• Paulo Vinicius

Super Cub: Fazendo amizades em cima de uma moto

Koguma é uma menina que tem uma vida bem difícil e marcada por uma profunda solidão. Morando sozinha e sem ter os pais, ela vive no canto da sala, tímida e distraída e vê seus dias passando tediosos. Até que um dia ela adquire uma Cub e seu mundo se abre para explorar novos lugares.



Falamos há algum tempo atrás sobre animes de ação e luta que vem ganhando cada vez mais espaço com uma qualidade aprimorada nas técnicas de produção. Mas, outro gênero de animes tem se tornado bastante popular de um ano para cá: os slice of life, ou fatias do cotidiano. São narrativas simples que se focam na exploração do cotidiano a partir da perspectiva de uma pessoa ou de um grupo de pessoas. Os personagens sempre possuem algo em comum seja o fato de trabalharem em um estúdio de mangás, terem um clube de cerâmica na escola, trabalharem em uma cafeteria, ou terem hobbys divertidos como acampar ou terem uma moto. As histórias giram em torno de atividades comuns desde começar o trabalho, um dia chuvoso, um prazo apertado para entregar um trabalho, muitos clientes ao mesmo tempo. Ou seja, não são animes dinâmicos, mantendo uma estrutura bem leve e estável. Talvez um dos melhores exemplos desse gênero seja Yuru Camp, onde quatro garotas compartilham aventuras de camping. E os episódios se passam explorando lugares bonitos, comendo comidas gostosas, tirando fotos. Em outra postagem vou falar um pouco mais deste gênero e hoje vamos nos concentrar em motos!


Super Cub é uma adaptação em anime de uma light novel escrita por Tone Koken e ilustrada por Hiro. Ela começou a ser publicada em 2017 e ainda está em circulação até hoje contando com 8 volumes até o momento. A light novel gerou um mangá com o mesmo roteirista, mas desenhada por Kanitan. Tanto a light novel como o mangá são publicados pela Kadokawa Shoten e o mangá conta com 5 volumes até o momento e também continua em circulação. A animação pertence ao studio Kai (o mesmo de Uma Musume). A direção é de Toshiro Fujii (de Sangatsu no Lion e de alguns episódios de Naruto Shipuuden) e o roteiro foi adaptado por Toshizo Nemoto (de Log Horizon). A primeira temporada do anime contou com 12 episódios e não temos informação até o momento de uma continuação embora o anime tenha uma boa popularidade no Japão. A animação em si não é nada espetacular, mas isso até que não importa tanto. Uma particularidade dos animes de slice of life é que a qualidade da animação em si nem é tão importante se tiver um bom roteiro e uma boa trilha sonora. Até gosto dos efeitos em CGI empregados em algumas cenas; eles não são grosseiros e nem afetam o espectador que está assistindo a animação. Os cenários são bonitos e mesclam floresta com a parte mais baixa do Monte Fuji.


Koguma é uma menina bastante solitária que vive sozinha em um conjunto de prédios perto da estação de Hinohara. Seu pai morreu quando ela era pequena e sua mãe a abandonou antes de ela entrar no ensino médio. Ela vive de uma espécie de pensão que é fornecida a ela enquanto estiver estudando o que garante a Koguma uma vida bem simples e pacata, sem luxos. A gente vê o quanto ela anda com o dinheiro bem contado para seus gastos. Na escola, Koguma fica isolada no seu canto, não conseguindo fazer amizade com ninguém. Um dia, quando ela voltava da escola em sua bicicleta, ela passa em uma oficina mecânica rapidamente e lá um mecânico oferece a ela uma linda Super Cub que estava abandonada em um canto. O mecânico vende a ela por um preço bem módico e Koguma fica encantada com as possibilidades oferecidas pela Cub. Rapidamente a personagem consegue tirar uma carteira de habilitação e passa a ir para a escola em sua Cub. A partir dessa "parceria" entre a Cub e Koguma, novos horizontes se abrem para ela, principalmente quando ela conhece Reiko, uma garota apaixonada por Cubs.



A narrativa é tão simples que o espectador leva poucos minutos para entender do que se trata. Talvez essa seja a maior qualidade de animes desse gênero. A narrativa é bastante pacata e reflexiva com Koguma precisando aprender a lidar com sua Cub. Como ela não tem ninguém para ajudá-la no começo, Koguma passa verdadeiros desafios que parecem banais para nós, mas que para ela, sozinha e naquele momento, eram situações complexas. Algumas envolvem como trocar óleo, como esquentar o motor, como acomodar suas coisas, onde está o manual de instruções (ficava no fundo falso do banco parafusado). Tem um arco inicial de histórias onde Koguma precisa encontrar algum tipo de proteção para os olhos que seja barata e eficiente. As soluções que ela encontra são bastante engenhosas, demonstrando inteligência da protagonista. Por ter poucos recursos, ela precisa usar o que tem à mão, envolvendo improvisos e gambiarras.


Esse momento inicial muda quando ela conhece Reiko, outra menina introvertida que, quando se fala de Cub e motos em geral, muda completamente se tornando uma garota animada e divertida. É legal porque normalmente personagens desse estilo de anime são mais para frente, curiosos e cheios de energia. E Koguma é qualquer coisa menos isso. Sempre bastante quieta e introspectiva, sua personalidade contrasta com a de Reiko. O que no começo é uma relação estranha e Koguma mais tira dúvidas com Reiko sobre sua moto, aos poucos vai se tornando uma parceria saudável. As duas trocam figurinhas e ajudam uma à outra. Quando Koguma percebe, ela sente falta de Reiko quando não conseguem se falar. O amor pela Cub criou a ponte necessária para uma doce amizade. Outro elemento curioso da amizade das duas é quando entra o arco do inverno e elas precisam se proteger do frio para poderem continuar desfrutando de suas Cubs: Koguma funciona como a voz lógica da relação enquanto Reiko quer equipamentos bizarros e que chamem a atenção. Os improvisos de Koguma acabam ajudando ambas a conseguirem lidar com os problemas e Reiko passa a valorizar ainda mais as opiniões de sua amiga.


Se Koguma tem uma vida complicada, Reiko desfruta de uma vida mais livre. Seu pai faz parte do Parlamento japonês enquanto a mãe é dona de uma empresa. Mas, Reiko escolheu viver em uma casa bem ao estilo europeu de madeira na região de Mukawa, bem próximo a um dos caminhos que levam ao monte Fuji. Ela é bonita e talentosa, mas não tem muitos amigos também porque eles não compartilham o interesse que ela tem em Cubs. Além de seu apaixonada por motos, ela curte também modificá-las. Sua alegria está em encontrar novas maneiras de tunar a sua Hunter Cub, uma moto mais esportiva. Tem um arco focado na Reiko que mostra um dos sonhos dela: subir a difícil trilha do monte Fuji montada em uma Cub. E ela vai fazer todos os esforços possíveis para isso. Por causa de vários acidentes, a trilha é fechada a motociclistas, mas Reiko é esperta e se candidata a uma vaga como parte da equipe de manutenção da trilha. Com isso ela consegue autorização para usar livremente a rota. O que veremos ao longo do episódio é um incrível desafio entre uma garota, sua moto e a natureza.



A última integrante do grupo é a Shii. Ela conhece Reiko e Koguma durante o festival cultural da escola. Acontecem uma série de problemas com a montagem do café italiano que elas queriam colocar na sala e elas vão precisar das Cubs das duas para transportar o equipamento necessário. Depois dessa força que as meninas dão a Shii, forma-se uma amizade recompensada pelo fato de a menina ser filha do dono de um pequeno café ao estilo europeu. A loja se torna quase uma parada obrigatória na rota de Reiko e Koguma onde elas planejam todo o tipo de coisas. Shii adora a culinária italiana e tenta convencer seu pai a sair da pegada de café e confeitaria alemã e vai tomando lentamente o espaço para ela. Uma bicicleta Moulton é a companheira de todos os dias da menina e ela passa a apreciar ainda mais a sua bicicleta após o contato com suas novas amigas.


A série fala muito sobre liberdade. A liberdade proporcionada pelo contato com a natureza ou que a redução das distâncias oferece a cada um de nós. A vida de Koguma passa a ter mais cor porque ela encontra algo onde depositar seu coração. A possibilidade de encontrar novos caminhos e ir a lugares mais e mais distantes oferece uma nova perspectiva à sua vida. Ter encontrado Reiko e Shii é uma consequência do fato de Koguma ter se aberto a essas novas experiências. Os primeiros episódios de Super Cub são bastante melancólicos ao nos apresentar a vida em preto e branco de uma personagem que não tinha se encontrado. As decisões posteriores de Koguma refletem sua capacidade de entender o mundo a partir de muito mais do que apenas o seu quarto e a escola. Ficamos com a falsa impressão de que é a moto que muda Koguma quando na verdade ter a moto a obriga a mudar. Se Koguma não tivesse já a disposição de querer mudar, moto nenhuma teria feito isso. É um sentimento que já estava em seu coração e demonstra o crescimento e amadurecimento da personagem. A moto foi apenas o catalisador desse processo.


Super Cub é uma série bastante divertida. Embora os episódios dela fossem lançados às quartas, sempre deixava para assistir aos domingos na parte da tarde enquanto descansava após o almoço. A trilha sonora é relaxante e as situações que elas vivem nos episódios sempre me divertiam. Essa é uma das marcas registradas desse tipo de anime. Acho bastante interessante estarmos saindo de uma pandemia e histórias que sejam mais relaxantes e positivas tenham ganhado mais e mais espaço no coração dos fãs.



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