• Paulo Vinicius

Resenha: "O Último Verão de Eurania" de Melissa de Sá

O rei Talan precisa decidir qual de suas filhas gêmeas precisa assumir o trono de Eurania: a doce Eurânia ou a eficiente Brucei. Enquanto ele vê sua vida se esvaindo por causa de sua doença, seus últimos dias são pesarosos enquanto um monarca que não pode mais estender sua vida.



Sempre gostei de histórias de fantasia que são contadas e não narradas. Pode parecer que estou falando a mesma coisa, mas não é. Em alguns autores a gente percebe uma certa urgência na escrita, uma necessidade de criar grandes momentos a qualquer custo. Os momentos mais calmos são vistos como transitórios ou incômodos. Contadores de histórias não se incomodam com isso; a história vai tomar seu rumo quando tiver que ser. Não há pressa para apresentar os fatos. E é isso o que eu senti em O Último Verão de Eurania: a Melissa não estava com nenhuma pressa para nos contar sua história. E por essa razão o conto pareceu tão especial.


A narrativa começa com o rei Talan presidindo uma reunião entre seus conselheiros. Somos apresentados ao reino e às angústias e dúvidas de um rei. Ele não teve filhos; teve duas gêmeas, Brucei e Grinda. Isso acabou tornando a sucessão um tanto complicada pelas possibilidades de rejeição. Mas, sua saúde está se debilitando e ele sabe pela Outra, uma sacerdotisa que o acompanha há anos, que seus dias estão chegando ao fim. Sua maior preocupação está em decidir quem vai ocupar a sucessão do trono. E ele acaba fazendo um desejo à sacerdotisa que pode ter sido mais doloroso do que ele imaginava. Se Talan acha que está preparado para tudo, melhor ele repensar seus conceitos. Nós nunca sabemos o que se esconde atrás de alma de alguém.


Não é comum vermos narrativas sobre sucessão real. Pelo menos não da forma como a Melissa nos conta a história. Acompanhamos os últimos dias de um rei e o que se passa em sua cabeça. Quem vai ocupar seu trono, como ele será lembrado pelos seus súditos, de que maneira ele vai morrer. Tudo isso acaba tomando a mente do monarca e a memória é algo complicado com o que lidar. Às vezes podemos arranhar a imagem que deixamos para trás em um único instante. E essa preocupação se faz presente o tempo todo. Ao mesmo tempo temos um pai que gostaria de ter passado mais tempo com suas filhas. Ele coloca em perspectiva se foi capaz de dar o amor e atenção necessária a cada uma delas. Talvez uma decisão ou outra que tenha pesado demais para ele. Diante da morte, nossa vida passa como se fosse um filme e tudo o que fizemos nos é mostrado com mais clareza.


Adorei a construção de mundo da Melissa. Quando lemos o posfácio e nos damos conta de que esse é um trabalho mais antigo dela, dá para perceber o cuidado e o carinho que ela teve ao construir seu mundo. A segurança com a qual ela vai nos passando informações, sem pressa, se atentando a detalhes. Quem lê de forma desatenta, não vai perceber a preocupação que a autora teve ao criar uma religião, um sistema econômico, uma rede de alianças. E para um conto. Tendo lido, eu gostaria de ver a Melissa retornar a esse mundo, porque deixou a impressão de que existem muitas história a serem contadas sobre ele.










Ficha Técnica:


Nome: O Último Verão de Eurania

Autora: Melissa de Sá

Editora: Revista Trasgo

Número de Páginas: 33 (em formato A5)

Ano de Publicação: 2018


Avaliação:



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