• Paulo Vinicius

Resenha: "Moby Dick" de Chabouté adaptado do romance de Herman Mélville

Um jovem rapaz deseja entrar para o mundo da caça de baleias. Um mundo duro e difícil que exige coragem e dedicação. Em Nantucket, ele entra para a tripulação do Pequod, um navio que tem um capitão chamado Ahab. Ahab está obcecado em caçar uma baleia branca que lhe arrancou a perna. Um animal monstruoso cujo nome é Moby Dick.



Sinopse:


Moby Dick é um verdadeiro triunfo do premiado artista francês Christophe Chabouté, aclamada como a mais impressionante adaptação desse clássico da literatura para os quadrinhos. A epopeia do obcecado capitão Ahab em busca do cachalote branco é recontada de forma magistral pelas mãos de um mestre, que optou por conservar o texto original de Herman Melville, transformando-o numa primorosa narrativa gráfica. Prepare-se para a emocionante caçada à maior das criaturas do mar, ao lado do narrador Ismael, do misterioso aborígene Queequeg e de uma tripulação que oferece o próprio sangue para seu capitão em troca da promessa de glória e ouro, sem saber que, na verdade, o que os aguarda é a desgraça e o infortúnio!






Este é um romance considerado um dos clássicos da literatura mundial. Moby Dick é um livro que já ultrapassou décadas e Mélville é até hoje reverenciado por sua habilidade de escrita. Só que o romance é bastante desafiador por conta da escrita erudita e bastante simbólica do autor. Qualquer um imaginaria que adaptar um livro desses para uma outra mídia seria bem complexo. Tentativas foram feitas seja no cinema ou no teatro, mas sem grande sucesso. É então que me deparo com essa adaptação em quadrinhos que não deixa absolutamente nada a desejar ao original. Claro que isso vem da habilidade de Christophe Chabouté, um dos quadrinistas mais bem dotados da atualidade, capaz de captar todo o drama, a obsessão, a loucura e a arte desse romance. A adaptação de Moby Dick foi o trabalho que nos apresentou o quadrinista ao Brasil. E que bela forma de começar uma coleção deste monstro dos quadrinhos.


A narrativa de Moby Dick começa em Nantucket com um jovem grumete desejando embarcar em um baleeiro. Seu desejo é aprender o ofício de caçar baleias ao lado de homens mais experientes. Ele acaba conhecendo um canibal chamado Queequeg com quem ele logo faz amizade. Juntos eles sobem ao nível Pequod que estava por desembarcar. Mesmo depois de muitos avisos para que eles não entrassem para esta tripulação em particular, eles conhecem o famigerado capitão Ahab. Um homem duro e marcado pela vida no mar e cuja obsessão é a caça de uma poderosa baleia branca chamada Moby Dick. Sua vontade vem de um desejo de vingança pela baleia ter arrancado uma de suas pernas. É aí que começa uma caçada frenética pelos sete mares, que irá testar cada fibra do ser desses homens. Será possível derrotar tão temível ser? Ou a natureza se revelará mais poderosa do que o homem?


Antes de mais nada é preciso elogiar a enorme habilidade de Chabouté de adaptar um romance tão complexo como Moby Dick. Pensem em um romance vasto, repleto de idas e vindas onde o autor demonstra toda a sua capacidade como contador de histórias. Moby Dick é um clássico não apenas pela sua atemporalidade, mas pela sua escrita precisa e repleta de detalhes que se escondem nas entre linhas. No entanto, Chabouté foi capaz de usar a sua arte para trazer a beleza da narrativa de Mélville para as histórias em quadrinhos. Não digo que a HQ substitua a leitura do romance; muito pelo contrário, esta história complementa aquilo que foi lido antes. O artista consegue construir as cenas imaginadas por Mélville, com toda a pompa e carga emocional que elas trazem ao leitor. Arte se combina às letras para construir um todo único, nos maravilhando com palavras imortais.


Chabouté é o mestre do emprego do preto e branco. Dificilmente vocês irão conhecer outro capaz de entregar tamanha habilidade nesse manejo. Até porque usar o preto e branco não é a ausência das cores, mas a capacidade de entregar cenas que consigam transmitir a contradição existente entre luz e sombras. Percebam na cena como o preto tem diferentes matizes. E com isso ganha profundidade. Chabouté consegue entregar diferentes sensações com o sue traço: seja a grandiosidade de um ambiente, a monotonia de uma perseguição infrutífera ou a obscuridade do fundo de nossas almas. Outro ponto importante de saber usar o P&B é a possibilidade de fornecer mais tridimensionalidade às cenas simplesmente ao empregar um tom de preto mais claro ou escuro, ou até de usar de ferramentas como a hachura ou o pontilhado.


O artista também não é tímido ao deixar vastos trechos sem um único balão. Como já vimos em Um Pedaço de Madeira e Aço, Chabouté é capaz de criar HQs mudas. Ou seja, ele é capaz de transmitir sentimentos e situações sem o emprego de balões. Apenas por gestos, repetições de cenas, olhares, closes em determinados ângulos. As ferramentas usadas são as mais diversas e o leitor não se sente nem um pouco confuso com elas. Ao mesmo tempo, isso nos permite apreciar melhor a sua arte. Alguns momentos são realmente poderosos como a construção da lança que será empunhada por Ahab ou da baleia indo de encontro aos marujos. Tudo isso só ganhou mais potência porque não havia diálogos que interrompessem o fluxo do que estava acontecendo. Isso é o melhor exemplo de que não há necessidade de se colocar um enorme número de diálogos para traduzir de forma adequada uma cena. Às vezes o silêncio é capaz de dizer muito mais do que a eloquência.


Podemos dizer que Moby Dick é um enorme tratado sobre a obsessão de um homem. O que move Ahab em sua missão é a única tarefa de arpoar uma baleia que lhe causou mal no passado. Ter arrancado sua perna significou quase como tirar sua vida. Esta passou a ser dedicada única e exclusivamente a persegui-la até os confins do mundo. É como se Ahab já estivesse morto em vida. Sua obsessão vai ficando cada vez maior a cada dia de sua jornada. Se no começo ele é apenas um velho amargo, com o passar do tempo essa obsessão vai ganhando contornos mais mortais. A ponto de ele ignorar alertas de sua tripulação quanto aos perigos decorrentes dessa louca missão. Seu grau de insanidade vai atingindo pontos inimagináveis e nos últimos capítulos, o capitão toma decisões cada vez mais questionáveis. Mas, uma cena em particular é impactante: quando ele diz a Starbuck, seu imediato, que não o siga quando ele estiver indo arpoar a baleia e que ele não deseja alguém ao seu lado que possui os olhos de alguém que deseja ver sua família. Essa é a medida de seu desespero.



A tripulação não sabe como lidar com Ahab. A ideia básica era que eles pudessem lucrar com a venda de óleos de baleia. Algo bem comum no período em que a história é contada. Ninguém imaginava que toda a viagem seria dedicada a perseguição de um poderoso leviatã, um ser capaz de destruir navios inteiros em sua passagem. Vão haver vários momentos em que a tripulação daria pistas de um possível motim. Algo que não aconteceu graças aos esforços do imediato do navio. Mas, o problema é: e quando o próprio imediato não confia mais no juízo de seu capitão? Homens vão sendo perdidos um a um em uma caçada que vai se revelando fútil e perigosa. Alguns momentos são desesperadores como quando um deles cai doente e pede para que seja feito um caixão e ele não seja simplesmente jogado ao mar quando de sua morte.


Moby Dick é claramente um confronto entre o homem e a natureza. E a narrativa emprega vários momentos que parecem saídos de histórias bíblicas como a lança nascida no sangue e trovão ou a grande baleia que remete à história de Jonas. Chabouté consegue emular bem a gravitas desses momentos, com cenas igualmente simbólicas. No fundo o homem tenta a todo custo derrotar a natureza, mas esta consegue ser implacável ao lidar com o homem. O que no começo era o espírito alegre de uma tripulação em busca de seu ganha-pão vai se tornando uma jornada desesperadora onde a única certeza é uma possível morte nas mãos de uma criatura que parece saída de alguma lenda olímpica. No fundo, Moby Dick é uma elegia a como o homem ocupa um espaço minúsculo na ordem natural das coisas. E em como a natureza pode ser avassaladora.



Ficha Técnica:


Nome: Moby Dick

Autor: Christophe Chabouté

Adaptado do romance homônimo escrito por Herman Mélville

Editora: Pipoca & Nanquim

Gênero: Ficção

Tradutor: Pedro Bouça

Número de Páginas: 256

Ano de Publicação: 2017


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