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Uma Breve Introdução sobre Literatura de Ficção Científica Chinesa (Parte 1)

Atualizado: 2 de Mai de 2019

Por Regina Kanyu Wang. Disponível em: http://mithilareview.com/wang_11_16/ Traduzido por Paulo Vinicius F. dos Santos.

Nesta série de dois artigos, Regina Kanyu Wang comenta um pouco sobre a história da ficção científica na China. De seus primórdios até o surgimento de grandes escritores como Cixin Liu.

A ficção científica chinesa permaneceu por muito tempo misteriosa para o público internacional até muito recentemente. Em 2015, Liu Cixin (刘慈欣) venceu o primeiro Hugo Award para a Ásia com o seu romance O Problema dos Três Corpos (《三体》) e em agosto de 2016, Hao Jingfang (郝景芳) venceu o segundo com a sua noveleta Folding Beijing (《北京折叠》) — ambas traduzidas por Ken Liu, um autor sino-americano e vencedor do Hugo. O conto multi-premiado de Ken Liu, "The Paper Menagerie" (2012), explora o conflito entre as identidades culturais chinesa e americana do narrador. Agora que mais e mais histórias de ficção científica chinesas estão sendo traduzidas para o inglês e outros idiomas, é um momento perfeito para explorarmos sua história.

Este artigo se concentra primariamente na ficção científica e não na fantasia. Na China, o limite entre ficção científica (Ke Huan, 科幻) e a fantasia (Qi Huan, 奇幻) não é tão nítida. Entretanto, devido à nossa tradição histórica em mitos e histórias de kung fu, é difícil definir a fantasia chinesa como um todo. Você vai achar muito difícil diferenciar Qi Huan (奇幻, fantasy) de Xuan Huan (玄幻, que muitos se referem à uma história online com estilo chinês e elementos sobrenaturais) e Mo Huan (魔幻, se refere à ficção com elementos de magia ao estilo ocidental). Falando estreitamente, a literatura de fantasia chinesa contemporânea exclui da conta temas como roubo de túmulos (盗墓 Dao Mu, um grupo de pessoas que invadem túmulos antigos, onde se encontram com espíritos e todo o tipo de criaturas malignas, em busca de tesouros), viagem no tempo (穿越Chuan Yue, uma garota que viaja no tempo das antigas dinastias por quaisquer razões e se mete em relações complicadas com reis, príncipes e oficiais) e a busca pela imortalidade taoísta (修真 Xiu Zhen, um rapaz que experimenta vários desafios para buscar a imortalidade através do Taoísmo), que são temas populares por si mesmos.

Já existiram revistas de fantasia e fandoms ao longo da história contemporânea, mas comparado com a ficção científica, a literatura chinesa de fantasia não está no seu melhor. Tendo dito isso, séries de TV e filmes adaptados de trabalhos antigos bem sucedidos estão começando a sair este ano, como, por exemplo: Novoland: The Castle In the Sky (2016), uma série de TV que se passa no universo de Novoland, como se fosse um Dugeons & Dragons chinês, o esforço colaborativo de muitos fãs e escritores; e Ice Fantasy (2016); uma série de TV adaptada do best-seller, City of Fantasy (2013), escrita por Guo Jingming, um famoso autor chinês de livros Young Adult. Entretanto, para os propósitos deste ensaio, só vou falar de ficção científica na China continental.

1 - Pré-História e História Antiga da Ficção Científica Chinesa

As lendas e mitos chineses possuem elementos fantásticos em abundância como em todas as culturas. O primeiro texto com um estilo de ficção científica na China pode ser encontrado aproximadamente entre 450 - 365 a.C. Em um dos clássicos do Taoísmo, Liezi (《列子》), podemos encontrar uma história chamada “Yanshi (《偃师》)” no capítulo “As Questões de Tang (《汤问》).” Yanshi, um mecânico habilidoso, constrói um autômato delicado que se parece com um ser humano real, que pode se mover, cantar e dançar. Ele mostra a sua criação ao rei para provar a sua habilidade. O autômato é tão delicado e convincente que o rei suspeita que Yanshi o está enganando ao usar uma pessoa de verdade. No final, Yanshi precisa quebrar o autômato para provar que ele é feito apenas de madeira e couro. O autômato de Yanshi pode ser visto como um protótipo de um robô primitivo.

A ficção científica como a conhecemos hoje na China veio primeiro durante a dinastia Qing tardia. Intelectuais chineses como Lu Xun (鲁迅) e Liang Qichao (梁启超) enfatizaram a importância da ficção científica como uma ferramenta para ajudar o país a prosperar. Em 1900, o tradução chinesa do livro A Volta ao Mundo em 80 Dias de Jules Verne foi publicada - foi a primeira história estrangeira de ficção científica publicada na China, traduzida por Chen Shoupeng (陈寿彭) e Xue Shaohui (薛绍徽). Lu Xun, sem dúvida alguma um dos mais famosos escritores de literatura chinesa moderna, também traduziu vários romances de ficção científica para o chinês, como Da Terra à Lua de e A Viagem ao Centro da Terra de Jules Verne, publicadas em chinês em 1903 e em 1906, respectivamente. Lu Xun traduziu os romances a partir da tradução de Inoue Tsutomy já que ele não sabia francês. A mais antiga história de ficção científica chinesa conhecida é Colony of the Moon (《月球殖民地》), escrita por Huangjiang Diaosou (荒江钓叟, pseudônimo de um autor anônimo, cujo nome significa "Velho Pescador de um Rio Deserto), serializada em um jornal chamado Illustrated Fiction (《绣像小说》) em 1904 e 1905.

A literatura precisa preencher certas responsabilidades sociais na China. Durante meados do século XX, a ficção científica na China teve o papel de ensinar ciência avançada assim como democracia ocidental. Muitos dos romances ocidentais de ficção científica que foram traduzidos para o chinês foram reescritos para servirem a este propósito. Por exemplo, o texto original de Verne de Da Terra à Lua continha 29 capítulos, mas na tradução de Lu Xun continha apenas 14; A Viagem ao Centro da Terra tem 45 capítulos em seu texto original em francês, mas Lu Xun o reescreveu em apenas 12.

As guerras e turbulências políticas duraram do final da Dinastia Qing (1833-1911) até a Era Republicana (1911-1949). O romance Cat Country (《猫城记》) de Lao She (老舍) foi publicado em 1932. Pode ser o romance de ficção científica chinesa mais conhecida antes da nova era. No romance, o personagem principal (narrado em primeira pessoa) viaja até Marte mas a aeronave é esmagada logo que ela chega lá. Como único sobrevivente, o protagonista é levado até a Cidade dos Gatos por alienígenas de rosto felino onde ele então passa a viver. Com suas descrições irônicas da comunidade alienígena, o autor critica a sua própria sociedade.

Depois da implantação da República Popular da China em 1949, a primeira onda da nova era da ficção científica chinesa veio na década de 1950. Alguns dos grandes nomes desta época foram Zheng Wenguang (郑文光) e Tong Enzheng (童恩正). Vistas como as primeiras histórias com elementos de ficção científica na República Popular da China, A Dream Tour of the Solar System (《梦游太阳系》, 1950) de Zhang Ran’s (张然) apresenta corpos celestes em nosso sistema solar no formato de uma narrativa que se passa em sonhos, muito como um tipo de conto de fadas em ficção científica do que ficção científica dura. From the Earth to the Mars (《从地球到火星》, 1954) de Zheng Wenguang foi considerada a primeira história curta de ficção científica da República Popular da China; fala sobre três adolescentes chineses roubando uma espaçonave e voando para Marte em busca de aventuras. Escritores contemporâneos de ficção científica do período foram largamente influenciados pela ficção científica da antiga União Soviética. A coleção completa de Jules Verne foi traduzida do russo para o chinês entre 1957 e 1962 porque era altamente elogiado na antiga União Soviética. Trabalhos de antigos escritos soviéticos como Alexander Belyayev foram também traduzidos. Grande parte da ficção científica deste período foi escrita para crianças ou como textos científicos populares, otimistas e muito limitados em espectro.

E então veio a Revolução Cultural, deixando pouco espaço para a literatura, e ainda menos para a ficção científica. Qualquer coisa que trouxesse alguma relação com o "capitalismo ocidental" era considerado danoso. Muitos escritores foram forçados a parar de escrever. Depois da reforma e da abertura política, a era de ouro da ficção científica chinesa finalmente aconteceu no final da década de 1970. Um grande corpo de trabalhos emergiram junto com um número crescente de fandoms e revistas especializadas em ficção científica. Durante este tempo, Ye Yonglie (叶永烈) foi um dos autores de maior prestígio. Seu romance Little Know-all Travels around the Future World (《小灵通漫游未来》, 1978), vendeu mais de 1.5 milhão de cópias e sua adaptação para os quadrinhos vendeu mais 1.5 milhão de cópias. Zheng Wenguang e Tong Enzheng voltaram a escrever ficção científica novamente. Flying to the Sagittarius (《飞向人马座》, 1979)  de Wenguang se tornou um ícone da ficção científica chinesa; conta a história de três adolescente fazendo o seu melhor para voltar para a Terra depois de vagar fora do sistema solar por anos. E o trabalho mais famoso de Enzheng Death-Ray On The Coral Island (《珊瑚岛上的死光》, 1978), fala sobre cientistas lutando contra corporações malignas para proteger a paz da humanidade.Coral Island foi adaptado como o primeiro filme de ficção científica chinesa em 1980 com o mesmo título.

Em 1983, as campanhas de poluição anti-espiritual varreram a ficção científica do mapa novamente. Desde 1979, tinham havido discussões sobre se a ficção científica deveria ser literatura ou ciência popular. Críticas acerca da pseudociência foram jogadas na ficção científica. Em 1983, Deng Xiaoping, o supremo da China na época, falou contra o capitalismo e a exploração nos trabalhos de literatura. A ficção científica foi encarada como poluição espiritual por causa dos elementos de capitalismo e comércio presentes nela. Histórias que falavam sobre mais do que ciência foi consideradas danosas à política. Muito poucos ou ninguém ousava escrever ou publicar ficção científica no período. Apenas no final da década de 1980 e no início dos 1990 que a ficção científica chinesa se recuperou do ataque e floresceu novamente.

2 - Publicação de Prozines

A definição de prozines na China é um pouco diferente de como é visto na América. Na China, você precisa pegar um número especial chamado "CN", similar a um "ISBN", certificado pelo governo para ser permitido publicar prozines.

No final da década de 1970 e início de 1980, muitas revistas de ficção científica apareceram na China. Em 1979, Science and Literary(《科学文艺》) começou a ser publicada na Província de Sichuan.Age of Science(《科学时代》), Science Literature Translation Series(《科学文艺译丛》), SF Ocean(《科幻海洋》), Wisdom Tree(《智慧树》)e SF World–Selected SF Works(《科幻世界——科学幻想作品选刊》)apareceram nos próximos três anos. Entretanto, todas estas revistas com exceção da Science and Literarypararam sua publicação durante as campanhas de poluição anti-espiritual.

Em 1980, a Science and Literary vendeu aproximadamente 200.000 cópias de cada número, enquanto depois das campanhas de poluição anti-espiritual, o número caiu para menos de 700 cópias. Depois de 1984, Yang Xiao (杨潇), editor da revista, foi selecionado como presidente da Science and Literary. Junto com a sua equipe, ela precisou se esforçar muito para manter a publicação de ficção científica chinesa. Em 1991, o nome da revista mudou para Science Fiction World (《科幻世界》) e, naquele ano em Chengdu, aconteceu a conferência anual da World SF. Podemos olhar para trás, para 1991, como o ano em que a ficção científica chinesa começou a florescer novamente. Em 1999, um artigo questionava no Exame de Admissão para o Ensino Superior Nacional Chinês, "O que aconteceria se a memória fosse transplantada", tinha o mesmo título de um artigo publicado na Science Fiction World daquele ano. Em parte isto ajudou as vendas da Science Fiction World a alcançarem o seu topo: 361.000 cópias de cada edição publicada em 2000.

À medida em que o século XXI se aproximava, outra importante revista de ficção científica chinesa nascia na Província de Shanxi.Science Fiction King (《科幻大王》) começou a ser publicada em 1994, mudando seu nome para New Science Fiction (《新科幻》) em 2011. O máximo que ela vendia girava em torno de 12.000 cópias por número em 2008. Infelizmente, no final de 2014, a New Science Fiction parou de ser publicada devido à sua relativa baixa venda.Science Fiction Cube (《科幻Cube》) é a mais jovem revista do mercado de prozines de ficção científica existentes na China. Seus primeiros três números saíram em 2016, e cada edição vendeu aproximadamente 50.000 cópias. Algumas outras revistas de ficção científica apareceram e desapareceram neste período, incluindo aWorld Science Fiction (《世界科幻博览》) e a Science Fiction Story(《科幻-文学秀》). Outras publicações como Mengya (《萌芽》), Zui Found (《文艺风赏》) e Super Nice (《超好看》) publicam ficção científica assim como outros gêneros. 3 - O Nascimento dos Primeiros Fandoms

O primeiro fandom de ficção científica chinesa apareceu em Shanghai em 1980. Philip Smith da Universidade de Pittsburgh visitou a Universidade de Estudos Internacionais de Shanghai (SISU) e ministrou um curso de literatura de ficção científica. Um estudioso que trabalhou na SISU na época, Wu Dingbo (吴定柏) entende o clube de ficção científica formado ali no o primeiro fandom de ficção científica chinesa. Em 1981, Associações de Pesquisa de Ficção Científica foram fundadas em várias cidades como Shanghai, Guangdong, Heilongjiang, Ha'erbin, Liaoning e Chengdu, e então todas foram varridas pelas campanhas de poluição anti-espiritual. E apenas em 1988 que o Comitê de Literatura de Ficção Científica foi fundado na Associação de Escritores de Sichuan, cuja principal cadeira pertencia a Tong Enzheng. O comitê almejava unir os escritores de ficção científica e fazer com que o gênero prosperasse.

Em 1990, Yao Haijun (姚海军) estabeleceu a Associação de Leitores de Ficção Científica Chinesa com a ajuda de seu fanzine Nebula.

Na década de 1990, fandoms regionais e clubes universitários apareceram em todos as regiões da China. A revista Science Fiction World também fundou o seu próprio fã clube.

Em 1998, os primeiros fandoms online de ficção científica apareceram na China. A Associação Online de Ficção Científica Chinesa (中华网上科幻协会) e o Grupo de Escritores de Ficção Científica de Feiteng Science Fiction Writing Group (飞腾科幻创作小组) foram estabelecidos. O último foi renomeado depois como Feiteng SF Corps (飞腾科幻军团) depois que se expandiu. Alguns outros fandoms online importantes foram SF Utopia (科幻桃花源), River of No Return (大江东去科幻社区) e Space Lunatic Asylum (太空疯人院). Infelizmente nenhum deles existe mais. Alguns dos membros ativos continuaram suas discussões no grupo da Science Fiction World (sem relação com a revista) no doubam.com (um website SNS popular na China baseado em hobbies).

Um bom número de autores chineses de ficção científica são membros ativos destes fandoms.

4 - Fanzines

O primeiro fanzine chinês foi o Nebula (《星云》), editado por Yao Haijun de 1989 até 2007. Durantes estes anos, 40 edições foram publicadas. Yao Haijun foi um trabalhados em uma fábrica florestal em Heilongjiang quando ele começou o fanzine. Agora ele é o chefe editorial da revista Science Fiction World. A Nebula teve um papel importante no desenvolvimento do fandom moderno na China, e até mesmo da história da ficção científica como um todo. Foi a ponte entre editores, escritores, pesquisadores e leitores. O melhor momento do fanzine teve uma venda de 1200 cópias por edição.

Algumas das outras fanzines que prevaleceram na década de 1990 foram a Galaxy (《银河》) editada por Fan Lin (范霖) em Zhengzhou, Up to the Ladder towards Sky (《上天梯》) editada por Xu Jiulong (徐久隆) em Chengdu, Planet 10 (《第十号行星》) e TNT editada por Wang Lunan (王鲁南) em Shandong e a Universe Wind (《宇宙风》) editada por Zeng Deqiang e Zhou Yukun (曾德强、周宇坤). Existiram também letterzines, como a Nebula, enviada para assinantes de todo o país. Entretanto, muitas delas sobreviveram apenas por alguns anos devido à falta de dinheiro e de tempo.

Fandoms regionais de ficção científica também publicaram seus fanzines. Cubic Light Year(《立方光年》)em Beijing e Supernova(《超新星》) em Tianjin foram dois dos representantes mais importantes. Recebendo o apoio de muitos escritores de ficção científica, Cubic Light Year tinha uma excelente qualidade. Entretanto, ambas as fanzines publicaram apenas poucas edições porque era difícil para os editores e escritores se manter publicando os projetos de uma forma voluntária.

Com a chegada da era da internet, vários netzines apareceram. A Associação de Ficção Científica Online publicou Sky and Fire (《苍穹火焰》) em 1998 e 1999, com um total de 7 edições, e River of No Return publicou Edge Review (《边缘》) em 2005 e 2006, com um total de 4 edições. A New Realms of Fantasy and Science Fiction(《新幻界》)publicou 32 edições de 2009 e 2013, o que parece quase um milagre, já que todas as edições são de altíssima qualidade e poderiam ser baixadas online de graça. Chegaram até a publicar duas antologias impressas. Algumas das histórias publicadas na New Realms of Fantasy and Science Fiction tem sido, desde então, traduzidas para o inglês, como a Invisible Planets (《看不见的星球》, 2010) de Hao Jingfang.

Algumas das outras netzines que estão ativas hoje na China são a Chinese New Science Fiction (《中国新科幻》) e a Science Fiction Collects (《科幻文汇》). Esperamos que elas possam viver por muito tempo.


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