• Amanda Barreiro

Resenha: "Uma Tocha na Escuridão" (Uma Chama entre as Cinzas vol. 2) de Sabaa Tahir

Na continuação de Uma Chama Entre as Cinzas, Laia precisa chegar à prisão de Kauf para resgatar seu irmão. Enquanto isso, o Império mergulha no caos.


Sinopse:

O segundo livro da história épica e eletrizante sobre liberdade, coragem e esperança. Ambientado em um mundo brutal inspirado na Roma Antiga, "Uma Chama Entre as Cinzas" contou a história de Laia, uma escrava lutando por sua família, e Elias, um soldado lutando pela liberdade. Agora, em "Uma Tocha Na Escuridão", ambos estão em fuga, lutando pela vida. Após os eventos da quarta Eliminatória, os soldados marciais saem à caça de Laia e Elias enquanto eles escapam de Serra e partem numa arriscada jornada pelo coração do Império. Laia está determinada a invadir Kauf, a prisão mais segura e perigosa do Império, para salvar seu irmão, cujo conhecimento do aço sérrico é a chave para o futuro dos Eruditos. E Elias está determinado a ficar ao lado dela - mesmo que isso signifique abrir mão da própria liberdade. Mas forças sombrias, tanto humanas quanto sobrenaturais, estão trabalhando contra eles. Elias e Laia terão de lutar a cada passo do caminho se quiserem derrotar seus inimigos: o sanguinário imperador Marcus, a cruel comandante, o sádico diretor de Kauf e, o mais doloroso de todos, Helene - a ex-melhor amiga de Elias e nova Águia de Sangue do Império. A missão de Helene é terrível, porém clara: encontrar o traidor Elias Veturius e a escrava erudita que o ajudou a escapar... e acabar com os dois. Mas como matar alguém que você ama desesperadamente?


Uma Tocha na Escuridão


Alerta: contém spoilers de Uma Chama Entre as Cinzas!


A história de Laia prossegue pelo que deveria ser o momento mais visceral da trama: a fuga da Academia Blackcliff cobrou um alto preço dela e de Elias Veturius, o Máscara que decidiu questionar a realidade na qual foi criado para acreditar e seguir fielmente. Digo deveria porque, diferentemente do primeiro volume, que entregou uma história cheia de sobressaltos e emoções intensas, Uma Tocha na Escuridão não conseguiu manter o ritmo e precisou desacelerar em muitos momentos.


Tudo bem que uma história mais comedida não implica em perda de qualidade, longe disso, mas alguns pontos me levam a questionar o padrão adotado por Sabaa Tahir para contar o desenrolar dessa narrativa. Vou começar a comentar a partir de um nível mais estrutural: para um momento de desenvolvimento na trama, como costuma caber no meio de trilogias e séries, a linguagem, a escrita e a estruturação narrativa de Tahir ficou simplificada demais, rasa e sem a cadência necessária para aprofundar o mundo criado pela autora. Temos o Império, os entornos, as Tribos, alguns locais pontualmente mencionados e a prisão de Kauf; todo o restante fica solto e sem muita dimensão. Os capítulos excessivamente curtos e divididos entre Laia, Elias e a Máscara Helene também não ajudam muito a fazer uma composição mais sólida do Império. Infelizmente, todo o worldbuilding, a cultura e a mitologia da série são interessantes demais para se perderem em páginas e mais páginas da Laia se sentindo assim ou assado, querendo beijar esse ou aquele ou fazendo mais e mais bobagens.


Essa escrita e narrativa simplificadas são características das literaturas Young Adult em geral, e deixo claro que simples não precisa significar ruim; não é bem o caso desse segundo volume. Há uma certa incerteza na condução da história, resultando em vários capítulos desnecessários, especialmente os da própria protagonista Laia, e vários de Helene também são apenas mais e mais da mesma informação. Acho lastimável que uma personagem tão forte, impetuosa e calorosa como Laia tenha ficado em um plano tão banal. Para não ser injusta, há sim uma recuperação dessa situação e as coisas melhoram a partir de uns 60% da trama, mas até chegar lá...


Como citei a mitologia e o worlbuilding de forma geral apresentados e desenvolvidos em Uma Tocha na Escuridão, preciso também comentar o porquê de só ter reclamado dos capítulos da Laia e da Helene. Por conta do desenrolar dos eventos pós-fuga de Blackcliff, boa parte dessa maravilhosa mitologia árabe fica reservada aos capítulos de Elias Veturius. Se antes os effrits nos foram brevemente introduzidos, além da vaga menção aos djinns e ao misterioso Portador da Noite, neste segundo volume todos esses seres e espaços mágicos vêm à tona e interagem de diversas - e importantes - formas com os protagonistas. Elias, no entanto, não apenas interage como vivencia uma narrativa só sua, muitíssimo bem construída e mais intrigante do que os passos errantes de Laia.


Acredito que vale ressaltar não apenas a qualidade da construção dessa mitologia e fantasia com inspirações árabes, mas também o quão diferente é essa temática nos nossos romances ocidentais. O cenário desértico e as criaturas do Oriente Médio não são exatamente novidade ou exclusividade da escrita da Tahir, mas certamente não são tão explorados quanto deveriam ser, principalmente se considerarmos a vastidão dessa cultura milenar e a densidade e diversidade de culturas povoando toda a região.


Mas falando especificamente sobre as personagens, pelo menos com relação às três principais, é perceptível que tanto Laia quanto Helene acabaram caindo num lugar comum às protagonistas femininas - o romance, o triângulo amoroso, os momentos de paixão impensada -, o que é uma pena, como já mencionei. Gostei da inclusão de novos personagens, como a tribal Afya e a djinn Shaeva. O marcial/espião Harper também acrescenta bons momentos no plot de Helene, contribuindo com mais informações sobre o Império e alguns segredos interessantes.


Uma característica que se manteve na escrita da Sabaa Tahir, entretanto, é o risco das decisões: percebo que a autora continua ousada e não teme fazer escolhas complexas, tampouco teme as consequências de lidar com a narrativa depois dessas escolhas. Há mais de um momento assim neste livro, e por isso devo não só elogiar, mas também demonstrar respeito diante de tanta coragem. Soluções fáceis simplesmente não estão no menu da autora.


No geral, a condução do segundo volume da série foi desanimadora e um tanto frustrante - eu tinha expectativas altas para este livro, já que o primeiro foi tão empolgante! Tanto a narrativa quanto o desenvolvimento dos personagens deixou a desejar e não conseguiu desviar do lugar comum das histórias Young Adult. Não são erros tão graves que me façam desistir da série, mas confesso que vou para o terceiro volume bastante desconfiada e prevenida. Neste momento, o que segura Uma Tocha na Escuridão é basicamente a mitologia belíssima dos djinns, que eu quero ver muito mais.








Ficha Técnica:


Nome: Uma Tocha na Escuridão

Autora: Sabaa Tahir

Série: Uma Chama Entre as Cinzas - vol. 2

Editora: Verus

Tradutor: Jorge Ritter

Número de Páginas: 434

Ano de Publicação: 2017


Outros Volumes:

Uma Chama entre as Cinzas (vol. 1)


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