• Paulo Vinicius

Resenha: "Os Olhos de Barthô" de Orlandeli

Orlandeli mostra com muita sensibilidade como uma boa pessoa pode acabar cometendo erros quando acaba se envolvendo com pessoas erradas. Isso através dos olhos de um personagem bondoso e de sentimentos honestos.


Sinopse:


Desde o nascimento, Barthô vê o mundo de um jeito muito peculiar. Uma visão leve e quase subjetiva diante das coisas da vida. Tudo é bonito aos olhos de Barthô. Essa forma de enxergar o mundo chama a atenção das pessoas mais próximas, principalmente Nicola – seu amigo de infância -, que tenta desde sempre mostrar que o mundo não é um mar de rosas. Em meio a tantas verdades, não é fácil escolher o caminho certo, afinal, tudo é bonito aos olhos de Barthô.





Uma das coisas que mais se destacam na escrita do Orlandeli é em o quanto ele consegue captar sutilezas no cenário e nos transmitir emoções. Seja uma rosa se abrindo com espinhos no caule ou um olhar perdido do personagem em um fundo fosco. Essa sutileza fez o autor ganhar os corações dos leitores com trabalhos como O Mundo de Yang e Chico Bento - Arvorada. Aqui ele continua nessa jornada para desvendar o coração de seus personagens com um protagonista sensível que acaba fazendo escolhas erradas na vida e precisa conviver com elas.


Bartholomeu nasceu em um dia de tempestade. Desde pequeno, o jovem Barthô sempre teve um bom coração. Enxergava a bondade em todas as coisas, seja em uma aranha fazendo uma teia ou em folhas espalhadas na relva. Mas, com o passar do tempo ele faz amizades e a vida cobra escolhas dele. Seu melhor amigo acaba fazendo com que o protagonista faça escolhas ruins e rume no caminho da violência. Mas, curiosamente, apesar de Barthô ser violento, ele continua sendo uma boa pessoa. Só é guiado por uma pessoa ruim. Isso vai mudar no momento em que ele se une a um grupo de vigilantes, agora adulto, e começam a expulsar pessoas pobres de seu bairro. Um dia, Barthô acaba se excedendo e realmente machucando uma pessoa.


O roteiro do Orlandeli é bastante prolixo, ao mesmo tempo em que mantém uma simplicidade ímpar. Ele consegue transmitir mensagens sobre escolhas, caminhos, amizade e redenção. Tudo isso em uma HQ com uma premissa bem básica. Temos um roteiro que se estende por 4 capítulos (há um quinto, mas eu explico sobre ele mais tarde) onde ele vai mostrando diferentes fases da vida do personagem: infância, adolescência e vida adulta. Tudo bem construído e dividido ao longo da narrativa, que consegue transmitir o que o leitor precisa saber de uma forma clara. Obviamente que a arte vai esconder algumas mensagens extras que apenas se você observar os quadros com atenção conseguirá captar o que Orlandeli quis dizer naquele momento específico. Para mim, o roteiro é lindo ao mesmo tempo que é sutil. O autor não vai esfregar suas mensagens na cara do leitor; ele apenas vai apontar os caminhos. Afinal, esse é o papel do mestre: não é te dar a resposta, mas te mostrar os caminhos para que você possa chegar até ela.



Nesta HQ, o autor emprega uma palheta puxando para três cores: o preto (representando as sombras), o branco (representando a luz) e o verde que acaba representando os personagens. Existem alguns tons de vermelho em alguns momento, mas essas cores acabam predominando pela história. A quadrinização dele é algo de doido... Lindas, amplas, bem posicionadas. Como eu disse na resenha de O Mundo de Yang, a arte do Orlandeli é única. Se você não curtiu a arte que ele empregou em Chico Bento e em O Mundo de Yang, infelizmente não é a sua praia. Embora eu recomendasse que pelo menos você, leitor, desse uma oportunidade para que ele pudesse contar a sua história. Para mim, a arte dele é apaixonante e consegue estar presente em cada pincelada, em cada zoom do olhar para um determinado objeto. As proporções são usadas para passar alguma emoção: melancolia, ira, tristeza, felicidade. A quadrinização é diferente e o Orlandeli gosta de usar poucos quadros. Não é incomum vermos (para a minha alegria) imagens de página inteira.


Destaco duas cenas em que a arte do Orlandeli brilha. Uma logo no começo em que Barthô está aprendendo a conhecer o mundo. Ele pega uma árvore entre seus dedos e vê cada curva, cada buraco, cada ranhura da folha. A imagem por si só já é muito bonita (toda carregada no laranja), mas ela te passa o que o personagem sente ao ter aquele olhar. O outro momento incrível é uma imagem muito simples. Uma imagem do Barthô sentado e sozinho em um traço bem simplificado e com o fundo todo branco. Aquele momento mostra o quanto o personagem se sente solitário, mesmo acreditando ter um amigo que está ao seu lado.


A vida é repleta de escolhas. Fazemos cada uma delas diariamente. Seja que horas acordamos, quando vamos ao trabalho, o que empregamos com o nosso dinheiro. Mas, aquelas decisões que são impactantes surgem de coisas simples: a quem estamos seguindo, o que fazer em um momento crítico, quando decidir mudar. Bartholomeu é um personagem fascinante em sua bondade. Ele não enxerga o mal nas pessoas. Ao se envolver com o seu amigo, tudo o que ele deseja é estar ao lado dele, apoiando-o, já que ele é o único que está ao seu lado. Mas, o leitor vai percebendo pouco a pouco que este amigo é apenas uma pessoa mesquinha que se aproveita do fato de Bartho ser um homem grande. No momento em que o protagonista acaba cometendo um erro terrível, seu amigo finge estar ao seu lado. E pouco a pouco vamos vendo o distanciamento que ele vai tendo de Bartho. A cada um desses momentos, sentimos o coração do protagonista se quebrando em vários fragmentos. Tem uma sequência de cenas em que o autor mistura a mesma imagem do quarto com mensagens de celular em que esse sentimento de tristeza é mais reforçado.


Mas, Bartho acaba tendo um caminho de redenção mais tarde. Ele conhece um senhor que vai lhe passando mensagens duras e reais sobre a vida. Por exemplo, no momento em que mais precisamos, onde estão aqueles que se dizem nossos amigos? Não existe justiça ou injustiça na vida; existe apenas o viver. Não há como remediarmos algo que já está feito, ou seja, não adianta a gente reclamar sobre uma condição que nos foi imposta. Resta nos adaptarmos aquilo e buscarmos nossa felicidade dentro daquelas condições. São mensagens duras, porém, refletem uma forma de viver. Orlandeli retoma aqui algumas lições da filosofia oriental que tenta buscar a harmonia em todas as coisas. A natureza é porque ela é. Podemos tentar de todas as maneiras, alterá-la, mas isso não vai garantir sucesso algum. É como tentar deter uma corrente marítima ou o vento sobre as árvores. Simplesmente não é possível.


Os Olhos de Barthô é uma HQ profunda que suscita muitos, mas muitos debates. Gostaria de poder conversar mais com aqueles que leram essa história para saber que outras mensagens vocês puderam tirar dela. De minha parte, eu continuo encantado com as histórias do autor. Me dá vontade de ler cada vez mais coisas dele. A gente curte as sutilezas, as pequenas mensagens, os enquadramentos e os diálogos precisos, simples e repletos de significados. É uma daquelas histórias que eu vou recomendar mesmo a quem não gosta de quadrinhos.



Ficha Técnica:


Nome: Os Olhos de Barthô

Autor: Orlandeli

Editora: Autopublicado

Gênero: Drama

Número de Páginas: 96

Ano de Publicação: 2019


Link de compra:

http://www.comix.com.br/os-olhos-de-bartho.html


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