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  • Foto do escritorPaulo Vinicius

O Santo e a Porca: uma comédia da avareza

Euricão tem uma porca em casa. Uma porca que ele trata com tanto carinho, mais até do que a sua filha ou sua irmã. Mas, o pedido de casamento de Eudoro vai criar um dia maluco na casa do nosso protagonista onde a avareza dele será levada ao limite.


"O que eu procuro atingir, portanto, é, se não a verdade do mundo, a verdade do meu mundo, afinal, inapreensível em sua totalidade, mas mesmo assim, ou por isso mesmo, tentador e belo, com seu sol luminoso e selvagem, tão selvagem que não podemos vê-lo. Procuro me aproximar dele com as histórias, os mitos, os personagens, as cabras, as pedras, o planalto seco e frio de minha região parda, pedregosa e empoeirada. Esta visão ardente - grosseira e harmoniosa, ao mesmo tempo - o cerne para onde se dirige meu trabalho de escritor. Admito, a exemplo do que acontece com o público e com a arte popular de minha região - o mamulengo, o romanceiro -, a mentira geral do teatro para que isso me possibilite comunicar aos outros, na medida de minhas forças, a substância desse mundo. Nunca o teatro conseguirá reproduzir a vida, que se reinventa a cada instante."

(Ariano Suassuna)




Mais um livro do nosso projeto Ariano Suassuna. Esse eu não pude colocar em nossas resenhas por não ter nem um pingo de elemento fantástico na narrativa. Se bem que se a gente forçar um pouco a barra, podemos entender que a figura de Santo Antônio pode ser entendida como o marco fantástico da história. Não que ele apareça, mas ele acaba guiando as ações de Euricão à distância. Mas, enfim, O Santo e a Porca é a mostra do humor sempre preciso de Suassuna, com situações pastelão e hilárias ao mesmo tempo.


A situação é simples: Eurico, mais conhecido como Euricão Engole-Cobra vai receber a visita de Eudoro, um fazendeiro local, aparentemente com muitos recursos. Ele vem pedir a mão de sua filha, Margarida em casamento. Apesar de ser muito mais nova do que ele, Eudoro se afeiçoou à menina que havia passado algumas semanas lá. Mas, Margarida é apaixonada por Dodó, filho de Eudoro que fugiu de casa e se finge de corcunda e horrível para estar junto de sua amada. Há muitos anos atrás, Eudoro tentou se casar com Benona, irmã de Eurico, mas as circunstâncias acabaram prejudicando o compromisso. No meio disso tudo, Caroba, empregada de Eurico, tenta ajudar Margarida e Benona a alcançar o amor. Toda essa situação maluca vai esbarrar na avareza de Eurico, que não quer que Eudoro vá visitá-los porque isso significaria preparar um jantar e deixá-lo dormir em sua casa, o que "gastaria muito dinheiro" segundo ele.


"Ai, a crise" Ai, a carestia! Santo Antônio me proteja! Ai, a crise! Ai, a carestia!"

Novamente estamos nos deparando com uma peça de teatro de Suassuna, uma peça que se passa inteiramente em uma casa onde as coisas se sucedem umas às outras. O autor se baseou em uma comédia de Plauto, um dramaturgo latino (A Comédia das Panelas) e adaptou a um cenário tipicamente nordestino. Assim como o Auto da Compadecida, O Santo e a Porca é um texto bem atemporal, podendo ser adaptado a qualquer cenário em qualquer temporalidade. Os temas também são simples, sendo o amor, o ciúme e a avareza. O texto é bem fácil de ser compreendido, apesar do regionalismo forte presente. A peça é dividida em três atos, sendo o primeiro a apresentação do problema, o segundo as complicações que se empilham umas após as outras e no terceiro acontece o clímax e o fechamento da história. Esta não se pretende aplicar uma lição de moral, mas esta é clara de ser apreendida a partir de um protagonista que não é nem um pouco empático.

Eurico é um personagem bem ruim de nos identificarmos. E eu até compreendo que a intenção de Suassuna não era a identificação, mas a caricatura para provocar a crítica. Ele acaba extrapolando a noção de avareza do personagem para provocar o afastamento do leitor. As situações apresentadas pelo autor vão demonstrando a mesquinhez do personagem que vai se mostrando cada vez mais problemático. Por exemplo, ele se recusa terminantemente a preparar um jantar para Eudoro, mas quando Caroba menciona que ele poderia pedir um dote a ele de 20 contos, ele muda de ideia de repente. O personagem valoriza demais os bens materiais e aos poucos isso vai subindo de tom até chegar àquele final. Está na cara que a situação com Eurico não iria acabar bem. O que mais me encantou na história é em o quanto Suassuna conseguiu transformar o protagonista em alguém caricato sem parecer besta. O ser um avarento forçado conseguiu dar mais humor à história e cada vez que o personagem aparecia, a gente já sabia que algo engraçado iria acontecer. Mas, ao mesmo tempo é aquele humor ácido que a gente não deveria estar rindo, mas que é engraçado. No fim, o comportamento de Eurico nos provoca uma reflexão sobre o quanto bens materiais são mais importantes ou não do que simplesmente pessoas.


As confusões entre os casais também dão um ótimo ritmo para a leitura. Vou começar com Eudoro e Benona que são os menos trabalhados. Eu queria saber como deu errado o relacionamento entre os dois, mas como se trata de uma peça e não de uma narrativa em prosa, fica difícil trabalhar um flashback. No entanto, Suassuna deixa bem claro a relação entre ambos. Só seria uma pitadinha maior de drama a esta situação. Os dois são vítimas simplesmente de uma sociedade que espera demais das pessoas e onde as aparências acabam se sobrepondo aos sentimentos. É uma boa crítica de Suassuna a uma forma torta de lidar com duas pessoas que se gostam. A gente percebe no meio do segundo ato que quando Benona se apresenta disponível para se casar com Eudoro, ele se recusa mais porque deu sua palavra à Eurico de que se casaria com Margarida (ou pelo menos na mente de Eudoro era assim já que Eurico pensava outra coisa).


A situação entre Margarida e Dodó vai pelo mesmo caminho das aparências. Dodó precisa fugir de casa para tentar estar junto de sua amada. Eles precisam inventar um plano mirabolante para que os dois consigam convencer Eurico a dar a mão de sua filha para Dodó. Isso mesmo Eurico pensando que o namorado era apenas um homem feio, pobre e corcunda. O que acaba contribuindo para que os dois acabem juntos é a própria avareza de Eurico. Durante a narrativa, o protagonista acaba focando toda a sua atenção em proteger a sua porca, eventual herança de sua família, mas que sabemos esconder algum segredo do qual ele não revela. Focar na porca tirou sua atenção em relação àqueles que o cercam. Quando ele se tocar do que realmente aconteceu é meio tarde para tentar algo.


Desde o começo a gente vai sentindo que o final não vai ser algo legal. Durante a narrativa o leitor vai criando esperanças de que haja algum tipo de mudança na índole do protagonista. Suassuna dá um ar bem leve à narrativa o que cria falsas expectativas para nós. Mas, logo vamos nos dando conta de que não é nesse ponto que ele quer tocar, mas provocar uma profunda reflexão em quem está assistindo. E sim, o final é bem melancólico mesmo. O plot twist da história é a própria ausência de um plot twist. No fim, O Santo e a Porca é uma leitura divertida quando precisa ser e reflexiva quando se propõe a provocar o leitor a fazer. Só tenho a curtir cada vez mais a escrita mágica de Suassuna que me encanta a cada novo livro lido ou relido.



Livro citado:



Ficha Técnica:


Nome: O Santo e a Porca

Autor: Ariano Suassuna

Editora: Nova Fronteira

Gênero: Comédia/Teatro

Número de Páginas: 224

Ano de Publicação: 2017 (nova edição)


Link de compra:







Sinopse: Escrita em novembro de 1957, O Santo e a Porca retoma um tema clássico com uma roupagem original: não apresenta o vício da avareza apenas pelo que nele há de risível, a exemplo do que fizeram Plauto e Molière, mas, também, do por seu aspecto doloroso, tomando o ponto de vista de quem o possui.




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