• Diego Araujo

Setembro King: Dicas de Mestre, em Sobre a Escrita

Stephen King compartilhou da sua sabedoria na escrita em livro próprio, e este artigo testará alguns de seus argumentos com outros textos técnicos e avaliar qual a melhor ideia dentro de cada tópico proposto partindo sempre do argumento em Sobre a Escrita.


Sobre a Escrita é um livro prático escrito por Stephen King. Nada melhor do que conferir dicas diretamente de um autor bem sucedido quanto à venda de livros, reconhecido a ponto de ter vários de seus trabalhos adaptados para o cinema, e ainda por cima continuando a produzir novos trabalhos literários! Com conteúdo baseado na própria experiência, a obra demonstra as técnicas do autor para desenvolver bons livros. Por outro lado seria ingênuo tomar cada frase de Sobre a Escrita como lei para escrever ótimas histórias. O melhor a fazer é estudar várias referências, e esta é a proposta deste artigo: selecionar tópicos abordados no livro do King e confrontar suas ideias com as de outros trabalhos técnicos.


Parágrafo


Stephen King defende que a formação do parágrafo deve ser instantânea, focada no ritmo. Sem segredos ou planejamento, o escritor aprenderá a estruturar frases através das experiências com as leituras de outros livros. Se o livro possui páginas preenchidas com parágrafos longos, é de prosa complexa — carregada de ideias e descrições —; livros com parágrafos menores ou com diálogos curtos têm a aparência arejada e fácil de ler.


“Ao escrever um texto, é melhor não pensar demais sobre o início e o fim dos parágrafos; o truque é deixar a natureza seguir seu curso. Se você não gostar é só corrigir. É isso que significa reescrever.” [Stephen King]

Esta e outras dicas presentes quanto a paragrafação são, sendo bem honesto, superficiais. King defende o aprendizado da estruturação a partir das leituras, então sigo esta afirmação e trago argumentos de quem defende a leitura atenta, como Francine Prose em Para Ler Como um Escritor.


Enquanto King elogia o uso de parágrafos de uma frase para, assim, agilizar a narrativa e deixar a imagem descrita clara, Francine recomenda ter cuidado com este recurso, pois sugere ao escritor forçar esta frase isolada para enfatizar aquela informação pela incapacidade de colocá-la em destaque junto a outras frases. O parágrafo curto traz ênfase ao conteúdo exposto — ambos os autores concordam quanto a isso —, e abusar dele cansará o leitor com tantos destaques na mesma prosa. Caso queira destacar determinada frase em um parágrafo longo, Prose dá esta dica:


“Parágrafos são uma forma de ênfase. O que aparece no início e no fim do parágrafo tem [...] mais peso do que aparece no meio” [Francine Prose]

Ainda sobre onde inicia e termina cada parágrafo, por vezes há outros recursos além do ritmo que ditam a composição do texto. Seja simular a transição de tempo, mudar o foco narrativo ou ponto de vista; ou ainda usar uma transição de parágrafo ao alternar entre um propósito e outro. Prose pega o começo do romance Angels de Denis Johnson, por exemplo, em que um parágrafo foca numa perspectiva enquanto o próximo descreve a passagem do tempo.


A proposta de King favorece a intenção do autor de buscar a própria forma de elaborar as passagens de texto, e embora vimos a visão mais detalhista de Francine, ela pode concordar quanto a cada escritor desenvolver a forma de estruturar a prosa.


“A paragrafação de cada escritor é tão particular, tão individual quanto a impressão digital na cena do crime, quanto aquele traço revelador de DNA.” [Francine Prose]

Descrição


Stephen King traz bons argumentos e exemplos da descrição suficiente ao situar o leitor na cena descrita. Contra a mínima descrição possível e do excesso de detalhes a ponto de perder o foco da história, o autor deve equilibrar as descrições numa quantidade suficiente.


“A descrição pobre deixa o leitor confuso e míope. A descrição exagerada o enterra em detalhes e imagens. O truque é encontrar um bom meio-termo. Também é importante saber o que descrever e o que deixar de lado enquanto você se concentra no trabalho principal, que é contar uma história.” [Stephen King]

Não tenho críticas quanto a esta abordagem do King, e por isso trago o material que enriquece seu ponto. A descrição é o meio sensorial do leitor, propiciando a visualização do ambiente proposto na cena escrita. Sendo assim, deveríamos descrever apenas os detalhes relevantes?


James Wood — autor de Como Funciona a Ficção — exemplifica com o trecho escrito por Gustave Flaubert: “Um velho piano sustentava, logo abaixo de um barômetro, uma pilha piramidal de caixas e cartões”. O piano neste contexto ostenta a condição social de burguesia, a pilha de caixas e cartões sugere desordem sobre o piano. Qual é a função do barômetro ali? Nada além de representar a realidade, e mesmo assim tem utilidade. Acrescentar objetos irrelevantes na narrativa deixa o ambiente verossímil, com a aparência de realidade. Tais objetos também contribuem com a passagem do tempo na história durante a leitura.


“[Certos detalhes] não são ‘irrelevantes’; são significativamente insignificantes.” [James Wood]

Francine também colabora com o ponto de King ao pontuar os detalhes da descrição. Detalhes expostos por escritores inteligentes sintetizam uma informação ao invés de expô-la numa frase completa, como a citação do piano no exemplo já usado de Flaubert. O detalhe também é útil para convencer o leitor da realidade imposta em Metamorfose, de Franz Kafka.


A história começa com o protagonista transformado em barata após o pesadelo, e como o narrador convence o leitor de o Samsa já estar acordado? Com o detalhe: no quarto dele há uma imagem de mulher sensual recortada de uma revista, condizente com o jovem solteiro, mas teve o cuidado de escolher uma mulher bem vestida, com estola de pele sobre todo o antebraço. Já que a casa de Samsa possui faxineira, ela poderia ficar constrangida se visse imagem mais ousada, algo livre de preocupação caso estivesse no sonho. Usei cerca de sessenta palavras ao explicar a representação, esta apenas mostrada por Kafka através do detalhe.


“É só depois que Samsa examina seu quarto [...] que perdemos nossas últimas desconfianças de que isso deve ser um sonho, e sabemos que só pode ser o mundo real de uma obra-prima de ficção.” [Francine Prose]

Enredo


Por último, há o tema mais controverso em relação ao Stephen King, um capaz de comprometer o autor com críticas negativas ao desenvolver as histórias rumo ao desfecho fajuto: (falta de) enredo. King é excelente em desenvolver personagens, elabora as situações mais criativas no decorrer do livro e mantém o ritmo agradável de leitura na composição de parágrafos — apesar das observações superficiais discutidas há pouco. Ele carrega todas essas qualidades na história e então conclui conforme a ideia surge durante a escrita, por vezes falhando em englobar determinada situação no desfecho. O enredo o ajudaria a elaborar o final conforme o resto das qualidades da história, porém ele...


“O enredo é tosco, mecânico, anti-criativo. O enredo é, penso eu, o último recurso do bom escritor e a primeira escolha do idiota. A história advinda do enredo está propensa a ser artificial e dura.” [Stephen King]

A coincidência chega a ser cômica quando Assis Brasil responde ao argumento parecido de King, sobre o enredo deixar a narrativa artificial. Assis afirma o contrário, artificial é conduzir a história sem rumo definido, o que acarreta em emendas pendentes ao alinhar as pontas da narrativa.


Com a falta de enredo, Stephen King garante a qualidade nos livros a partir dos personagens. Assis concorda sobre a história decorrer do personagem, só defende não ser o bastante. Sem planejar o enredo, o ficcionista apenas cria o personagem — de boa qualidade, inclusive —, lança-o ao mundo e escreve de acordo com a causa e efeito de suas ações. Assis reconhece tais abordagens darem certo em determinados casos. Jorge Amado, Miguel de Cervantes e Haruki Murakami escreveram assim, todos escritores consagrados, e por isso pouco conselhável a escritores iniciantes — parte do público alvo de Sobre a Escrita. Mesmo ao escritor experiente, Assis retruca:


“[...] não vi até hoje um comandante de aeronave dizer que prefere o voo cego — e eles devem ter seus motivos, por exemplo, as estatísticas dos desastres aéreos.” [Luiz Antônio Assis Brasil]

Enredo evita aleatoriedades


K.M. Weiland é criadora e editora do site Helping Writers Become Authors, com conteúdo novo sobre escrita toda semana. Um dos artigos do site trata de como escrever histórias sem enredo, que na verdade argumenta o porquê de evitar escrevê-las desta forma.


Weiland pega três exemplos de livros escritos sem planejamento de enredo. O primeiro teve acontecimentos cruciais no começo e fim da história, já o meio perdeu o foco por trazer situações aleatórias. No segundo começa com um conflito e sucede com outros sub-conflitos, nenhum correlacionado ou capaz de agregar à história. E o terceiro é sobre personagens refletindo e conversando sobre o objetivo da jornada sem avançá-la, exceto no confronto ocorrido ao final.


“História não é uma linha de eventos aleatórios, por mais interessantes e excitantes eles possam ser.” [K.M. Weiland - tradução própria]

Assis também critica os eventos criados na espontaneidade da escrita, pois os “empilha” conforme vem na cabeça. Assim cria eventos abruptos, ocorridos sem explicação prévia, durante ou depois de acontecer; o que resulta em uma leitura desagradável e coloca a capacidade do autor em cheque. O argumento continua dizendo ser mais comum notar essas falhas quando o escritor passa dias sem escrever, e assim esquece dos detalhes de uma história pouco planejada. Não é o caso do King, cuja rotina imposta pelo mesmo o faz escrever dez páginas por dia, inclusive nos feriados. Isso o torna imune à crítica de Assis? Responda você mesmo: todo evento — mesmo sendo extraordinário — ocorrido nas histórias de Stephen King tem a devida explicação?


Se o trabalho de uma história voltado ao enredo fica artificial e dura, a falta dele pode tornar o livro inconsistente ou perdido em narrativas frívolas. É possível classificar escritores entre jardineiros — plantam a ideia da história e trabalham conforme ela cresce — e arquitetos — planejam a estrutura da história. Cada escritor defenderá o lado mais conveniente, e terá bons argumentos, desde que fuja do extremismo igual ao de Stephen King.


Conclusão


Esta discussão ao longo de três tópicos favorece o argumento óbvio, mesmo assim importante de frisar: nenhum livro terá todas as respostas sobre a melhor maneira de escrever. Faltará conteúdo em toda obra do gênero, sem falar das divergências entre autores cujo debate é até saudável, pois o leitor verá os dois pontos e decidirá por qual seguir. Longe também de rejeitar o conteúdo de Sobre a Escrita devido as críticas contidas neste artigo, os pontos contrariados por aqui não desvalorizam as dicas de ler muito e praticar ainda mais, de eliminar advérbios que deixam a prosa redundante, e enfeitar o vocabulário sem necessidade. O livro prático de Stephen King é tão bom quanto qualquer outro trabalho técnico sobre a escrita, o ideal é absorver o melhor em cada obra.



Link Externo:

How to Write a Story Without a Plot (and Why You Shouldn’t): https://www.helpingwritersbecomeauthors.com/story-without-a-plot/



Livros abordados:


Ficha Técnica:


Nome: Sobre a Escrita

Autor: Stephen King

Editora: Suma

Gênero: Não-Ficção

Tradutor: Michel Teixeira

Número de Páginas: 256

Ano de Publicação: 2015


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Sinopse: Eleito pela Time Magazine um dos 100 melhores livros de não ficção de todos os tempos e vencedor dos prêmios Bram Stoker e Locus na categoria Melhor Não Ficção, Sobre a escrita - A arte em memórias é uma obra extraordinária de um dos autores mais bem-sucedidos de todos os tempos, uma verdadeira aula sobre a arte das letras. O livro também não deixa de lado as memórias e experiências do mestre do terror: desde a infância até o batalhado início da carreira literária, o alcoolismo, o acidente quase fatal em 1999 e como a vontade de escrever e de viver ajudou em sua recuperação. Com uma visão prática e interessante da profissão de escritor, incluindo as ferramentas básicas que todo aspirante a autor deve possuir, Stephen King baseia seus conselhos em memórias vívidas da infância e nas experiências do início da carreira: os livros e filmes que o influenciaram na juventude; seu processo criativo de transformar uma nova ideia em um novo livro; os acontecimentos que inspiraram seu primeiro sucesso: Carrie, a estranha. Pela primeira vez, eis uma autobiografia íntima, um retrato da vida familiar de King. E, junto a tudo isso, o autor oferece uma aula incrível sobre o ato de escrever, citando exemplos de suas próprias obras e de best-sellers da literatura para guiar seus aprendizes. Usando exemplos que vão de H. P. Lovecraft a Ernest Hemingway, de John Grisham a J. R. R. Tolkien, um dos maiores autores de todos os tempos ensina como aplicar suas ferramentas criativas para construir personagens e desenvolver tramas, bem como as melhores maneiras de entrar em contato com profissionais do mercado editorial. Ao mesmo tempo um álbum de memórias e uma aula apaixonante, Sobre a escrita irradia energia e emoção no assunto predileto de King: literatura. A leitura perfeita para fãs, escritores e qualquer um que goste de uma história bem-contada.



Ficha Técnica:


Nome: Para Ler como um Escritor

Autora: Francine Prose

Editora: Zahar

Gênero: Não-Ficção

Tradutora: Maria Luíza X. de A. Borges

Número de Páginas: 320

Ano de Publicação: 2008


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Sinopse: É possível ensinar a um escritor o seu ofício? A questão é polêmica, especialmente quando proliferam cursos de graduação e de extensão com essa proposta. Escritora e crítica literária, Francine Prose defende que sim, há muito o que aprender com os mestres. Virginia Woolf, Jane Austen, Nabokov, Philip Roth e Flaubert são alguns dos autores a quem dedica uma leitura atenta e cuidadosa em busca do segredo do ?escrever bem?. De cada um extrai valiosas lições. Uma obra indispensável para escritores iniciantes e leitores inveterados! E mais:? A edição brasileira conta com acréscimos de Italo Moriconi, que analisa a obra de mestres como Drummond, Machado e Graciliano.? Duas listas de livros para você ler imediatamente, preparadas por Francine Prose, com escritores estrangeiros, e Italo Moriconi, com autores nacionais.


Ficha Técnica:


Nome: Como Funciona a Ficção

Autor: James Wood

Editora: SESI-SP

Gênero: Não-Ficção

Tradutora: Denise Bottman

Número de Páginas: 232

Ano de Publicação: 2017


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Sinopse: Notabilizado por seus ensaios na revista The New Yorker e professor de crítica literária na Universidade de Harvard, Wood aborda, numa prosa inteligente e aguçada, os mecanismos, procedimentos e efeitos da construção narrativa. A representação do real na Literatura é o eixo central de Wood, que questiona os limites entre artifício e verossimilhança na ficção. Em dez capítulos, elementos fundamentais do texto ficcional são discutidos pelo autor: o personagem, o foco narrativo , o estilo. A partir de vasto e diversificado repertório literário - de Henry James e Flaubert, de Tchékhov e Nabókov a Beatrix Potter e John le Carré -, este livro "perspicaz e cheio de achados", nas palavras de Milton Hatoum, traz análises reveladoras e acessíveis mesmo àqueles que desconhecem os rudimentos da crítica literária. Referência fundamental para escritores em formação, professores de Literatura, e todos que se interessam pelo mundo das letras.



Ficha Técnica:


Nome: Escrever Ficção - Um Manual de Criação Literária

Autor: Luiz Antônio de Assis Brasil

Editora: Companhia das Letras

Gênero: Não-Ficção

Número de Páginas: 400

Ano de Publicação: 2019


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*Material enviado em parceria com a Companhia das Letras






Sinopse: O criador da mais célebre oficina de escrita literária no Brasil transformou em livro o curso que formou muitos dos grandes escritores brasileiros contemporâneos.


“Este é um livro imaginado para auxiliar quem deseja escrever textos de ficção.” O escritor e professor Luiz Antonio de Assis Brasil registrou aqui sua experiência ao longo de 34 anos ininterruptos de trabalho com a Oficina de Criação Literária da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, e também no programa de pós-graduação em escrita criativa na mesma universidade.

Com a perspectiva de um ficcionista dialogando com outros ficcionistas, ele apresenta ferramentas indispensáveis para a formação de um escritor. Avesso a fórmulas, Assis ressalta o papel da leitura constante de obras literárias para quem ser se tornar autor de ficção ― e são essas obras as grandes referências de seus cursos e deste manual indispensável, que contou com a colaboração do escritor e ex-aluno Luís Roberto Amabile.



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