• Paulo Vinicius

Os gatos e seu papel na cultura oriental

Na matéria de hoje vamos falar de um dos animais mais amados do mundo: os gatos. Além de serem criaturas fofas, eles são relacionados a vários símbolos e religiões. No livro Gatos - Contos Fantásticos Orientais, veremos como estes lindos animais são representados e adorados. Ou temidos...


Os gatos estão entre os animais domésticos mais comuns hoje em lares pelo mundo inteiro. Se tornaram parte de nossas vidas. E não é estranho pensar nos felinos como seres repletos de mistérios e curiosidades. Seja sua inteligência, sua incrível habilidade de se adaptar a diversas circunstâncias. Até mesmo a lenda de que gatos possuem sete vidas. É curioso pensar como um simples e dócil animal pode ter tantas histórias que circundam sua existência. Gatos já foram usados como sacrifícios, já foram adorados como deuses (basta pensar em Bastet, uma deusa egípcia)... no Ocidente, eles são vistos como malandros e até meio malignos. Mas, na cultura oriental eles possuem todo um conjunto de outros significados. A Laboralivros organizou uma coletânea, cujos contos foram selecionados por Lua Bueno Cyriaco, contendo uma série de histórias oriundas da China, da Coreia e do Japão onde gatos estão presentes seja abençoando, ajudando ou amaldiçoando pessoas. Queria discutir alguns temas que chamaram a minha atenção entre os contos presentes.


Antes de mais nada quero destacar o valor da edição, que é a segunda coletânea neste formato pequeno e voltado para animais (o primeiro foi sobre raposas que terá uma matéria em breve). A edição é muito bonita e confeccionada segundo um modelo de formatação oriental, com amarração por cordas, um papel maravilhosamente suave e várias ilustrações. Preciso dizer o quanto adoro esse formato artesanal feito pela editora e sei o quanto ele deve ser trabalhoso. Fora que essa ideia de juntar contos através de eixos temáticos dá um trabalho danado, mas quero muito ver coletâneas com base em outros animais famosos no Oriente como os cachorros (Inus), os sapos (Kaerus) e, claro, os dragões (Ryus). A tradução está muito boa embora alguns leitores mais acadêmicos possam reclamar um pouco de um viés mais contemporâneo nos textos. Para mim, não me incomoda e acho até melhor que seja assim porque permite a pessoas leigas curtirem também o trabalho. Mas, entendo quem apontar como um "problema". No geral, o texto é ótimo, e houve até uma preocupação em manter o ritmo e a cadência da forma de contar histórias. É preciso lembrar que estes contos pertencem à tradição oral onde as histórias poderiam até ser cantadas ou entoadas. Mas, friso: que edição maravilhosa e tenho o prazer de ter sido um dos apoiadores e ter meu nome eternizado lá na lista de agradecimentos.


Posto isso, falemos de gatos. E devo destacar primeiramente que precisamos abandonar um pouco a ideia de bem e mal, de luz e escuridão. Isso é uma dicotomia comum até demais nos contos ocidentais. Só que no Oriente essa linha é mais turva. Pensemos, por exemplo, na ideia do yin/yang: o universo precisa ter um equilíbrio e tanto bem como mal são apenas facetas para uma vivência. O mesmo pode ser dito desses animais. Os gatos, vistos como seres que retiram a fortuna ou amaldiçoam alguém na cultura ocidental, podem assumir os dois lados da moeda no Oriente. Teremos histórias de seres realmente malignos como o gato-vampiro ou momentos em que os gatos nos ajudarão em momentos de necessidade. Ou até nos recompensarão por uma boa ação. Tudo depende da história e da época em que foi escrita.



Fato é também que estes animais vão se misturar também com a própria religião, podendo ser adorados como deidades. Uma das primeiras histórias da coletânea fala de como surgiu a imagem da estátua do gatinho dando a pata. Bastante curioso como uma simples história passada de região a região possa fazer parte da própria cultura japonesa. Ou da história do gato de nove caudas, que remete diretamente aos preceitos do budismo. O conto em si é bastante direto e nos mostra a narrativa por trás de como os gatos ganhariam mais e mais caudas com o avançar da idade e seu objetivo seria alcançar a imortalidade com o nascimento da nona cauda. Só que cada vez que eles ajudassem uma pessoa, perderiam uma cauda. E esse ciclo se repetiria, e repetiria e repetiria até eles se forem. Um dia, um desses gatos pediu uma dica para Buda sobre como eles conseguiriam obter a tão ansiada nona cauda. A lição de vida é fascinante. Remete diretamente a como o budismo destaca o ajudar os outros sem obter nada em troca; ao desapego. Uma história como essa é tão importante no mundo de hoje onde todas as coisas são baseadas em trocas de favores. Seja algo material, ou afetivo ou emocional. Todos nós, de alguma forma, estamos em busca da nossa nona cauda. Só não compreendemos adequadamente a mensagem de Buda.


É comum vermos histórias em que nossos amados felinos se comunicam conosco através dos sonhos. O aspecto onírico pode ser uma forma de fazer com que estes animais se comuniquem conosco. Apesar de que nos mitos orientais não há bem uma preocupação com o fato de os animais poderem ou não se comunicar. Eles podem falar em alguns dos contos. Mas, me espanta ainda como eles gostam de usar a comunicação através dos sonhos seja para fazer um pedido, entregar uma missão ou oferecer um conselho cautelar. Vem do Oriente essa nossa preocupação com o significado dos sonhos, algo que começou a ser fortemente explorado por Carl Jung a partir de seu contato com símbolos orientais.


Dois outros pontos que valem ser mencionados é a necessidade de construir templos para atenuar a raiva ou a tristeza pela morte de um gato e sua capacidade de metamorfose. No primeiro caso, entendo como um elemento que faz parte da tradição oriental para apaziguar um espírito. Ou até para indicar o caminho da iluminação. Em várias histórias, mesmo quando o gato é um ser maligno, ao final os personagens sempre constroem um templo para ele. Só um parênteses: não se trata de um templo grande como estamos acostumados no Ocidente, uma enorme estrutura com estátuas. Quando se menciona templo nessas histórias, se tratam de pequenos templos votivos como se fossem altares dedicados. É um tipo de estrutura bastante comum no Japão espalhado tanto no interior como nas cidades. A questão da metamorfose é bem comum em várias representações de animais na cultura oriental... acredito até que raposas tenham muito mais esse elemento de se transformarem em seres humanos dada a sua astúcia, característica muito alimentada nestas história. Mas, temos algumas histórias com o tema da metamorfose, com a peculiaridade do gato em questão desejar roubar o lugar da pessoa dona da aparência.



Quero destacar duas histórias. A primeira delas se chama O Gato Vampiro de Nabeshima. Nela, um gato assume o lugar de uma princesa e começa a absorver a energia vital daqueles que habitam a residência. E para quem acha que se trata de um conto da época vitoriana, está redondamente enganado. Ele pertence ao final do século XVI e nos mostra realmente um ser vampírico. Se o Drácula era um ser que se alimentava de sangue para roubar a energia vital de suas vítimas, o gato vampiro se alimenta de sua própria essência. É possível fazer esse paralelo numa boa. Outro fato também é a de que o ser só atacava à noite, depois que todos tivessem se recolhido. A criatura é simplesmente maligna e está em sua natureza atacar o ser humano para poder sobreviver. Cabe a um personagem com grande força de vontade a capacidade de derrotá-la. E esta virá a partir de algum tipo de sacrifício. Terá Bram Stoker tido algum contato com esse tipo de histórias? Quem sabe, certo?


O outro conto que gostaria de destacar é O Gato Dançarino. Uma história que vai nos ilustrar a malandragem, a esperteza e o espírito traquinas de um gato. Se trata de um estranho gato que começa a assombrar a casa de um casal de idosos. Ele fica dançando atrás de uma cortina de papel até que um dia ele rouba a tampa de uma xícara. O dono, que já estava incomodado com a presença do gato quase diariamente, passa a desejar eliminá-lo para todo o sempre. Mas, não será fácil acabar com o bichano. Primeiramente gosto de pensar nos gatos como esses seres meio malucos os quais você não sabe exatamente qual é o objetivo deles. Nos divertimos com o que eles aprontam, mas algumas de suas brincadeiras podem ser realmente macabras. Segundo, é que o tal do dançarino me lembrou muito o gato de Cheshire (das histórias de Alice no País das Maravilhas) que deseja tirar uma conosco. A situação em que ele é colocado, ele poderia ter saído a qualquer momento, mas preferiu brincar com o ser humano.


Enfim, gatos são realmente criaturas fascinantes. E histórias tradicionais como as apresentadas nesta coletânea nos ajudam a entender como diferentes culturas interpretaram as características desses bichinhos ao longo dos tempos. Ora vistos com temor, ora com adoração, a verdade é que os gatos são sempre criaturas misteriosas. E adoráveis também.


Livro citado:


Ficha Técnica:


Nome: Gatos - Contos Fantásticos Orientais

Organizado por Lua Bueno Cyríaco

Editora: Laboralivros

Gênero: Contos de Fadas

Tradutores: Lua Bueno Cyriaco, Luciana Mino, Victoria Toscani e Yu Pin Fang

Número de Páginas: 101

Ano de Publicação: 2021


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