a necessidade do autor ser um bom leitor. Autor que não lê livros de qualquer espécie (sejam clássicos ou contemporâneos) é qualquer coisa. É complicado levar a sério um autor que diz que não gosta de ler nada e se concentra na sua arte. Oras, se um autor escreve é porque alguma leitura lhe influenciou a colocar suas ideias no papel. Sem falar na impossibilidade de ser um bom autor sem conhecer como outros já o fizeram. É como um médico que opera sem ter lido nenhum material de estudo ou um engenheiro que desconhece os processos de construir uma ponte. Alegar purismo em uma atitude estranha não leva um autor a ser alguém melhor; apenas o torna tolo. Não me refiro nem ao menos a ler um livro específico, mas a ler qualquer coisa. Se um indivíduo deseja ser um bom escritor policial, ele precisa ler o que foi escrito sobre o tema para compreender os principais temas, a forma de ambientar, como desenvolver seus personagens. Isso não significa que um bom leitor vá ser um bom autor. Não tem relação.


Paralelamente, o autor precisa estudar os processos de escrita. Precisa dominar bem o idioma no qual está escrevendo. E também precisa ser humilde o suficiente para aceitar críticas, para solicitar serviços de revisão e copidesque. Um dos erros essenciais de um autor iniciante é imaginar que ele domina completamente a arte da escrita e que quem fala mal de seu trabalho é apenas um "hater", alguém que está lá apenas para destruir sua carreira, Autores precisam sair de sua bolha, arriscar serem lidos pelo mundo. Aceitar aquilo que puder ser acrescentado ao seu trabalho e descartar as críticas que são apenas destrutivas. Entender que um grande escritor é formado através de um desenvolvimento de sua escrita que perdurará para todo o sempre. Como bom estudioso, entender que devemos estar constantemente aprendendo e nos reformulando. Somos seres em construção inclusive quanto àquilo que escrevemos.


Sétimo sino: "aquele que despreza completamente os livros e zomba da sabedoria que se pode obter deles"


Conhecimento é poder. Em sociedades que visam o controle e o autoritarismo um dos motes é diminuir aquilo que os livros podem fazer pelas pessoas. Livros nos libertam, nos fazem pensar. É através deles que passamos a compreender melhor a realidade que nos cerca. Seja uma reportagem, um livro de poesias, uma ficção. Qualquer um deles tem o seu impacto sobre nós. Aliás, diferentemente do que se imagina, todo livro é político. Porque somos seres políticos e tomamos ações políticos todos os dias de nossa vida. Ao acordar em nossas casas, ao caminharmos para o nosso trabalho, ao sermos atendidos em hospitais, ao frequentarmos uma escola. Tudo é político. Se um político despreza a cultura é porque ele deseja sua submissão. Indivíduos que não leem estão mais propensos a serem controlados por falsas informações, a não refletirem sobre o que fazem. Não considero o sétimo sino como vindo de um idiota, mas de uma pessoa que sabe o que está fazendo, que planeja com convicção aquilo que pretende. Não sejamos usados por esse tipo de tolo apresentado por Geiler. Sejamos livres.


E aí, algum desses sinos representa alguém que conhece? Representa a si mesmo? Deixem nos comentários suas opiniões sobre esta matéria e vamos debater juntos.



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Nesse gélido romance, Hibbard, um homem cujo apego ao mundo dos nobres e ao mundo dos camponeses é bem pequeno, começa a desenvolver um estranho fascínio por uma bela patinadora com quem ele tem um estranho encontro noturno. Após isso, ele passa a buscá-la nos bailes da elite, mas sem sucesso. Quem será essa bela patinadora?


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Sinopse:


E se você fosse capaz de trazer seus sonhos para a realidade?


Professor Ludwig decide brincar com os limites entre o sonho e a realidade ao criar um par de óculos que faz com que seu portador tenha uma experiência sensorial única. Entretanto, talvez esse experimento seja um pouco intenso demais.


Os óculos de Pigmalião apresenta criaturas mágicas e cenários apaixonantes em uma história de aventura, fantasia e romance.





Esse é um conto bastante curioso onde Algernon Blackwood faz uma bela análise social, disfarçada de um conto de fantasmas. E as histórias de fantasmas tem essa sutileza de inserir outras questões no meio da narrativa. O que faz das histórias de Blackwood diferentes é sua maneira de criar ambiente e tensão para que os leitores possam imaginar que alguma coisa está errada ali. Não se tratam de histórias de terror, necessariamente, mas histórias que provocam desconforto. O fato de Blackwood colocar o personagem em um lugar gélido (que suscita a sensação de isolamento) e faz o personagem se sentir solitário em uma multidão de pessoas torna a narrativa mais claustrofóbica. Esse desconforto vai aumentando progressivamente à medida em que a trama vai ganhando mais corpo. E, no meio desse desconforto, Blackwood vai tratar de desigualdade social, relação entre cristianismo e paganismo. Em uma história meio fantasmagórica. Por esse motivo é que Blackwood é considerado um dos precursores desse gênero.


A narrativa começa com Hibbar, um homem com um bom trabalho cujo hobby é a escrita. Ele é alguém que classifica a realidade em que vive em três mundos: o mundo dos nobres com seus bailes de gala e frivolidades; o mundo dos camponeses com sua vida mundana e o mundo da natureza que, para ele, é um lugar eivado de mistérios. Durante sua estadia em um hotel durante um inverno rigoroso, ele se sente solitário mesmo estando cercado de pessoas. Seus dias são melancólicos e nada parece agradá-lo. Isso porque ele não se sente parte do mundo dos nobres ou dos camponeses. Apenas a natureza lhe revela algum atrativo. Até que um dia, quando ele havia saído para espairecer a mente e patinar à noite, ele se depara com uma linda moça de cabelos loiros e um vestido branco como a neve. Ele tenta alcançá-la, mas seu jeito esquivo apenas provoca uma espécie de dança sedutora que o fascina. Ela desaparece misteriosamente e isso faz com que queira buscá-la custe o que custar. É então que sua percepção vai colocá-la em todos os lugares. Mas, será que ele vai encontrá-la?


Nesse conto, Blackwood nos apresenta um homem que está obcecado em encontrar uma mulher espectral que ele encontrou por acaso um dia. E ele se vê encantado pela beleza estranha da neve, uma beleza cruel e misteriosa. Um dos elementos de escrita que mais me chamaram a atenção é em como ele transforma a neve, o clima frio, em um indivíduo dotado de personalidade e temperamento. Talvez seja uma das melhores exposições a respeito da prosopopéia como figura de linguagem. É tornar o abstrato em algo que possui características humanas. Os longos parágrafos descritivos, que são típicos em sua escrita, servem para reforçar essas características. Lembrando que Blackwood faz parte ainda da tradição vitoriana de escrita de terror, que vimos em obras como Drácula, de Bram Stoker ou de O Retrato de Dorian Grey, de Oscar Wilde. O personagem é um romântico incurável, cujo sofrimento se espalha pelas páginas e o faz ficar doente de amor por alguém que ele não é capaz de alcançar. É isso que vai levá-lo à sua perdição.


Por outro lado, Blackwood faz um contraponto entre o mundo cristão e o mundo pagão. Hibbard é um homem temente a Deus cujas ações são virtuosas embora ele sofra com isso. Estar no mundo cristão é viver segundo todo um conjunto de regras criadas para fazer a sociedade funcionar. É o mundo da ordem, da previsibilidade, da humanidade. Já a natureza selvagem que se espalha para além do horizonte de sua visão é um lugar indomável, onde os indivíduos não são capazes de prever o que vai lhes acontecer. Nele, os ensinamentos de Deus não são mais viáveis já que o mundo da natureza funciona por seus próprios caprichos. Quando um indivíduo sai da esfera de Deus (por exemplo, lá no final, temos o emprego dos sinos da Igreja como uma forma de salvação), ele fica à mercê das forças ocultas. O sobrenatural neste conto é o pagão, é aquilo que é regido pelas forças do caos, aquilo que não é previsível. Se Hibbard deixa o seu caminho reto e cristão, ele se coloca como passível de ser assombrado. Em todas as vezes que ele ignorou os ditames do bom católico, foi alvejado por coisas inexplicáveis.


Blackwood traz uma narrativa intrigante e misteriosa que nos coloca diante de um homem que está obcecado com o encontro de si em um mundo que não mais consegue fazê-lo se sentir parte dele. E para isso, ele vai precisar se perder de seu correto caminho, ser tentado por forças além da compreensão para só então entender como ele se encaixa na sociedade. Mas, será tarde demais para ele ou ainda existe salvação? Leiam este misterioso conto de Blackwood e tirem suas próprias conclusões.










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Ficha Técnica:


Nome: O Fascínio da Neve

Autor: Algernon Blackwood

Editora: Wish

Tradutor: Paulo Noriega

Número de Páginas: 42

Ano de Lançamento: 2022


Avaliação:

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*Faz parte da Sociedade das Relíquias Literárias


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Conversa aberta. Uma mensagem lida. Pular para o conteúdo Como usar o Gmail com leitores de tela 2 de 18 Fwd: Parceria publicitária no ficcoeshumanas.com.br Caixa de entrada Ficções Humanas Anexossex., 14 de out. 13:41 (há 5 dias) para mim Traduzir mensagem Desativar para: inglês ---------- Forwarded message --------- De: Pedro Serrão Date: sex, 14 de out de 2022 13:03 Subject: Re: Parceria publicitária no ficcoeshumanas.com.br To: Ficções Humanas Olá Paulo Tudo bem? Segue em anexo o código do anúncio para colocar no portal. API Link para seguir a campanha: https://api.clevernt.com/0113f75c-4bd9-11ed-a592-cabfa2a5a2de/ Para implementar a publicidade basta seguir os seguintes passos: 1. copie o código que envio em anexo 2. edite o seu footer 3. procure por 4. cole o código antes do último no final da sua page source. 4. Guarde e verifique a publicidade a funcionar :) Se o website for feito em wordpress, estas são as etapas alternativas: 1. Open dashboard 2. Appearence 3. Editor 4. Theme Footer (footer.php) 5. Search for 6. Paste code before 7. save Pode-me avisar assim que estiver online para eu ver se funciona correctamente? Obrigado! Pedro Serrão escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:42: Combinado! Forte abraço! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:41: Tranquilo. Fico no aguardo aqui até porque tenho que repassar para a designer do site poder inserir o que você pediu. Mas, a gente bateu ideias aqui e concordamos. Em qui, 13 de out de 2022 13:38, Pedro Serrão escreveu: Tudo bem! Vou agora pedir o código e aprovação nas marcas. Assim que tiver envio para você com os passos a seguir, ok? Obrigado! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:36: Boa tarde, Pedro Vimos os dois modelos que você mandou e o do cubo parece ser bem legal. Não é tão invasivo e chega até a ter um visual bacana. Acho que a gente pode trabalhar com ele. O que você acha? Em qui, 13 de out de 2022 13:18, Pedro Serrão escreveu: Opa Paulo Obrigado pela rápida resposta! Eu tenho um Interstitial que penso que é o que está falando (por favor desligue o adblock para conseguir ver): https://demopublish.com/interstitial/ https://demopublish.com/mobilepreview/m_interstitial.html Também temos outros formatos disponíveis em: https://overads.com/#adformats Com qual dos formatos pensaria ser possível avançar? Posso pagar o mesmo que ofereci anteriormente seja qual for o formato No aguardo, Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 17:15: Boa tarde, Pedro Gostei bastante da proposta e estava consultando a designer do site para ver a viabilidade do anúncio e como ele se encaixa dentro do público alvo. Para não ficar algo estranho dentro do design, o que você acha de o anúncio ser uma janela pop up logo que o visitante abrir o site? O servidor onde o site fica oferece uma espécie de tela de boas vindas. A gente pode testar para ver se fica bom. Atenciosamente Paulo Vinicius Em qui, 13 de out de 2022 12:39, Pedro Serrão escreveu: Olá Paulo Tudo bem? Obrigado pela resposta! O meu nome é Pedro Serrão e trabalho na Overads. Trabalhamos com diversas marcas de apostas desportivas por todo o mundo. Neste momento estamos a anunciar no Brasil a Betano e a bet365. O nosso principal formato aparece sempre no topo da página, mas pode ser fechado de imediato pelo usuário. Este é o formato que pretendo colocar nos seus websites (por favor desligue o adblock para conseguir visualizar o anúncio) : https://demopublish.com/pushdown/ Também pode ver aqui uma campanha de um parceiro meu a decorrer. É o anúncio que aparece no topo (desligue o adblock por favor): https://d.arede.info/ CAP 2/20 - o anúncio só é visível 2 vezes por dia/por IP Nesta campanha de teste posso pagar 130$ USD por 100 000 impressões. 1 impressão = 1 vez que o anúncio é visível ao usuário (no entanto, se o adblock estiver activo o usuário não conseguirá ver o anúncio e nesse caso não conta como impressão) Também terá acesso a uma API link para poder seguir as impressões em tempo real. Tráfego da Facebook APP não incluído. O pagamento é feito antecipadamente. Apenas necessito de ver o anúncio a funcionar para pedir o pagamento ao departamento financeiro. Vamos tentar? Obrigado! Ficções Humanas escreveu no dia quinta, 13/10/2022 à(s) 16:28: Boa tarde Tudo bem. Me envie, por favor, qual seria a sua proposta em relação a condições, como o site poderia te ajudar e quais seriam os valores pagos. Vou conversar com os demais membros do site a respeito e te dou uma resposta com esses detalhes em mãos e conversamos melhor. Atenciosamente Paulo Vinicius (editor do Ficções Humanas) Em qui, 13 de out de 2022 11:50, Pedro Serrão escreveu: Bom dia Tudo bem? O meu nome é Pedro Serrão, trabalho na Overads e estou interessado em anunciar no vosso site. Pago as campanhas em adiantado. Podemos falar um pouco? Aqui ou no zap? 00351 91 684 10 16 Obrigado! -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification -- Pedro Serrão Media Buyer CLEVER ADVERTISING PARTNER contact +351 916 841 016 Let's talk! OverAds Certification Área de anexos ficcoescodigo.txt Exibindo ficcoescodigo.txt.