• Paulo Vinicius

Resenha: "Blacksad vol. 1 - Algum Lugar em meio às sombras" de Juan Dias Canales e Juanjo Guarnido

A morte de um antigo amor do passado, a atriz Natalia Wilfor, leva Blacksad a uma investigação que terá muito de pessoal. Isso o colocará na mira de um figurão que não medirá meios para silenciar seu crime.



Sinopse:


Neste livro somos apresentados ao protagonista da série, John Blacksad, um gato preto que trabalha como investigador particular. Em um cenário de filme noir dos anos 1950, esse detetive deve solucionar assassinatos misteriosos e enfrentar gângsteres perigosos.






Blacksad é aquele tipo de quadrinho que transborda estilo. Aquela trama detetivesca bem ao estilo noir, que parece saído de um livro do Dashiell Hammett. Onde o leitor consegue ser ofuscado pelas luzes de neon, pelo escritório sujo e pelas perseguições regadas a tiros por todos os lados. Aquele detetive que caminha na linha cinza entre a justiça e a violência. E que se envolve com um belo par de pernas. John Blacksad é tudo isso e muito mais. Pensar que a trama em si não é tão criativa ou brilhante, mas a forma como o autor consegue dar vida à história é o que a torna tão empolgante. Se você gosta de histórias sobre detetives e desse mundo do noir, esse é o quadrinho para você. Te aconselho até a colocar uma trilha de jazz enquanto lê. Ah, e os personagens são animais antropomorfizados. Mencionei isso? Não? Então. Mais criativo ainda.


John Blacksad é chamado pelo delegado Smirnov para ir reconhecer um cadáver na cena do crime. O nosso gato preto reconhece um amor de seu passado, Natalia Wilfor, uma atriz que ele trabalhou como guarda-costas por um tempo. Smirnov pede que ele se mantenha afastado do caso, mesmo tendo laços pessoais com a vítima. Mas, serão esses laços pessoais que darão a ele motivação suficiente para ir atrás do culpado. Isso o fará ter contato com a vida de fama e decadência de uma atriz que teve vários homens em sua vida. Enquanto alguns eram inofensivos, outros eram poderosos. E a vida de Blacksad começa a ficar em perigo já que ele não sabe de onde o próximo tiro poderá vir. Mas, ele está disposto a tudo para descobrir os culpados pela morte de Natália.


Canales nos entrega um roteiro digno de um filme noir. Simples, direto e eficiente. E serve como uma boa maneira para apresentar o protagonista, um detetive que antes era um guarda-costas e agora tenta resolver casos para sobreviver. As frases de Blacksad transbordam aquele cinismo tão intrigante nessa figura mítica que é a do detetive particular. O roteiro consegue manter o suspense sobre quem é o verdadeiro culpado, mudando de direção a todo o momento. Embora exista um chefão no fundo, o roteiro não diz com clareza se foi o próprio chefão quem cometeu o crime ou alguém próximo a ele. Isso é muito positivo para dar o ar de mistério e nós sejamos capazes de compreender o que de fato aconteceu e como Natália apareceu morta. Esse desviar de foco é tão comum em Dashiel Hammett e mesmo com um roteiro simples, sempre consegue trazer uma narrativa imersiva. Embora a narrativa se prenda especificamente ao caso, Canales consegue nos entregar muito sobre o mundo onde a narrativa acontece.



Os personagens antropomorfizados é o que nos chama a atenção. E eles ganham muita vida. A forma como os diálogos fornecem personalidade a eles é um atestado de como o roteiro foi bem pensado. Eles funcionam como seres humanos, mas mantém algumas de suas qualidades como animais como a furtiva cobra, o covarde sapo ou o guarda-costas rinoceronte. Ou seja, existe uma exploração destes dois lados na formação da personalidade dos personagens. Neste primeiro volume somos mais apresentados ao próprio Blacksad e como ele transformou uma situação do passado em algo a ser resolvido no presente. A combinação entre arte e roteiro é muito boa, e os personagens são bastante expressivos. Guarnido consegue implementar vida a estes personagens. Por exemplo, Blacksad fica bastante assustado quando acontece o primeiro atentado à sua vida. Ou a sua expressão de derrota após ser espancado por pessoas que o estavam perseguindo. Gostei demais de como isso fica facilmente demarcado na arte.


A ambientação também é muito boa. Canales cria uma cidade que tem vida e que se assemelha demais a Nova York. O roteiro ajuda a criar essa impressão e a arte fornece as cores que criam um clima melancólico aos lugares por onde o protagonista passa. A cena que se passa no Cypher Club é um resumo da proposta da HQ. Mesmo os personagens que se encontram no fundo da cena participam diretamente da sequência sejam reagindo a quem está na frente ou realizando suas próprias ações. Parece bobagem, mas isso torna a cena dinâmica e viva. O universo não gira em torno dos personagens da história; ele funciona de forma independente. Guarnido também faz uso de umas tomadas de câmera bem interessantes, principalmente nos momentos de perseguição ou de luta. É uma bela qualidade porque ele parece escolher sempre o melhor ângulo para um acontecimento. Por exemplo, após Blacksad ter se livrado de dois adversários ele deita em seu sofá com um cadáver morto ao seu lado. Guarnido poderia ter escolhido vários ângulos, mas ele preferiu escolher uma tomada de cima para baixo, fornecendo uma visão mais dramática do ocorrido.


O Quadrinho em 1 Quadro:



A arte de Guarnido também é muito bonita. Toda aquarelada, Guarnido usa uma palheta de cores mais escura de forma a combinar com o ambiente da história. Gosto de como ele escolhe as cores de forma específica para as cenas, mas mesmo assim consegue manter uma boa coesão entre cores e clima. Vejam também no quadro acima o que eu disse sobre a escolha correta dos ângulos de cena. Qualquer artista teria escolhido apresentar Blacksad de frente e com a escadaria ao fundo. Guarnido preferiu criar um ângulo que fornece dramaticidade ao apresentar uma longa escadaria de madeira com o protagonista de costas como se estivesse refletindo sobre as informações obtidas. Isso fornece todo um sentimento de melancolia e solidão ao momento específico. Ao mesmo tempo, Blacksad é bastante expressivo, sorrindo com falsidade para empregada tentando passar uma sensação de ser inofensivo. Tudo isso contribui para uma HQ que ilustra bem como a harmonia entre autor e artista é essencial para o sucesso de uma empreitada.


Blacksad é um excelente começo de uma série. A gente se interessa por um personagem que é dramático, inteligente e frágil quando o autor deixa transparecer. Tem as qualidades que tanto gostamos também das histórias de detetive e de investigação tão típicas do estilo noir de contar histórias. Espero poder continuar a trazer a vocês as histórias desse personagem tão interessante. E vejo vocês no volume 2!













Ficha Técnica:


Nome: Blacksad vol. 1 - Algum lugar em meio às sombras

Autor: Juan Diaz Canales

Artista: Juanjo Guarnido

Editora: SESI-SP Editora

Tradutor: Miguel del Castillo

Número de Páginas: 56

Ano de Publicação: 2017


Outros Volumes:




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