• Paulo Vinicius

Resenha: "Reconhecimento de Padrões" (Trilogia Blue Ant vol. 1) de William Gibson

O Filme. Uma das maiores peças publicitárias dos últimos tempos. Cayce Pollard é uma profissional em saber do que você gosta, o que você come, o que você veste. Ela entende de marcas. Mas, ela precisará encontrar os responsáveis pelo Filme. Ou sua vida correrá perigo.



Sinopse: Reconhecimento de Padrões, de William Gibson, é o primeiro volume da Trilogia Blue Ant, a única da bibliografia do autor que se passa no presente. Neste romance, Gibson leva ao leitor um retrato brilhante da cultura de consumo e do esoterismo pós-moderno, associado à insana busca por novas tendências que ditarão a moda e por consequência os lucros. O romance é ambientado em Londres, Tóquio e Moscou. Dessa forma apresenta uma verdadeira viagem pela aldeia global habitada por marketeiros ambiciosos, sabotadores industriais, hackers de primeira linha, chefes da máfia russa, fanboys de Internet, tecno-arqueólogos, espiões aposentados, documentaristas culturais. Habitante fiel dessa aldeia, Cayce Pollard – uma caçadora de tendências “cool” com um quê de profetisa e uma alergia a marcas registradas – visita Londres para avaliar o redesign de uma famosa logomarca corporativa. Lá ela recebe uma outra proposta de trabalho: descobrir o criador de uma série de enigmáticas imagens de vídeo que estão sendo transmitidas pela Web e gerando infinitas discussões em uma comunidade virtual underground da qual ela é um dos membros mais ativos. O problema é que alguém não quer que Cayce descubra a identidade desse artista. Com seu apartamento londrino invadido e seus e-mails hackeados, ela descobre que pode haver muito mais em jogo do que imaginava.




Cayce Pollard é uma personagem fascinante. Queria começar com esta frase para os leitores do Ficções Humanas não acharem que eu tenho algum tipo de perseguição ou ódio gratuito ao William Gibson. A verdade é que Reconhecimento de Padrões tem uma qualidade de escrita muito superior a Neuromancer, na minha modesta opinião. Mas, continua com alguns problemas típicos da escrita do autor: o excesso de referências pop (as quais o leitor não capta; diferentemente de Deuses Americanos que é bem menos underground) e a grande quantidade de momentos que não fazem o menor sentido para o desenvolvimento da história ou para o amadurecimento (ou não) dos personagens.

Cayce trabalha com padrões de comportamento. Sua habilidade consiste em entender que tendências estarão na moda nas próximas temporadas e criar peças de publicidade capazes de agradar ao público. Mas, quando sua vida vai mal, ela é contatada por um empresário exótico chamado Bigend. Dono de uma empresa de publicidade multimilionária, ele vai contratá-la para encontrar os criadores de um Filme sensacional e emotivo que se tornou viral. Bigend quer entrar em contato com essas pessoas e entender do que se trata o Filme. Mas, durante suas investigações, Cayce vai lidar com situações bem estranhas que vão colocar até mesmo sua vida em risco. Afinal, o que é o Filme? E o que Bigend quer com ele?

Se formos procurar analisar o protagonista, Cayce é uma personagem mais redonda do que Case de Neuromancer. A construção dela tem um delineamento melhor e o leitor consegue compreender as motivações que a movem. Conhecemos suas virtudes e defeitos, o que torna Cayce mais humana. E isso acaba fazendo com que eu deteste a maneira como Gibson termina o livro. Se um defeito define ou individualiza um personagem, por que raios eu tenho que arrumar um bendito deus ex machina e eliminar aquilo que torna Cayce tão interessante? Juro... eu tento não perseguir o autor, mas ele não deixa.



Mas, Boone Chu consegue ser pior do que Molly, a personagem que atua junto de Case em Neuromancer. Molly se tornou uma personagem cult e a forma como Gibson trabalha suas características em Neuromancer faz com que ela tome a frente em vários momentos (apesar de ele destruir a personagem em Mona Lisa Overdrive). Tá... vamos comparar então com Parkaboy se os leitores acharem que se trata de uma comparação melhor. Achei que o autor se preocupou demais novamente em deixar a ambientação mais cool e não deixou espaço para desenvolver os personagens secundários. O par romântico de Cayce apareceu meio de pára-quedas, arremessado no contexto no meio do livro. A personagem demonstrou interesse romântico por outra pessoa a qual ela acaba por não resolver a situação. Fica um gosto de climinha mal resolvido. Okay... escritores de sci-fi não costumam lidar bem com pares românticos (que o diga Asimov).

A ambientação é perfeita. Simples assim. Conseguimos realmente sentir como funciona o universo das marcas. Aliás, a obra soa bastante como uma história de espionagem principalmente quando a ação acontece na Rússia. Só achei que a história demorou para engrenar. Muito tempo perdido em deixar o ambiente cool e levar a personagem até o começo da história. Os primeiros seis capítulos são tediosos e não funcionam para apresentar adequadamente os personagens.

O tema da obra é a mídia nos dias atuais. Como uma simples obra é capaz de cativar o público e não ser compreendida de todo. Em nenhum momento os fãs do filme realmente conseguem captar o que os seus autores gostariam de dizer. Quando Cayce se depara com o motivo para o qual o filme foi feito, ela se emociona e entende que se trata de uma obra intimista. A ideia era divulgar um pensamento, fazerem as pessoas se importarem com algo mais importante; mas, as corporações acabam por mudar o objetivo final do filme. Nossa protagonista acaba por se rebelar diante de tudo.



Como sempre, Gibson faz uma crítica pesada às corporações que ele acredita dominarem o cotidiano das pessoas. No caso de Reconhecimento de Padrões, seria o mundo das logomarcas. Bigend queria usar a pureza por trás da magia despertada pelo Filme para transformar esse apelo em uma campanha publicitária. Ele não diz isso de forma explícita, mas esse era o objetivo da Blue Ant, algo claro em vários momentos da história.

Em uma última análise, Reconhecimento de Padrões me desperta um pouco de medo. Medo pelo envelhecimento precoce da obra. Diferentemente da Trilogia Sprawl que foi revolucionária e ressoa a um público atemporal, esse primeiro volume da Trilogia Blue Ant fala a um público muito específico, muito contemporâneo. Não sei se a obra se sairia bem no teste de idade.




Ficha Técnica:


Nome: Reconhecimento de Padrões

Autor: William Gibson

Série: Trilogia Blue Ant vol. 1

Editora: Aleph

Gênero: Ficção Científica

Tradutor: Fábio Fernandes

Número de Páginas: 416

Ano de Publicação: 2004


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