• Paulo Vinicius

Resenha: "A Lenda de Merlim - O Início" de Rodolfo Santullo e Jok

Nesta história conhecemos o começo da vida de Merlim, como um porqueiro criado por um camponês que descobre ter incríveis poderes mágicos. Ele é perseguido por poderes que o desejam morto de qualquer forma.


Sinopse:


O jovem Merlim está a ponto de descobrir seus extraordinários poderes que o converterão no mago mais poderoso da história. Conhecerá Hector, um jovem de reputação duvidosa com quem cirará fortes laços de amizade. Ambos enfrentarão os perigos dos sinistros metamorfos.






A história do famoso mago Merlim já foi contada inúmeras vezes ao lado do grande rei Artur Pendragon. Por ser baseado em lendas antigas não existe uma versão definitiva ou sequer histórica. Sem falar que não são muitas as histórias que se focam especificamente no mago em si. Isso permite oportunidades como a desse quadrinho de criar uma narrativa ficcional sobre os primeiros anos de sua vida, como ele descobriu seus poderes. Esta é uma história bem no comecinho ainda mostrando a descoberta de que Merlim tem um destino especial aguardando-o no futuro. E que ele será responsável por grandes feitos caso consiga permanecer vivo até lá. Explorar esse ponto de vista pode oferecer novas oportunidades para boas histórias e Santullo consegue entregar um material bem divertido. Meu alerta fica àqueles que desejam algo fiel ao mito arturiano; é preciso pensar que essa é uma releitura do mito e que Merlim sequer tem uma história pura.


Vivendo ao lado de um homem que o trata mal desde que ele se entende por gente, Merlim é um criador de porcos que vê sua vida sendo mudada para sempre quando sua casa é assaltada por um grupo de bandidos. Dentre eles está Héctor, um guerreiro que tenta sobreviver a custo de pequenos furtos. Ele acaba sendo pego por Merlim que começa a despertar estranhos poderes. Em seus sonhos ele é alertado de que é um ser de enorme poder e seu destino se liga ao da própria Bretanha e que ele será responsável por inúmeras mudanças no futuro. Só que ele será perseguido por forças malignas que desejam matá-lo a todo custo. Tudo o que ele precisa fazer é sobreviver até a vida adulta. Héctor e Merlim formam uma improvável amizade e decidem ajudar uma jovem que diz estar sendo perseguida por homens que desejam matá-la. Mas, essa jovem pode ser mais do que aparenta ser.

A narrativa de Santullo foca na formação do Merlim. Quem ele é, o que deseja, o que o move para frente. O autor tenta compreender como o personagem vai se tornar quem ele é no futuro. Para isso, é como se ele apertasse um botão de reset e colocasse os pés no chão. Nesse primeiro volume, somos apresentados a um novo elenco de personagens criados para atender às necessidades narrativas da edição. Seja a pessoa que o cria, o guerreiro que se torna seu amigo ou aquela que o apresenta ao mundo da magia. Vale destacar que Santullo coloca o personagem como um órfão ao qual nunca conheceu os pais. Aí temos uma aura de personagem que podem ser misteriosos ou representando algum antigo poder. Santullo não entrega ao certo, mas a maneira como os sonhos de Merlim colocam existe alguma coisa mais aí. Não temos nenhuma pista além das falas enigmáticas das Filhas da Lua. A história ainda é bem inicial e não consegui me engajar muito bem com ela. Sinto que falta um algo mais que a marque como uma narrativa a ser apreciada, seja um romance fantástico, seja uma história de capa e espada. A melhor expressão (e sem nenhuma forma pejorativa de falar) é que falta identidade ao quadrinho. Talvez mais alguns volumes forneçam esse corpo necessário.


A arte do Jok tem alguns detalhes bem sujos que são bastante característicos da arte latino-americana. Apesar de ter momentos mais claros, a opção dele é do emprego de uma palheta escura. Como podemos ver no quadro acima. Os personagens são bastante expressivos e o leitor pode conferir um protagonista sempre confuso e assustado, um Héctor mais malandro e camponeses amedrontados diante do desconhecido. Os fundos são meio desfocados e essa arte mais suja auxilia a nos mostrar as origens humildes do personagem. Confesso que a arte do Jok não me atrai tanto quanto em suas obras de ficção científica. Aqui ela parece estranha demais. Talvez com um estilo mais polido e voltado para a alta fantasia teria sido melhor do que uma abordagem mais sombria. Mas, é questão de preferência mesmo.

Outro ponto que me deixou um pouco confuso foi em relação à magia propriamente dita. Vemos o personagem usando algumas habilidades e os antagonistas que são seres místicos. Mas, o funcionamento da magia não é explicado corretamente. Ou pelo menos não consegui encontrar uma lógica per se. As cenas onde o personagem desperta suas habilidades são um pouco confusas. Me perdi tentando encontrar o que estava acontecendo. Por outro lado, achei legal a manutenção de uma abordagem mais voltada para as energias da natureza. Em algumas releituras do mito arturiano, Merlim é quase um ser ultrapoderoso com poderes quase olimpianos. Novamente o quadrinho sofre de um desenvolvimento maior. A gente consegue ver pequenas sementes sendo plantadas para volumes posteriores. Mas, analisando a edição em si, não funciona bem. Vai precisar de um pouco de paciência do leitor, aguardando novos desenvolvimentos. Na minha opinião, tem um caldo legal a ser explorado ali.


A amizade que se forma entre Héctor e Merlim é quase que um espelho do que virá a ser futuramente a dualidade entre Artur e Merlim. Claro que aqui temos duas pessoas com a mesma idade descobrindo o mundo lado a lado. Héctor funciona como o personagem que tem mais sagacidade enquanto que Merlim ainda é inocente demais. Sua criação simples e sofrida ainda é uma prisão para o sábio que ele virá a ser no futuro. Pareá-lo com um cara mais vivido, porém não tão velho foi uma boa sacada do autor porque os transforma em parceiros sem criar aquela relação entre aluno e mentor que muitas vezes é a relação entre Artur e Merlim. Sei que estou me repetindo entre os três personagens, mas é inevitável fazer essa comparação. No mais, a HQ deixou algumas perguntas a serem respondidas, que provavelmente serão retomadas em futuras edições. A história ainda precisa ser bem desenvolvida, sendo que encontrei muitos problemas aqui, seja na narrativa ainda inicial, seja na arte que precisa de um polimento maior para atender à temática proposta.












Ficha Técnica:


Nome: Merlim - O Início

Autor: Rodolfo Santullo

Artista: Jok

Editora: Avec

Tradutora: Larissa Medeiros

Número de Páginas: 66

Ano de Publicação: 2020


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*Material enviado em parceria com a Avec Editora









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