• Paulo Vinicius

Valente

A jovem Merida é a filha do chefe das tribos da região onde vivem. Ela é a primogênita, e sempre gostou de ter uma vida livre onde poderia andar com seu cavalo nos campos e atirar flechas. Mas, ela cresceu e se casar se tornou essencial para pôr fim às diferenças entre os diversos chefes locais. Só que Merida não deseja perder sua liberdade e quer encontrar alguma forma de mudar o seu destino.



Poder ter a liberdade de fazer nossas escolhas. Quantas vezes já não desejamos ter essa possibilidade? Algo que nem sempre é possível devido a um sem número de circunstâncias: falta de idade, de recursos financeiros, situação familiar entre outras coisas. Mesmo assim sonhamos com essa possibilidade dentro do que nos é colocado. Só que ser verdadeiramente livre pode ser um fardo quando feito do jeito errado. A liberdade vem acompanhada de responsabilidade. Porque qualquer ação que fazemos sem pensar pode acarretar uma série de consequências. E não só com nós mesmos, mas com aqueles que ficam ao seu redor. Valente fala muito de liberdade e responsabilidade e nos coloca uma personagem que, mesmo buscando o justo, precisa encarar as consequências de ações impensadas. Afinal, é preciso amadurecer para ser capaz de usufruir de um certo grau de liberdade.


Valente tem uma produção bem curiosa porque ele contou com uma equipe de produção diversa. É uma animação que foi lançada nos cinemas em 2012 e foi extremamente lucrativa para a Disney que conseguiu triplicar o orçamento. O longa é uma produção da Pixar que vinha em uma linha de mudar as temáticas de suas animações mesclando temas filosóficos com diversão simples e pura. A direção foi de Mark Andrews, que trabalhou como diretor de roteiro de Os Incríveis, e de Brenda Chapman que dirigiu O Príncipe do Egito, da Dreamworks. Brenda foi também a responsável direta pelo roteiro do filme. A produção ficou nas mãos de Katherine Serafian que havia trabalhado em Vida de Inseto. Não vou comentar sobre os dubladores originais porque não tenho o hábito de assistir em inglês, preferindo a dublagem em português. Mas, fica aqui o destaque para a atuação de Kelly Macdonald, Emma Thompson e Billy Connolly fazendo os personagens.


Somos apresentados a Merida, uma menina que desde pequena sempre gostou de viver mil aventuras. Seu pai, Fergus, é um grande guerreiro que caçou Mor'du, um enorme urso que assolava a região e quase matou Merida quando criança. Graças a essa conquista, Fergus foi apontado como o rei das tribos locais. Um dos passatempos favoritos da menina é andar a cavalo e descobrir novos lugares pela mata. Outro é atirar com o arco e flecha, algo no qual ela é muito boa. Nenhuma desses passatempos se relaciona ao papel de uma mulher que deve se casar e ser responsável no futuro, como diz sua mãe Elinor. Passado alguns anos, a paz ronda o reino, embora Fergus tenha perdido uma perna no confronto com o urso gigante. Merida é uma mocinha e sua mãe a todo o momento insiste para que ela adote hábitos de uma dama para que possa se casar no futuro. Um dia, os pedidos de casamento que Elinor enviou às três tribos locais retorna com uma confirmação de todas. Os chefes estarão vindo em comitiva para o reino pedir a mão de Merida em nome de seus filhos, para o absoluto pavor da menina. Ela é colocada em uma situação sem escolha onde ela acaba aprontando uma peça bem feia que quase coloca o reino em perigo após uma discussão entre os três chefes. Depois de uma discussão feia com Elinor, Merida sai correndo desesperada e é aí que ela encontra uma bruxa... e tudo irá mudar. Não sei se para melhor, mas a gente vai se divertir à beça.



A animação de Valente é muito bonita mesmo. Sei que é chover no molhado dizer o quanto as animações da Pixar são sempre bem executadas com uma modelagem 3D elegante e fluida. Mas, também precisamos analisar que tipo de cenários são criados para encaixar os personagens, a palheta de cores empregada e se os personagens tem ou não personalidade. E isso Valente tem aos montes. Calcada em uma ambientação tipicamente celta, lindas florestas e matas nos fornecem o contorno da história. Árvores por todo o lado, vegetação ampla. A palheta empregada gira em tons de terra como o verde e o marrom, e achei a opção pelos cachos ruivos de Merida bem acertada para contrastar com a escolha de cores para o cenário. Toda vez que Merida está em cena, ela chama a atenção, consegue fazer com que os olhos do espectador se voltem para ela. Ao mesmo tempo representa a sua personalidade inquieta e ardente, sempre em busca do próximo desafio. Como o adjetivo que dá nome ao filme, ela não recua diante das adversidades. A trilha sonora também é bem bonita, bastante inspirada na cultura celta, tendo algumas músicas sido cantadas em céltico (se não me engano em duas oportunidades).


Merida não quer se casar com aquele que sua mãe ou seu pai escolher para ela. Aliás, ela quer ter a liberdade de poder escolher quando e se vai se casar. Ela é uma menina jovem e ainda não está ciente da sua importância como futura sucessora do trono. As discussões que ela tem com sua mãe não são nada mais do que os temas comuns que acontecem entre mães e filhas. Infelizmente para ela, sua liberdade tem um preço. Após se revoltar com a decisão mais dura de Elinor, ela foge de casa. Precisa de espaço para pensar e decidir o que fazer em seguida. É então que ela acaba se encontrando com uma bruxa e ela fica em dúvida se essa figura teria realmente poderes especiais capazes de ajudá-la. E aí Merida entra no seu erro: decide optar por uma solução fácil para um problema que ela precisava enfrentar com valentia. Essa solução que ela consegue com a bruxa apenas a coloca em uma situação ainda mais complicada do que a anterior e colocando em risco a integridade de sua própria família. Somente quando Merida reflete sobre toda a confusão que ela mesma aprontou, é que ela percebe que tomou o caminho errado. Usou de artifícios tolos para alcançar o resultado final.


Claro que Elinor é o estereótipo da mãe severa. Mesmo amando sua filha, Elinor a coloca sempre em situações no qual a única coisa que ela vai conseguir é o confronto. Isso porque ela parte da premissa que os filhos e filhas são o espelho dos pais. Que eles devem ser preparados para viver uma boa vida, para não cometer os mesmos erros. Quando isso é impossível. Cada ser humano é um indivíduo em si mesmo. Vai viver e experimentar situações completamente diferentes das nossas. Quanto mais buscarmos ensinar a eles que isso ou aquilo outro é proibido, mais eles vão querer fazer. Se possível, devemos preparar nossos filhos para a vida, sem esconder nada. E nos prepararmos psicologicamente porque qualquer ser humanos comete erros e acertos. Não nos cabe colocar pessoas em redomas de vidro; isso tem o efeito contrário ao que pensamos. Em Valente, de nada adiantou toda a reclusão e as proibições que Elinor tentou com Merida. Só serviu para que a menina fixasse em sua cabeça aquilo que ela queria para si. Se as duas tivessem se sentado para ter um diálogo franco e aberto, nada daquilo teria acontecido. Se podemos dizer que Merida aprendeu muito com esta aventura, o mesmo se deu com Elinor.



O elemento mágico está bastante presente na narrativa, mas nunca de forma direta. Os espíritos servem como guias para os seres humanos. Apenas aqueles mais afinados com a natureza conseguem enxergá-los. E estes espíritos é que nos ajudam em nossas escolhas, oferecendo caminhos e opções. Não cabe aos espíritos julgar o que fazemos, mas auxiliar e dar luz aos nossos pensamentos. A magia também está presente no caldeirão da bruxa, que não é também maligna ou benigna. Ela está ali apenas para oferecer seus serviços a quem lhe pagar. Merida a buscou com um objetivo em mente e como uma boa comerciante, a bruxa forneceu o que a menina queria. As consequências das ações da personagem não são levadas em conta por ela. Gostei demais como a magia em Valente segue as tradições culturais com as runas, o emprego de ervas e outras substâncias da floresta e como os espíritos da natureza ajudam os seres humanos. Se é uma tradução do que é a cultura celta? De forma alguma. Há mais complexidade e riqueza nela do que somente o que foi mostrado no desenho. Mas, ver como, por exemplo, a ideia da tapeçaria como uma simbologia histórica e herança de família foi tratada é bem legal. As pedras unidas em círculo que me remeteu diretamente a Stonehenge. Tudo isso nos ajuda a nos aproximarmos um pouco mais desse importante legado cultural.


Valente não está entre os melhores filmes da Pixar. Já vi alguns que me encantaram mais. Mas, certamente são boas horas de diversão na telinha. E temos até uma personagem que é facilmente identificável por toda e qualquer mãe e filha adolescente que existe pelo mundo. É o velho conflito de gerações que existiu, existe e sempre existirá não importa a era em que vivemos. Cabe a cada um de nós exercer o equilíbrio e compreender a identidade individual de cada um, mesmo que esse cada um seja o seu (ou a sua) filho (ou filha). E que a liberdade sempre vem atrelada à responsabilidade. Não somos criaturas presas a um script de vida; o destino depende apenas de cada um de nós.



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