• Paulo Vinicius

Resenha: "Distrito Federal" de Luiz Brás

Em um Brasil futurista e sem esperança, o último curupira busca vingança contra o fedor dos políticos corruptos. Ele inicia um ciclo de matança tentando acabar com essa doença da face da Terra. Não importa quantos ele precise matar.



Sinopse:


O novo livro de Luiz Bras é uma rapsódia pós-moderna e futurista sobre a política e os políticos brasileiros; sobre demagogia e corrupção, eleições fraudadas e impeachments; sobre ambições públicas, vícios particulares e os meandros insólitos de nossas instituições democráticas; enfim, sobre sociologia, História, teoria dos jogos e teoria do caos, utopias e distopias, cibercultura e realidade virtual, filosofia da linguagem, cultura de massas e cultura popular (folclore).

São de Teo Adorno as catorze gravuras tupinipunks que ilustram o romance.




Uma leitura desafiadora


Já mencionei algumas vezes que o papel de blogueiro às vezes é ingrato. Precisamos apresentar um livro e comentarmos os pontos fortes e as fragilidades. Mas, acima de tudo se o livro em questão vai ser apreciado ou não pelos leitores e o quanto vai agradar a determinado tipo de leitor. E aqui eu preciso separar a experiência do eu-leitor com a do eu-blogueiro. Distrito Federal é um livro sensacional. Daquele tipo de leitura necessária para todos nestes dias calamitosos de política corrupta. Mas, é um livro que vai agradar a poucos por inúmeros fatores. O eu-blogueiro tem certeza que esta pérola só será apreciada por pessoas críticas e que saibam ler nas entrelinhas. E que tenham consciência para estabelecer uma auto-crítica.


A narrativa é feita de uma forma bem original: em segunda pessoa com um protagonista que só vamos saber quem é lá no final da narrativa. O formato é quase como o de uma moldura com várias histórias se entrelaçando para formar um todo coeso. Temos a história do curupira, temos o saci, mais para a frente um menino-menina que é colocado como uma espécie de ceifador e que vai acelerar o processo iniciado pelo saci. Nos deparamos com uma escrita poética com emprego de repetições de trechos ou de subseções inteiras. Estas repetições servem a um propósito narrativo que varia de uma simples retomada narrativa até alguma progressão.


"Uma autoridade corrupta é um bacilo altamente ruinoso que precisa ser extirpado."

Talvez um dos grandes estranhamentos iniciais para o leitor é o emprego que Luiz Brás faz de parágrafos curtos de um período ou dois como se fossem enunciações. Em certos momentos parece uma série de manifestos acerca de vários temas. Corrupção em escalas diferentes, com diferentes classes sociais. Temos também o emprego de simbolismos frequentes tornando a leitura mais densa e cheia de camadas. É possível retirar um manancial de significados dos parágrafos que podem conter algo explícito ou nas entrelinhas. A narrativa não é contada de uma maneira linear; até porque a proposta é manter o estilo enunciativo até o final. O autor vai e volta nos diferentes núcleos. O que eu recomendo ao leitor no caso é seguir adiante. A escrita do autor é desafiadora e no começo a gente se perde e se pergunta aonde ele quer chegar. Isso faz parte de toda a experiência de leitura em Distrito Federal. Podem ficar tranquilos que lá por uns 30 ou 40% de leitura (passando do primeiro terço da história) as coisas vão começar a fazer sentido. E depois ele vai te dar outra rasteira e ele só vai explicar mais adiante. Esse processo de confusão e convergência se repete pelo menos umas três vezes.



"Como se defender do homem branco, da tecnologia bélica de seu admirável mundo velho?"

Um grito em prol da justiça


Entendemos logo de cara que o protagonista não suporta o cheio da corrupção. Aqueles que ele persegue para matar são referidos como possuidores de um odor mortal. Essa impressão olfativa está presente do primeiro momento até o final. E vemos que esse ato de perseguir pessoas corruptas adota um tom quase de vingança. Porém, após um certo acontecimento sua vingança deixa de ser pessoal para adotar um tom público. Seus assassinatos se tornam famosos e começam a ser divulgados por toda parte e inspiram pessoas a imitarem seus atos. Isso irrita o protagonista porque o que ele faz é algo "sagrado" em suas concepções enquanto outros apenas o fazem para ganhar platéia. A gente vê uma clara crítica à forma como a exposição transforma atos positivos em alguma coisa desprovida de essência. Esse momento de insight do protagonista me remeteu à trama principal do livro Reconhecimento de Padrões, escrito por William Gibson. Na narrativa, temos um vídeo que viraliza na internet e acaba chamando a atenção de grandes companhias. A missão da protagonista, Cayce Pollard, é caçar o responsável pelo vídeo para que a companhia possa copiar o método para criar nova campanhas. Aqui, Luiz Brás aprofunda mais esse tema ao nos colocar diante da futilidade da sociedade contemporânea. Esse questionamento chega ao protagonista de Distrito Federal quando ele fica em dúvida se o que ele realmente deseja é justiça ou ser ligado aos assassinatos.


Quando eu disse lá no começo que Distrito Federal é uma obra voltada para um público bem específico, disse no sentido de que ele traça inúmeras críticas sobre a corrupção no Brasil. Ele aborda desde o crime de colarinho branco até as pequenas corrupções do dia-a-dia. O povo alienado diante dos problemas é chamado de os "obtusos" (apesar de que o termo ganha uma conotação mais específica com a progressão narrativa). Esses obtusos são aqueles que sabem o que está acontecendo, mas preferem viver em suas individualidades. Dá para fazer uma autocrítica muito boa quanto aos "guerreiros das redes sociais". Aqueles que esbravejam, mas na hora da luta social nas ruas, não se movem de seus pequenos quartos. Aqueles que veem a corrupção acontecendo, mas preferem pensar apenas em seu próprio bem-estar. É o individualista, que não quer nada com o coletivo. Como lidar com os obtusos? Eles devem ser tão responsabilizados quanto aqueles que cometem corrupção? Isso é algo que não é apresentado no livro, mas o autor deixa para o leitor pensar no assunto.


"[...] o objetivo maior da pena de morte não é a diminuição da taxa de parricídios, infanticídios, homicídios.
Não é a diminuição da criminalidade.
Está claro que nos lugares em que a pena de morte foi instituída a criminalidade não diminuiu.
Esse é o argumento dos filhos da puta hipócritas contra a pena de morte."

As pequenas corrupções estão presentes na trama de uma personagem que surge no meio do livro (Moema) e no jogo digital Distrito Federal, onde os personagens ocupariam uma espécie de cargo político e a partir dali controlariam ou não os rumos dos personagens presentes no mundo virtual. A personagem surge como uma jogadora honesta e sem grandes habilidades, mas que, à medida em que vai se acostumando com a política interna, passa a mudar sua personalidade. O questionamento fica na própria concepção do poder como uma força capaz de corromper até o mais inocente. Pouco a pouco, Moema vai se apaixonando pelo alcance de seu poder e vai se tornando diferente de sua contraparte no mundo real. Até um ponto em que nem seu irmão a reconhece mais.


Outra boa crítica que temos no livro é o dos âncoras de telejornais e sua capacidade de influenciar a opinião popular. Ao apresentar uma notícia realmente violenta durante a transmissão de seu telejornal, o âncora começa a defender a pena de morte subitamente. Sua explosão acaba colocando-o fora de seu trabalho por alguns dias e até mesmo sua namorada ficou assustada com a maneira como ele se referiu aos culpados pelo crime. Temos duas questões de ordem aqui: é olho por olho, dente por dente? E no que diz respeito à opinião do âncora, ela aconteceu no calor do momento ou era algo que ele já pensava previamente? No segundo caso, vimos no ano passado um crescendo da intolerância de pensamento da parte de muitas pessoas que não imaginávamos ter esse tipo de opinião. Esse ultraconservadorismo, essa intolerância absurda já estava ali antes e não observávamos? O curioso é que Luiz Brás publicou esse livro em 2014 e já preconizava parte das nossas insatisfações em dias atuais.


"A sociedade é composta de duas grandes classes sociais: os que têm mais refeições do que apetite e os que têm mais apetite do que refeições."


O curupira e a perda do mundo natural


O desaparecimento de seres como o saci, o boitatá e diversos outros é colocado durante a narrativa. Parece existir uma espécie de batalha entre o mundo natural e o cinza das grandes cidades (não sei se é coincidência as gravuras presentes nos capítulos serem em preto e branco). O crescimento desses grandes amontoados de pessoas é um câncer para o mundo natural. A selva de pedra mata o colorido. E de certa forma isso acaba se revelando na maneira como o curupira se torna obcecado com sua missão, esquecendo de seus laços com o mundo natural. Em determinado momento, ele reflete o quanto ele está afastado do cerrado, seu lugar de origem.



A mensagem sobre o mundo natural também está na outra subseção da narrativa chamada Deus Ex Machina. Nesse pequeno trecho (que depois serve para convergir no clímax proposto pelo autor) temos um protagonista que alterna seu gênero. Elx é chamadx de menino-menina ou menina-menino. Lhe é atribuidx a busca por uma espécie de cubo repleto de informações. A ideia por trás desse cubo vai ser o catalisador para a destruição em massa que ocorre no terceiro ato.


"A corrupção moral é uma obra-prima, pintada, esculpida, versificada por uma sucessão de desastres e calamidades."

Nesse trecho ainda, Luiz Brás usa o verbo afogar que podemos associar ao desaparecimento dos indígenas em nossa sociedade contemporânea. Estes podem ser afogados de duas maneiras: pelo avanço selvagem da civilização, aculturando as tradições seculares das comunidades; e pela ação violenta de garimpeiros e forças de caráter miliciano. A nossa civilização "civilizou" tanto que eles acabaram se transformando em qualquer outra coisa que não os indígenas.


No terceiro trecho temos ainda mais uma boa brincadeira que eu quero mencionar antes de fechar esse texto. Brasília pulsa de vida e fede com o odor da corrupção. O protagonista se vê perdido entre a realidade de sua situação e a irrealidade de toda a conjuntura de seu mundo. A brincadeira está justamente no emprego da palavra real. Pode ser impressão minha, mas o autor pode ter feito uma tirada entre a palavra real (realidade) e a moeda brasileira real, mostrando os subornos feitos em Brasília.


"A coisa mais estranha com os humanos é sua tendência absurda de atribuir gênero a tudo o que nomeiam, dividindo todas as coisas em masculino & feminino."

Enfim, eu fiz ainda várias anotações sobre o trabalho do autor, mas prefiro deixar para que os leitores explorem a riqueza de significados presentes. Eu fiquei impactado positivamente porque parece o livro parece um grito por justiça nesse país. Ele ganha ainda mais significado nos dias atuais onde vivemos com essa expectativa de para onde vamos. A ficção científica é muito bem empregada por Luiz Brás para poder discutir temas pertinentes para os nossos dias. Sei que vou ver muitos reclamando quanto à enorme presença de política ou o próprio posicionamento do autor. A pergunta é: e daí? Isso tira o brilhantismo? A escrita no formato de rapsódia que me remete imediatamente à forma como a Ilíada ou a Odisséia foram compostas? Isso tira a habilidade de construir uma trama que vai e volta e converge para um ápice climático no final que subverte tudo o que o autor havia construído antes? Vivemos em um momento em que precisamos ser autocríticos o suficiente para levarmos numa boa os socos no estômago necessários para acordarmos para o que está em frente de nossos olhos. E o scifi pode ser essa ferramenta, como Luiz Brás nos mostrou aqui, e como outros como China Miéville também já nos mostraram. Não existe imparcialidade... existe arte, existem ideias e existimos nós. Se você, leitor, sentir que este livro é isso ou aquilo, não leia. Só que, sinto dizer, mas você vai perder uma escrita e uma narrativa sensacionais.


E agora, vem minha cruel tarefa de colocar uma avaliação no livro com base no que os leitores podem ou não encontrar.



Ficha Técnica:


Nome: Distrito Federal

Autor: Luiz Brás

Editora: Patuá

Gênero: Ficção Científica

Número de Páginas: 280

Ano de Publicação: 2014


Link de compra:

https://www.editorapatua.com.br/produto/10363/distrito-federal-de-luiz-bras


*Material enviado em parceria com a Editora Patuá


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