• Paulo Vinicius

Resenha: "Mistérios da Bússola Azul" de Cláudia Pucci Abrahão

Atualizado: 6 de Jun de 2019

Após perder uma pessoa muito importante, Marina volta depois de alguns anos ao lugar onde tudo aconteceu. A luta contra a construção de uma usina é também uma luta da própria Marina para encontrar um sentido para si mesma em um mundo de mistérios e magia. 

Sinopse:


Eu te desafio a acreditar – ele disse – mas não tente fazer isso como uma criança. Não existe mais inocência em um coração maculado. É necessário trabalho para destrancar essas portas e voltar a escutar a canção das estrelas. 

Tomada por um sonho lúcido, Marina acordou com a suave lembrança de um tempo onde tudo era vivo. Quando o futuro que se imaginou não se realiza e o presente é somente um eco do que já foi o passado, só há uma saída: uma carta de demissão.

A partir dessa decisão, ela começa a ver um círculo azulado, convocando-o para retornar à Comunidade de Rio das Pinhas, onde há dez anos conhecera a luta dos moradores contra a construção de uma usina. Contudo, sua viagem traz à tona muito mais que memórias. Instigada por sucessivos desaparecimentos e um amor que pensava haver deixado na floresta, Nina descortina o portal para outras realidades jamais sonhadas, onde descobre que seu verdadeiro propósito está entrelaçado à história de muita gente.

Uma aventura repleta de aprendizados e desafios, mestres e antagonistas, escolas de conhecimento e paisagens mutantes, onde Nina é convocada a perceber e viver outras camadas do universo. Mas para isso, deverá fazer uma única entrega: abrir mão de uma visão única da realidade e confiar na magia do Grande Mistério.




Acreditar em algo nem sempre é uma tarefa fácil. Ter fé em algo que foge aos nossos padrões de compreensão do mundo exige muito desprendimento da pessoa e abertura para acreditar no impossível. Isso porque somos seres humanos programados para estabelecermos alicerces nos quais nos fiamos para levar adiante nossa realidade. Cláudia Pucci nos coloca primeiro em um ambiente facilmente identificável para depois retirar nosso chão, pedaço por pedaço, onde até mesmo uma pergunta pode ser uma armadilha do Bardo de Areia, aquele ser que nos envolve na névoa da incompreensão. 

O poder das grandes companhias

Temos diante de nós uma personagem feminina poderosa, embora alquebrada pelo confronto com uma companhia poderosa que deseja expulsar os indígenas de sua aldeia, único empecilho para a construção de uma nova usina. O mote para a história da autora é muito atual e totalmente conectada com nosso mundo. A maneira como as grandes companhias exploram brechas legais para enriquecer usufruindo dos recursos naturais parece um assunto do jornal das oito. Achei curioso como a autora explora seja o lado "bondoso" da companhia, prometendo uma "civilidade" que só existe se o nativo abandona suas crenças até o lado maligno onde são empregados milicianos que negam ter qualquer conexão com a empresa. Muito bem trabalhado esse aspecto e calca bem a história. 

Senti que a autora abandonou essa parte da história quando Marina segue para o outro mundo. Isso acabou me frustrando um pouco porque não senti um retorno ao que estava acontecendo antes. Não esperava um grande combate, apenas alguma forma de o plot ser encerrado, seja com a destruição da vila ou com os nativos conseguindo fugir ou derrotar seus opressores. Eu imaginei também que a ida ao mundo dos sonhos fosse algum tipo de preparação ou fortalecimento da personalidade de Marina para enfrentar os desafios do mundo real. À medida em que a história foi se encaminhando para os seus momentos finais, percebi que tal não era o caso e a narrativa central se focava mais na quebra dos paradigmas da protagonista, em sua aceitação como um personagem importante para o desenlace entre ela e Leo e o consequente fechamento. O que eu posso tirar disso é que se trata de uma jornada de crescimento (sendo este um crescimento espiritual) de Marina e, secundariamente, de Madalena. 

"A loucura dos tempos de agora. Não é mais aquela loucura romântica, que levava a outras percepções... a loucura, hoje, é cinza e o pior: está glamourizada. A apatia é o rosto da nova onda."

Gostei demais da protagonista. Ela é uma personagem crível, com suas qualidades e defeitos. Colocar Marina com várias questões sentimentais a serem resolvidas é fundamental para a história caminhar. Suas dores são mais profundas do que simplesmente ela treinar para ser uma combatente. É muito mais complicado para ela acreditar que existe esperança. Alguns leitores vão reclamar de como ela é cabeça-dura em alguns momentos, mas vamos pensar que nós temos a visão do todo, como leitores que conhecem a narrativa completa. Se coloquem no lugar de Marina! Questionar tudo o que você conhece como real e tangível é difícil. Para mim, a autora soube lidar muito bem com este problema, porém eu achei que a narrativa ficou um pouco longa. Lá para uns 60 ou 70% da narrativa, quando elas se encontram do outro lado, a narrativa começa a ficar um pouco morosa e devagar. Eu entendo que são capítulos onde os paradigmas de Madá e Nina são quebrados, mas considero que eles poderiam ter sido encurtados em subseções menores. Isso sem prejudicar a mensagem que a autora queria passar. ​

Uma narrativa que explora várias formas de arte

A autora soube criar uma narrativa linda, a um estilo poético em diversos trechos. É uma narrativa calcada em terceira pessoa que no começo se foca em Nina, mas depois alterna entre Nina e Madá. Em vários momentos da narrativa somos colocados de belos poemas, histórias e danças. Faço ideia do trabalho que deve ter dado para compor os poemas e letras de músicas. Quem acha que as linhas foram colocadas por acaso, saibam que elas tem uma construção fina e repleta de musicalidade. Os versos possuem musicalidade, bastando ao leitor só encontrar o ritmo certo de acordo com a situação: se é uma música alegre, se é uma dança ao redor de uma fogueira, se é uma balada de amor. Isso demonstra que a autora teve um enorme cuidado com a escolha das palavras e em como elas afetariam a nossa forma de ler. 

Porém, preciso destacar que o ebook precisa de uma revisão. Não sei se quando a editora fez a formatação para o modelo da Amazon, ele bagunçou a edição, mas todas as palavras que possuem pronome oblíquo no final (as ênclises) perderam o traço. Como se tratou de algo que aconteceu na maior parte das situações, creio que seja um problema na transição de pdf para mobi. Fora que uma boa revisão textual sempre ajuda um texto a melhorar. Mas, no geral, eu gostei muito do texto da Cláudia. Flui bem, mesmo nos capítulos mais longos, e as expressões não são difíceis de serem compreendidas. Os leitores vão ficar mais interessados em compreender as grandes ideias postas pela autora, mas isso é parte da mágica do que ela deseja entregar na história. 

"Nunca acredite em alguém que te dê todas as respostas. Nem pessoa, nem lugar. Isso pode parecer confortável, mas é uma imensa armadilha."

Outro trecho que eu adorei na narrativa foi o combate de contação de histórias que tem mais para o final da narrativa. Aquilo foi muito bem construído, permitindo ao leitor compreender a magia por trás da formação de uma história. Entendam, quando um autor escreve uma narrativa, ele, de fato, está alterando a realidade ao seu redor. Ele está agindo como um pintor em uma tela onde pessoas nascem, vivem, morrem. Madá está ali sentindo toda a pressão por trás desse importante papel. Do outro lado, temos outra contadora de histórias desejando dar a sua versão do que quer contar. Quando duas formas contrárias de narrativa se chocam, o que vemos é aquilo. A grosso modo, é como uma batalha de repentes, onde o objetivo é deixar o lado adversário desarmado ao mesmo tempo em que cria uma narrativa verossímil. Naquele momento em especial, as palavras tinham vida e podiam curar ou ferir. Chegou a me deixar de cabelos em pé, tamanho o poder presente no trecho. 

Algo que me incomodou também na forma de escrita foi o excesso de diálogos. Veja bem, eu gosto de diálogos e eles funcionam para criar vínculos entre os personagens. Mas, há de se saber dosar o quanto eles vão entrar na narrativa e qual o objetivo por trás deles. Diálogos com poucas palavras entre os trechos de conversa acabam servindo muito mais para aumentar a quantidade de páginas do que chegar a algum lugar. Para isso, pequenos parágrafos descrevendo como os personagens se dirigem um ao outro funcionam melhor. Às vezes alguns diálogos se espraiavam por longos momentos até terminar em uma poesia ou música (que geralmente era a parte que eu curtia). Assim, é um método que acaba agindo em detrimento da beleza narrativa do que servindo propriamente a uma utilidade final. 

Fiquei sinceramente surpreso com o livro. Não conhecia a autora e o que me atraiu para o livro foi a sinopse que revelava um pouco de realismo mágico. E realmente é isso o que acontece: a magia está presente no livro como um meio para se obter um fim e não como um sistema-fim onde tudo funciona ao redor da magia. Com uma escrita poética e uma forma única de explorar dança, música e a arte de escrever, Cláudia Pucci nos encanta com uma história que certamente vai tocar o seu coração. Já estou à espera de novas narrativas da autora. 


Ficha Técnica:

Nome: Mistérios da Bússola Azul - O Despertar da Magia Autora: Cláudia Pucci Abrahão Editora: Presságio Gênero: Fantasia Número de Páginas; 454 Ano de Publicação: 2018

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*Material enviado em parceria com a Presságio Editora


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