• Paulo Vinicius

Steamboy

O jovem Ray Steam recebe um pacote curioso de seu avô. Mantendo a tradição de gênios inventores da família Steam, Ray se vê envolvido em uma trama maléfica passada em uma Inglaterra de vapor e engrenagens. Ele vai precisar de toda a sua coragem e inteligência para superar os desafios.



Quando mencionamos o nome Katsuhiro Otomo, a grife Akira aparece logo em nossas mentes. É o que levou não apenas o nome dele, mas do próprio quadrinho japonês ao sucesso. Mas, Otomo não produziu apenas o mangá e o filme de Akira. Ele tem outros sucessos; posso tirar Domu, um mangá sci-fi sensacional que ainda precisa ser lançado no Ocidente. E na linha de roteiros de filmes, temos o menos conhecido Steamboy. Mesmo sendo uma produção mais modesta é um filme que tem a cara de Otomo por toda a parte: o ambiente escuro e sombrio (até demais da conta, mas já chegamos lá), a habilidade de Otomo em criar quadros estáticos com um alto apuro técnico e a preocupação com a ambientação. É triste perceber o quanto o filme ficou meio no limbo e sequer é mencionado em muitas ocasiões, embora ele tenha tido um lançamento com pompa nos cinemas americanos com versões dubladas e legendadas. Oras, Anna Paquin e Alfred Molina dublaram personagens do filme (claro que eu prefiro a dublagem japonesa, mas vocês entenderam). Mas, vamos falar um pouco dele para, quem sabe, eu não estimular os leitores a darem uma chance para o filme.


Steamboy é um filme lançado em 2004, produzido pela Sunrise em parceria com a Bandai Visual. Ou seja, era um filme de orçamento elevado para os padrões de animação nas mãos de um estúdio bom. Um estúdio com centenas de animações nas costas. Dois bons exemplos mais ocidentais são Batman - A Série Animada e Street Fighter. Embora o Sunrise seja mais conhecido pelas suas animações de Gundam. A direção ficou integralmente nas mãos de Katsuhiro Otomo que já tinha lastro o suficiente para decidir como tocar o seu projeto. O filme chegou nos cinemas americanos um ano depois, tendo agradado alguns críticos. Mas, o projeto nunca chegou a se tornar tão popular quanto Akira. Sequer chegou a se pagar, tendo dado prejuízo aos estúdios na ordem de mais de 8 milhões de dólares. Aqueles que foram mais críticos ao filme disseram que faltava alma ao filme, mas que o projeto era visualmente perfeito. Concordo em partes com a afirmação apesar de que achei as críticas bem duras.


Todo o projeto é uma releitura feita por Otomo de Astroboy, de Osamu Tezuka. Acho que isso fica bem patente não apenas no protagonista, como também na temática da ética científica. A história narra as aventuras de Ray Steam, um jovem inventor que vive em Manchester ao lado de sua mãe e seus irmãos. O mundo em que ele vive é repleto de máquinas a vapor e engrenagens por toda a parte. Uma Inglaterra vitoriana um pouco mais avançada do que a que conhecemos. Tudo espirra vapor. O pai e o avô de Ray trabalham para uma empresa chamada Companhia O'Hara e eles não tem notícias deles há alguns anos. De repente chega um pacote de seu avô Lloyd. Ray abre e tem uma espécie de bola de aço dentro e vários papéis com um estranho projeto de engenharia. Assim que Ray abre o seu pacote, entram dois homens dizendo terem sido mandados pela Scotland Yard para encontrar LLoyd. Mas, o olhar de ambos vai direto na caixa onde está a bola e eles partem para cima da família. É quando Lloyd entra na casa e manda Ray sair correndo em busca de Stephenson, um homem que poderia ajudá-lo. É aí que começará um jogo de vida ou morte que vai se passar nos pavilhões da Exposição Universal de Londres.



Se eu posso dizer alguma coisa é que a animação é de encher os olhos. Posso dizer com toda certeza do mundo que Steamboy faz parte de toda uma última geração de animações japonesas a terem usado em sua maior parte animação estática. Existe sim computação gráfica, mas ela é tão sutil que quase não dá para ser percebida. E estamos falando dos primórdios do CGI, quando ela era tosca e estranha aos olhos. Tem muito anime hoje que não consegue fazer um décimo do que Steamboy fez há dezessete anos atrás. Claro que estamos falando de um mestre na arte da animação estática. Otomo é um quadrinista que domina o método de ação para ação em seus quadros. Quem está assistindo consegue imaginar o diretor em uma prancheta fazendo centenas de desenhos representando os movimentos dos personagens. Logo no começo do filme tem uma perseguição em que Ray sai correndo de casa e tem uma locomotiva atrás dele. O que é legal na animação estática é que, quando ela é bem feita, produz movimentos mais naturais do que no CGI. Isso porque não lidamos com vetores que lidam com padrões de movimento, mas sim com algo mais solto e fluido. Dá para perceber a diferença só no ato de corrida do personagem.


Esse é um filme que se passa em um cenário steampunk. Ele bebe e respira essa ambientação. Acho que poucos filmes conseguem reproduzir tão bem o cenário quanto Steamboy. É Revolução Industrial na veia. O protagonista é um inventor que se encontra em uma encruzilhada sobre que rumo tomar em sua vida. As cenas com os zeppelins são magníficas. O que eu acho curioso é que a Segunda Revolução Industrial na Inglaterra produziu um cenário de decadência e miséria, normalmente representado em romances góticos da época como O Médico e o Monstro ou Drácula. Só que Otomo consegue trazer os vapores como uma forma de avanço da sociedade visando uma igualdade de classes. O próprio Lloyd defende essa teoria de dividir igualmente as coisas. Logicamente que temos a existência dos interesses capitalistas na forma da jovem Scarlett e de Archibald Simon. Veremos o filme explorando esse lado enquanto acontece a famosa Exposição Universal, um evento comum no final do século XIX e início do XX em que países do mundo inteiro apresentavam seus mais novos desenvolvimentos tecnológicos. Era um grande festival que ditava os rumos da ciência nos próximos anos.


Ray Steam é o típico herói. Ele se assemelha muito ao Astroboy de Tezuka: inocente, prestativo, ingênuo. Ele é um inventor que sente falta de seu pai e de seu avô. Construir coisas é o que ele mais gosta de fazer em sua vida. Provavelmente essa linearidade e simplicidade do Ray não tenha agradado aos fãs que hoje preferem personagens que se situam mais em uma área de cinza. Ray é puro, representa o espírito da bravura e da criatividade. Quando ele se vê precisando escolher entre o poder e a paz, ele não titubeia e escolhe a paz. Mesmo impressionado com tudo o que estava sendo construído ao seu redor, Ray sabe quando algo é errado. Não precisa passar por uma provação ou perda para entender o que ele precisa fazer. Achei que Otomo poderia ter explorado um pouco mais a relação entre Ray e Scarlett porque pareceu que a garota aceitou muito fácil as coisas depois. Scarlett sim ficou meio sem personalidade no filme. E teria sido uma boa dinâmica até para colocar a garota em uma decisão entre sua companhia e as vidas humanas.


No filme, temos os dois lados de uma questão sendo discutidos. A ciência deve ser usada para maravilhar as pessoas ou para protegê-las do mal a todo custo? Lloyd entende que a ciência é uma maneira de levar felicidade para as pessoas. Através do desenvolvimento científico, o ser humano pode alcançar o seu máximo potencial. E isto só será alcançado quando todos tiverem acesso ao máximo de ideias e invenções possíveis. Lloyd é a favor da difusão de ideias para que todos possam contribuir no final. Já o pai de Ray, Eddie, está ao lado da Companhia O'Hara. A companhia se foca no desenvolvimento de armas bélicas para o emprego de diversas nações. Eles não se importam para quem estão vendendo os seus produtos, desde que obtenham lucro. É a partir dos recursos financeiros obtidos com a venda de armas que a companhia poderá construir um mundo melhor. Através de uma mão de ferro que controle a sociedade e impeça o ataque de nações estrangeiras. Ou seja são dois conceitos opostos: difusão ou centralização; compartilhamento ou controle. A ética científica está sendo debatida aqui, algo que Otomo já havia feito em Akira quando questionou os limites da manipulação genética e corporal feita por militares. Em última análise, Tezuka havia feito o mesmo questionamento em obras como Astroboy e Metropolis. A ciência, na visão dos dois autores, precisa ter um objetivo nobre, de engrandecimento e desenvolvimento por igual.



Steamboy não é um filme perfeito. Longe disso. Mas, seus 126 minutos de projeção se passam em um piscar de olhos. As longas cenas de ação são dinâmicas e ágeis e o espectador não sente o tempo passar. Lembro que quando assisti pela primeira vez, fiquei grudado no cinema. Revendo muitos anos depois, o filme não perdeu sua vitalidade e nem ficou velho ou datado. As discussões que existem nele são bem atuais, quando discutimos qual o papel da ciência para a nossa sociedade. Posso reclamar de algumas coisas como, por exemplo, o fato de algumas cenas do filme serem escuras demais. Otomo usa uma palheta de cores mais foscas e em certas cenas isso prejudica a identificação daquilo que está acontecendo. Mas, são poucos momentos em que isso acontece. A trilha sonora também não compromete. A narrativa talvez seja direta e simples demais para o gosto do público hoje, mas assim... o filme me entreteve. E estamos falando da lenda que é Katsuhiro Otomo. Vale pelo menos a chance de assistir o que mais ele produziu além de Akira. Vocês não vão se arrepender.




Posts recentes

Ver tudo

Luca