• Paulo Vinicius

Sanidade e loucura na obra O Alienista, de Machado de Assis

Simão Bacamarte é um dos personagens mais famosos da literatura brasileira. Sendo o responsável por trancar os loucos de Itaguaí na Casa Verde, quem é o louco e quem é o são para ele?



O Alienista é uma das obras mais famosas de Machado de Assis ao lado de clássicos como Memórias Póstumas de Brás Cubas, Dom Casmurro e Quincas Borba. As pesquisas de Simão Bacamarte sobre a loucura humana encantaram leitores por gerações e gerou obras baseadas nele como A Lição de Anatomia do Temível Doutor Louison (escrito por Eneias Tavares e que já teve resenha aqui no Ficções). O que torna Bacamarte um personagem tão memorável? E de que maneira Machado de Assis contribuiu para a literatura em O Alienista?


Antes eu preciso frisar que edição de O Alienista estarei usando aqui. A minha versão é a da editora Antofágica que possui um projeto gráfico bem diferenciado com ilustrações de Cândido Portinari. A edição é prática e bonita, do tamanho de um livro de bolso, mas elegante. As letras estão grandes e a editora preferiu manter o estilo original do autor ao invés de uma revisão adaptando para leitores atuais. Achei a atitude acertada porque a proposta da Antofágica é por algo mais artístico e de vanguarda. Tem um bom texto de apresentação da Luisa Clasen, nos mostrando como situar O Alienista dentro da literatura brasileira. Mas, como nem tudo são flores, deixa eu reclamar de algo que me incomodou horrores bem no final. Como morador de Itaguaí, essa é uma história que apela ao meu emocional, ao meu sentimento de pertencimento. E ver alguém trocar o nome da minha cidade me incomodou. No último artigo, de Daniela Lima, ela troca ao longo de todo o artigo o nome da minha cidade Itaguaí (que fica no Rio de Janeiro) por Itajaí (que fica no Rio Grande do Sul). Não é uma ou duas vezes, mas dúzias e dúzias de vezes). Peço encarecidamente à editora que corrija isso em futuras impressões.


Mas, falando sobre o tema da loucura em si. É preciso entender como sociedades passadas encaravam os loucos. Geralmente, era considerado louco aquele que era desviante da sociedade. Hoje consideramos a sanidade como algo médico; uma pessoa insana poderia estar sofrendo de alguma condição que afetaria seu cérebro como o mal de Alzheimer ou a simples demência vinda com a idade. No século XIX essa diferenciação era muito subjetiva. Essa é a brincadeira que Machado de Assis faz no decorrer da história, com Bacamarte procurando encontrar critérios que definissem quem deveria ou não estar na Casa Verde. Para Michel Foucault (citado nos artigos ao final do livro), declarar que alguém era louco era retirar os desviantes do convívio social. Isolá-los em algum lugar onde eles não pudessem furar a harmonia social. O problema é que estas instituições se tornaram apenas repositórios de indesejados. Em uma sociedade que migrava de um momento colonial sob o jugo português para um modernismo tupiniquim (sob os auspícios de desbravadores como o Visconde de Mauá), era preciso criar formas de encontrar essas pessoas dentro de um grupo social qualquer.



Não era incomum, por exemplo, vermos pessoas que internavam em manicômios pessoas completamente sãs. Seja por armações, por uma vingança pessoal ou por apenas não ter a capacidade de cuidar de uma pessoa que exige cuidados especiais. Se pararmos para pensar um pouco, os asilos podem ser entendidos como o substituto direto para os manicômios, mas numa escala bem mais leve. A verdade é que a busca por um método que distinguisse loucos de sãos era parte das grandes pesquisas realizadas no século XIX. Um momento que via homens como Charles Darwin e Louis Pasteur contribuírem enormemente para as ciências. Os homens desbravavam os segredos que guardavam a natureza e agora se voltavam para o próprio homem em busca de respostas para seus dilemas. E o cérebro humano continuava a ser um dos maiores mistérios da humanidade (e ainda o é, nos dias de hoje).


Desde o Iluminismo, ocorrido dois séculos antes, o homem vinha se distanciando da religião. Era a lógica racionalista que busca as explicações do universo. Se tornou necessário se afastar das superstições, do senso comum. Simão Bacamarte representa esse limiar entre a ciência e o senso comum. Claro que a prosa machadiana vai dar tons irônicos a um personagem que leva suas crenças à última potência. O protagonista é um homem obcecado com o encantamento da ciência a ponto de praticamente não se relacionar adequadamente com sua esposa. Ele a encarou como alguém que poderia lhe deixar um herdeiro. Quando isso se revela impossível, ele abandona os esforços de tentar agradá-la. Temos no romance uma demonstração do que é o método científico. Bacamarte formula algumas hipóteses com as quais ele tenta provar a todo custo. Algumas de suas hipóteses são tresloucadas enquanto outras apenas primam pelo exagero. E é nesse mundo de exageros que pouco a pouco os cidadãos de Itaguaí vão sendo isolados um por um.


As justificativas para internação são as mais variadas e bizarras possíveis: um muquirana que subitamente se tornou desapegado, sua mulher que é incapaz de se decidir que joia usar, um bandido que age como se não fosse um bandido. O que Bacamarte não consegue compreender é a contradição que caracteriza o homem. Não somos seres que podem ser definidos através da lógica. Somos eivados pelas emoções, que muitas vezes nos impedem de enxergar o óbvio. Não é possível prever as ações do homem; existem muitas variáveis que podem levar uma pessoa a tomar milhões de caminhos diferentes todos os dias. Isso nos torna loucos? Acho que a pergunta que devemos nos fazer é o que é ser normal? Um filósofo contemporâneo chamado Hayden White versou que a realidade é distinta para cada indivíduo (ele vai mais além afirmando que não existe história, mas isso não vem ao caso aqui). Cada um de nós enxerga o mundo a partir de nosso próprio olhar. Dizem os cientistas que a forma como vemos o mundo pode ser radicalmente diferente dependendo do ponto de vista de quem observa. Nosso foco varia, nossa percepção de cores varia, se enxergamos ou não as pessoas que nos cercam.


Bacamarte enxerga o mundo através de padrões e lógicas internas. Mas, ao longo de O Alienista ele vai se dando conta de que as coisas estão fugindo à sua compreensão. Ao limitar a sua visão ao escrutínio da ciência, ele deixa de analisar o que faz uma pessoa decidir algo que não poderia ser previsto. Chega a um ponto onde ele considera que apenas ele mesmo é capaz de entender as engrenagens que movem o mundo. Ponto de vista. Quando ele acaba soltando todos os loucos da Casa Verde, ele percebe que na verdade ele é que era o alienado ao invés de ser o alienista. Se todos os outros alegam ser normais e a sociedade deixara de funcionar quando todos estavam na Casa Verde, o errado era ele. Ele inverte a lógica que ele havia formulado em capítulos anteriores.



O ponto óbvio na escrita de Machado em O Alienista é a crítica feita ao cientificismo tão comum à época. Vale comentar um pouco sobre isso porque este é o momento em que surgem diversas disciplinas como a História e a Sociologia. A primeira já existia antes, mas recebe uma capa de ciência ao longo do século XIX com as teorias criadas por Leopold von Ranke. A História deixa de ser apenas o registro de memórias e possui agora critérios científicos que a destacam. Mas, eu queria chegar na especialização das ciências. É aqui que os diversos ramos do conhecimento geram frutos. As áreas de estudo servem para focar o olhar do homem e ampliar as pesquisas, facilitando formulações teóricas mais complexas. Só que para isso precisamos deixar os estudos gerais de lado. Antes o pesquisador era um sábio, um homem capaz de acessar seus vastos conhecimentos e cruzar ideias a partir de diferentes campos do conhecimento. Quantos de nós hoje já não nos incomodamos ao ir a um dentista e descobrimos que ele é apenas um cirurgião buco-maxilar e não pode tratar do problema que queremos; ou vamos a um médico geral apenas para ele nos reenviar a um especialista de uma determinada área.


Acabamos tão hiper-especializados que nos esquecemos da possibilidade de dispormos de um conhecimento holístico sobre o universo. Na narrativa, Bacamarte se recusa completamente a escutar aqueles que dispunham do senso comum. Isso é o que o leva até o final. Quando ele compreende seu erro, é tarde demais para tentar algo. Ele fora vencido pelas complexidades do homem e a sua busca por como identificar pessoas loucas em uma sociedade acabou o transformando em uma vítima. O Alienista tem muito mais camadas do que essa, mas vale a reflexão em nossa sociedade onde buscamos cientificizar o senso comum, onde buscamos novas formas de distinguir os loucos. Estariam eles uniformizados, se infiltraram em nossa sociedade, falam gírias, são governantes? Quem eles são? Eu, particularmente não sei, mas tenho quase certeza que Simão Bacamarte adoraria colocar vários na Casa Verde.



Livro Citado:


Ficha Técnica:


Nome: O Alienista

Autor: Machado de Assis

Editora Antofágica

Gênero: Humor/Romance

Número de Páginas: 304

Ano de Publicação: 2019


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Sinopse:


Com quantos doidos se faz uma cidadezinha? É o que está prestes a investigar o ilustre Dr. Simão Bacamarte, renomado médico com estudos no exterior, que funda na vila de Itaguaí a Casa Verde, instituto onde pretende estudar e tratar todos os que sofrem de transtornos mentais.


Todo tipo de gente é enviado aos cuidados do doutor, que passa também a enxergar em seus vizinhos e conhecidos o perigoso traço da loucura.


Obstinado e fatalmente fiel à ciência, o médico não permitirá que nada – nem a população, nem o Estado, nem o senso comum – impeça sua nobre investigação sobre a razão humana.




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