• Paulo Vinicius

Projeto "Cinco Livros para Viajar pelo Brasil"

Quer ter a oportunidade de conhecer os quatro cantos do Brasil através da literatura? Venham comigo e saibam como.



A Editora Nua, da autora Sabine Mendes, iniciou uma campanha no Catarse que vale muito a sua atenção. Decidi trazer a campanha sozinha até pela proposta inovadora e diferente do que temos apresentado por aqui. A editora fez uma seleção de várias originais com o objetivo de encontrar vozes que falassem sobre negritude, sobre religião e até desconstruindo um pouco sobre o que entendemos como gênero na literatura. O resultado disso foram cinco livros de autorxs inovadorxs e que conseguem atrair o público com uma boa escrita, uma narrativa ousada e personagens que vão chamar a atenção de todos.


Desvio, de fulô, traz contos em primeira, segunda e terceira pessoa direto de Natal, a partir dos recortes do sofrimento psíquico, da negritude e da mulheridade. Leia uma resenha aqui.


Para quem não conhece o estilo de segunda pessoa, a escrita se parece com uma aventura de RPG onde o leitor é trazido para dentro da história. As narrativas costumam tocar mais o leitor por ele estar na pele do narrador. É citado o trabalho da Chimamanda Adichie na descrição do livro, mas queria trazer outra autora que usa esse estilo de narrativa com precisão: N.K. Jemisin emprega a narração em segunda pessoa quando nos coloca na pele de Essun, na série A Terra Partida.


fulô, pseudônimo de Rosy Nascimento, escreve desde que se entende por gente, evidenciando nos seus textos a vivência de mulher negra e de pessoa com sofrimento psíquico. Publicou dois fanzines autorais: Vômitos Dos Meus Excessos (2016) e Soul Cactos (2017). Participa colaborativamente das antologias poéticas CidadElas (2017) e Blackout (2018). Potiguar, tem 22 anos, estuda audiovisual na Universidade Federal do Rio Grande do Norte e resiste em sua cidade, Natal, produzindo material literário e em audiovisual voltados para a negritude.



Pés na Terra e Cabeça na Lua, de Jéssica Ferreira, traz escrevivências poéticas centradas na afetividade da mulher negra, direto do Sarau Empretecer no ABC paulista. Ouça um poema. Dividido em três partes - Sem Título, Como construir um barracão e Sem Testemunhos -, o livro foi selecionado pelo edital da Feira Tijuana (SP) e reeditado em versão ampliada para publicação pela Editora Nua.


Uma temática sempre importante para ser discutida no Brasil, a negritude tem ganhado mais espaço nos últimos anos. Mas, é sempre preciso "invadir" outros espaços, trazendo a discussão para o nosso cotidiano. Algo que ainda abala as estruturas de nosso sociedade e do qual temos medo de discutir. Precisamos quebrar essas barreiras e expor a ferida aberta para podermos avançar como uma sociedade melhor.


Jéssica Ferreira é escritora, dramaturga em formação pela Escola Livre de Teatro e estudante de Políticas Públicas na Universidade Federal do ABC. Das diásporas diárias, durante seus 22 anos, Santo André é cenário e maré que desaguá seu inicio artístico no Sarau Empretecer, movimento o qual articula. É um dos oris potentes que compõe experiências do Narrativa Ori. Sua escrevivência poética tem como cerne a afetividade da mulher negra.



O Livro de Ontem, de dramaturgo paulista Lucas Cézar, trará experimentações cênicas ao redor de temas como as imposições de gênero, as relações familiares e a descoberta do amor, corporificadas como palavra viva.


A proposta de Lucas Cézar é extremamente importante porque ainda hoje boa parte das famílias sofrem com questões relativas ao ambiente doméstico. Seja a violência familiar, os abusos, os silêncios. São temas necessários e que precisam ser debatidos. Muitas crianças acabam entrando para o mundo do crime ou o das drogas por conta de situações terríveis que vivem dentro de suas casas. Não digo ser necessário expor o que acontece entre as quatro paredes das casas com clareza cristalina, mas julgo ser importante propor o tema e ver até onde estamos dispostos a conversar.


Lucas Cézar é paulista, virginiano e se apaixonou pelas palavras a partir da troca de cartas com sua mãe, Ângela. Produtor, fotógrafo, iluminador, ator e atravessado pela dramaturgia, tem 22 anos e é graduando de Artes Cênicas na PUC-Rio (mas ainda está aprendendo a usar vírgulas e concordar verbos). Seu livro traz experimentos cênicos que já passaram pelo FESTU e pela Mostra Bosque PUC-Rio, discutindo também questões de gênero.



A Coleção Atos em Cena - propõe livros que possam ser carregados para as salas de ensaio e de aula, em projeto gráfico que inclui espaço para notas e ilustrações de artistas que conversem com a obra. Em O Livro de Ontem, as ilustrações são da artista visual Livia Vreuls.


Propostas inovadoras precisam chegar até as escolas. Ser capaz de mexer um pouco com o que acontece em sala de aula até de forma a inspirar a expressão artística das crianças. Curti demais o projeto e já indico a todos. Tem tantas possibilidades nesse material que não sou capaz de pensar em todas. Só recomendar e muito.



#transvivo, de Juca Xavier, carioca residente em Florianópolis, é um relato poético sobre o processo de autodescoberta do autor como homem trans. Entre referências astrológicas e musicais, Juca retraça a trajetória de morte da sapatão e o encontro com o "menino no espelho". Leia uma resenha aqui.


Em um momento em que estamos quase passando por censura da parte de nossos governantes, discutir gênero é quase que a pauta do dia. Precisamos trazer esses assuntos para conscientizar a população da necessidade da reflexão sobre isso nas escolas, nas casas, nas ruas, em toda a parte. Tenho assistido alguns documentários sobre o assunto e me deparado com as dificuldades passadas por pessoas em processo de transformação: a não-aceitação, o preconceito, a indiferença, a violência.


Juca Xavier é uma pessoa trans. Atua como Cartomante, desenvolvendo um trabalho com Baralho Cigano. Parte de seus estudos envolve questões de gênero e misticismo, magia e oráculos. É apaixonado por literatura, sempre gostou de escrever e, recentemente, começou a se reconectar com seu lado artístico.



Filhos de Fé - histórias da terreira de minha avó, de Fernanda Gabriela, traz um dos raros relatos a serem publicados sobre a criação entre os preceitos da Umbanda Cruzada e do Batuque partindo do ponto de vista de uma cambona.


Muito bom trabalho e essencial para abrirmos nossa cabeça a respeito das religiões de matriz africana. Aqui onde eu trabalho, as religiões neopentecostais se espalharam por toda a parte e alguns integrantes do umbanda estão com dificuldades para realizar seus rituais. Isso porque eles são ameaçados a todo o momento por milicianos evangélicos que adentram em seus terreiros para cobrar que eles saiam dali. Portanto, um livro como Filhos de Fé pode servir para um processo de conscientização das pessoas quanto à diversidade religiosa.


Fernanda Gabriela, porto-alegrense de nascimento e esteiense de coração, é formada cientista social pela UFRGS. Filha de Iemanjá e Oxalá e afilhada de Iansã, cresceu na terreira de sua avó, Mãe Sílvia de Oxalá, e nas escolas onde sua mãe trabalhava como professora. Por florescer entre livros e ritos religiosos, a jovem de 25 anos busca compartilhar suas vivências religiosas por meio da escrita.



O projeto está recebendo apoios e vai até o dia 16/10/2019. Os apoios começam a partir de R$14,00, mas eu recomendo pegar o pacote completo, primeiro para conhecer estes trabalhos tão distintos, mas também para apoiar esse projeto inovador. O pacote completo está por R$130,00, mas se você quiser apenas uma combinação dos trabalhos pode apoiar com R$70,00.


Link do projeto





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