• Paulo Vinicius

O shamisen e o som que toca as estrelas

Setsu Sawamura acabou de perder seu avô, aquele que o inspirou a aprender a tocar shamisen. Tudo o que ele deseja é replicar o som de seu avô, um instrumentista com uma técnica impecável e de improviso. Mas, Setsu vai percorrer um longo caminho em sua busca.



Para artistas, buscar a sua inspiração pode ser uma longa jornada. Algo que leva anos ou décadas até ser encontrada. Ou ela nunca ser encontrada e cada nova música ser um passo em direção ao destino final. Em Mashiro no Oto, vemos um jovem tocador de shamisen (um instrumento de cordas típico do Japão) em busca do som que ele tanto gostava de seu avô. Só que ele vai se perder muitas e muitas vezes em seu caminho, e seus sentimentos irão se balançar por causa disso. A cada novo encontro, a cada nova situação, ele vai perceber que apenas acalmando o seu espírito interior e vivendo novas experiências é que ele vai ser capaz de encontrar sua inspiração. Afinal, música é criatividade, é emoção, é transpiração.


Mashiro no Oto, ou Those Snow White Notes, é um anime que estreou em abril de 2021 e possui uma previsão de doze episódios até o momento. Ele é baseado em um mangá escrito por Marimo Ragawa que está em publicação desde 2009 e possui 27 volumes até o momento. É publicado na Monthly Shounen Magazine e sua demografia é shounen. Ou seja, para aqueles preocupados se existe material ou não para novas temporadas, tem bastante até. A adaptação do anime ficou a cargo do studio Shin-Ei Animation (responsável por Takagi, a Mestra das Pegadinhas e Doraemon), com a direção ficando com Hiroaki Akagi (Takagi, a Mestra das Pegadinhas) e a adaptação do roteiro com Kan'ichi Kato (Tsugumomo e a segunda temporada de Takagi, a Mestra das Pegadinhas). No quesito animação, a série não deixa de apresentar bons visuais ao longo da série, com um design decente de personagens e boas tomadas de cenário. Apenas as cenas em que são imaginadas situações fantasiosas com base nos acordes das músicas é que vemos uma exigência maior, mas nada que seja tão absurdo. Na maior parte, a série se passa em um ambiente colegial, então os cenários são simplificados. Fiquei preocupado foi com a direção sonora, e pesquisando um pouco descobri que os Yoshida Brothers ficaram responsáveis pela supervisão das músicas em tsugaru-shamisen. Os irmãos são instrumentistas tradicionais que lançaram alguns álbuns pela Domo Records. Para quem está preocupado com a parte sonora, pode ir na fé. O anime tem uma trilha sonora de altíssimo nível e já tem uns vídeos no Youtube com algumas das canções ou soundtracks do anime.


O protagonista é o neto de um instrumentista de shamisen chamado Sawamura Setsu. Seu avô Matsugoro fez uma fama entre algumas regiões sendo especialista nas músicas de improviso e no jongara. Matsugoro era famoso por sua incrível habilidade no dedilhado e na criação de músicas baseadas nas tradições japonesas. Setsu passou a amar o shamisen por causa desse contato com o avô. Quando seu avô faleceu, ele ficou perdido porque queria voltar a escutar o som dele. Então passou a se aprimorar no shamisen de forma a emular o som de seu avô. Percebendo não mais ser possível permanecer em sua casa em Aomori e necessitando aprimorar seus conhecimentos, Setsu parte para Tokyo em busca de novos ares. Em busca de um lugar para ficar, Setsu conhece Yuna, uma garota vivendo um dilema em sua vida. Ela trabalha duro e tem seu dinheiro tomado pelo seu namorado, um vocalista de uma banda de rock, mas completamente sem futuro. Quando Setsu e o namorado de Yuna se estranham próximo a um show, Setsu acaba abrindo o show e mostrando, pela primeira vez, o som de seu shamisen em público. Isso atrai a atenção de muitas pessoas, principalmente de sua mãe Umeko que há anos não o via por causa de seu trabalho como atriz. Umeko leva Setsu até uma hospedaria depois que Yuna vai embora após se separar de seu namorado. A partir daí, Setsu vai frequentar uma escola onde conhecerá um clube de apreciação de shamisen... Bem, parece que ele vai se arrastado de alguma forma para lá, mesmo contra a sua vontade.



Estamos diante de um personagem em uma encruzilhada criativa. Por ser alguém cuja música é influenciada pelos seus sentimentos, Setsu não consegue tocar o seu instrumento de forma satisfatória. Segundo seus pares, sua música não tem alma. E isso é devido a essa busca quase obsessiva pelo som de seu avô. Todo o primeiro arco de histórias é baseado nisso. Logo no segundo episódio quando ele encontra Umeko, sua mãe lhe diz que apesar de seu avô ser um instrumentista formidável, ele era único na Terra. Não é possível copiar a sua técnica. Mashogoro era um homem que possuía sentimentos e influências as quais Setsu não possui ainda ou nunca as terá. A gente descobre que Mashogoro trabalhava como instrumentista itinerante e que tinha o seu ganha-pão tocando de cidade em cidade, às vezes por um pedaço de pão. Foi um homem que viveu em uma época mais dura e difícil. Setsu precisa encontrar o seu próprio som, as suas próprias inspirações. O contato com seu avô pode servir como base, mas o seu desenvolvimento e amadurecimento são coisas que ele precisará desenvolver por si só. E ele tem um enorme talento para isso.


Tem um momento do anime que é emblemático desse problema de Setsu. Uma das colegas de Setsu em sua nova escola é a responsável pela criação do clube de apreciação de shamisen. Seu nome é Shuri. O amor pelo shamisen vem do contato com a sua avó. Ela já está em uma idade avançada, mas gosta de compartilhar com sua neta uma ocasião especial em que conheceu um instrumentista itinerante que tocou uma música em shamisen que foi inesquecível em sua vida. Algo que tocou profundamente o seu coração. Oras, esse músico era Mashogoro. A avó tenta cantar as notas para sua neta entender a beleza da canção, mas a cada ano que passa fica mais difícil acessar a memória. Um dos últimos desejos dela é ouvir uma vez mais essa canção. Shuri então toma para si a tarefa de aprender a tocar shamisen e procurar realizar o desejo de sua querida avó. Mas, ela se vê não tendo o talento suficiente para isso. Quando ela conhece Setsu e conta a história do motivo da criação do clube, ele fica tocado pelo impacto que a música de seu avô teve na vida de uma pessoa. Depois de muito relutar, decide tentar tocar a música de Mashogoro para a avó de Shuri, mesmo sabendo que ele irá falhar. O resultado é bonito, mas também diferente do som improvisado de seu avô. Como um comentário, a avó de Shuri diz que o som de Setsu é bonito por outros motivos que não se parecer com o som de Mashogoro.


Setsu é uma pessoa extremamente difícil de se lidar. Não é um protagonista fofinho e engraçadinho como estamos acostumados a ver. Introspectivo e até meio rude em algumas de suas respostas, ele tem um gênio criativo forte. A maneira como ele se comunica com os outros também é facilmente mal interpretada, e é algo que acontece em várias ocasiões. Primeiro porque ele reluta em participar de um clube de shamisen que acaba se voltando para participar de competições juvenis. Não é algo que ele enxerga como importante para o seu desenvolvimento como músico. Segundo porque ele precisa participar também de uma categoria em equipe, e ele não sabe se relacionar com grupos. Principalmente porque ele não aprendeu shamisen de uma maneira tradicional. Setsu apenas copiou os conhecimentos de Mashogoro, não podendo ser exatamente um professor. Sua dificuldade em se comunicar eleva o problema a outro nível. Ou seja, conviver com Setsu se torna um desafio e algo que é legal porque não apenas o protagonista precisa aprender a dosar o seu gênio difícil, mas os colegas precisam aprender como conviver com uma pessoa tão estranha. Ou seja, a série não adapta o protagonista aos coadjuvantes, como normalmente acontece com personagens com problemas de personalidade. Ao contrário: são os dois lados que precisam encontrar um equilíbrio, muito como a música do próprio shamisen.



Se posso falar de animes que eu mais gostei nessa temporada, Mashiro no Oto é daqueles que assisto na hora em que sai. Não espero muito e sempre é um prazer enorme assistir. Me delicio com a trilha sonora maravilhosa apresentada. Já gostava do som de shamisen de alguns outros lugares onde já devo ter ouvido, mas agora aprendi a apreciar ainda mais. Toda a busca do protagonista pela sua inspiração e a necessidade que ele tem de se abrir para o mundo na forma do contato com os seus colegas são temas não tão revolucionários, mas que quando bem executados são capazes de nos trazer verdadeiras obras de arte. Se eu indico? Minha pergunta é por que você não está assistindo ainda. Ele está disponível na Crunchyroll.




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