• Paulo Vinicius

O que esperar do mercado editorial brasileiro em 2019?

Entramos em um ano que carrega ainda muitos problemas deixados no turbulento 2018 que se passou. Como será 2019 para os leitores de fantasia e ficção científica? Como as editoras vão superar a crise? 

O ano de 2019 se iniciou oficialmente. O mês de janeiro é considerado um mês de férias (não só no Brasil) e as editoras começam a montar seus cronogramas divulgando teasers de lançamentos futuros e criando hype nos leitores. Mas, não se viu nada disso nas últimas semanas. Ainda no esteio de um 2018 caótico marcado por uma crise sem precedentes no mercado editorial, o que podemos esperar? Isso lembrando que literatura de gênero não é considerada vendável no Brasil. Vou tentar colocar alguns pontos nos parágrafos a seguir para refletirmos sobre os nossos amados livros. 

Antes de mais nada, vou ser bem realista a respeito disso: não teremos tantos lançamentos esse ano. Não esperem nada espetacular sendo lançado e muitas editoras preferindo manobras seguras de forma a ter aquele lucro garantido. Com isso, vem o problema de fantasia e ficção científica serem gêneros que não vendem dentro dos grandes selos. A maior parte das editoras que devem lançar bons títulos em 2019 são editoras de nicho e mesmo estas vão preferir agir com cautela. A maior parte delas teve enormes prejuízos no ano que se passou e não possuem mais o mesmo poder aquisitivo que antes ou até a possibilidade de poder blefar em um título desconhecido. Prova disso é a editora Suma tendo enviado a todos os que assinam sua newsletter (assine a newsletter da Suma por este link aqui) ter informado aos seus leitores que seus lançamentos serão minguados. Eles foram muito honestos e explicaram os motivos para tal. Vamos pensar que não estamos falando de qualquer editora de pequeno porte e sim de um dos maiores grupos editoriais do país. Se eles estão assim, imaginem os outros. 

O desaparecimento de pontos de venda também será um enorme obstáculo para as editoras. A Saraiva retornou às atividades, mas é considerada como não confiável pelas editoras. Como confiar em uma empresa que ficou meses sem pagar editoras e buscou um acordo judicial em que prejudicava ainda mais as mesmas editoras? Com isso, os pontos de venda foram drasticamente reduzidos e apesar do que muitos pensam, a venda direta ainda é responsável pela maior fatia do bolo. Amazon ainda representa menos de 15% das vendas. Claro, a tendência disso é mudar até porque a filial brasileira da empresa já se mostrou aberta a negociações com editoras oferecendo facilidades e exigindo exclusividades. Uma manobra óbvia se aproveitando da fragilidade dos grandes marketstores. A gente percebe um tímido avanço de outras empresas como a Livrarias Curitiba e a Livraria Leitura que adquiriram alguns pontos de venda deixados para trás pela Cultura, pela FNAC e pela Saraiva. É óbvio que se eu tenho menos pontos de venda, isso prejudica o meu cronograma de lançamentos. Aonde colocar o excedente de livros impressos na gráfica? As editoras nunca haviam se preocupado necessariamente com a logística de estoque que ficava mais a cargo das livrarias. 

Em consequência disso, algumas editoras optaram pela venda direta. Se eu tenho que me livrar do estoque, por que não reduzir intermediários? É uma solução lógica, mas vem carregada de problemas no esteio. A editora vai precisar criar sua própria loja virtual e designar um departamento ou uma pequena equipe para cuidar disso. Isso demanda dinheiro e recursos. Além disso, como competir com um tubarão com a Amazon? Mesmo a editora colocando seus livros a preço de capa, a Amazon adora fazer um dumping, ou seja, reduzir preços de livros a tal ponto que ela se gaba de poder ter prejuízo de forma a destruir a concorrência. E ela pode ter prejuízo por quanto tempo desejar. Para aliviar um pouco do poder da Amazon, as editoras tem buscado criar iniciativas como a venda de posteres e outros mimos especiais junto aos livros. Funciona até certo ponto. 

Algumas editoras optaram por soluções mais criativas e fora da caixa. Por exemplo, a Intrínseca criou o Intrínsecos, a sua própria caixa-surpresa inspirada nos já existentes Tag Experiências Literárias, Turista Literário e Skoob Mystery Box. As edições que vem na caixa do Intrínsecos são de futuros lançamentos da editora só que em uma embalagem mais luxuosa e especial para os assinantes. O consumidor comum não vai deixar de poder comprar o que for lançado no Intrínsecos, mas quem é assinante recebe uma edição diferenciada. Para os colecionistas e fãs mais ardorosos é algo que desperta a atenção. Com isso, a editora consegue um lucro garantido todos os meses a um preço de capa fechado. Se você ficou interessado na proposta, clique aqui. 

Outras editoras tem buscado o financiamento coletivo para veicular alguns materiais mais difíceis de chegarem ao mercado. Há defensores e críticos dessa ideia. Plataformas como o Catarse surgiram para dar espaço a autores independentes que jamais teriam uma oportunidade de serem publicados por editoras. Através de uma proposta honesta e de uma relação mais próxima com o público, eles conseguiriam financiar seus sonhos. Quando editoras passam a usar dessa plataforma, elas tiram o foco desses autores independentes para uma publicação mais cara e que talvez a editora pudesse de fato financiar (o medo seria que o produto não vendesse). Os defensores alegam que editoras pequenas podem usar desse mecanismo para entregarem materiais mais diversos. Ou até dar oportunidade para trabalhos mais arriscados e cujos reais criadores não sejam de conhecimento do público. Claro que há formas e formas de se fazer isso. A Editora Mythos fez uma campanha recentemente para republicar uma antiga HQ de Milo Manara no Brasil em uma edição luxuosa. Pediram um valor elevado e as recompensas eram bem medianas. O resultado disso é que a campanha sofreu críticas severas e naufragou. Um exemplo positivo é o da Avec Editora que age como uma mecenas fornecendo o papel de revisora, editora e topando publicar os trabalhos sob o seu guarda-chuva. Não é exatamente a editora quem faz a campanha, mas ela ajuda a divulgar e a facilitar o trabalho do autor. Assim foi com trabalhos como Born Cartolla, Silas e Isaac D. 

Claro que o financiamento coletivo pode ser usado com propósitos mais ousados. Está aí a editora Aleph provando que é possível sonhar e dar voos mais altos. Mas, não pensem que isso será via de regra. 2001, Uma Odisseia no Espaço é um título cultuado e bem diferente do padrão. A campanha foi um marco ao demonstrar que boa divulgação e boa proposta produzem um resultado satisfatório. 

Minha visão é de que o primeiro semestre de 2019 será bem fraco. Talvez o mais fraco da última década. Salvo alguns títulos interessantes aqui e ali, não haverá grandes títulos. Minha expectativa está no trio editora Aleph, editora Morro Branco e editora Planeta que possuem propostas bem fora da caixa dentro do mercado editorial. As três possuem um plano, uma visão daquilo que desejam para si. E está cada vez mais claro que editoras que não direcionem seus objetivos vão passar por maus bocados. Estão aí casos como a Leya que aparentemente regrediram alguns anos e voltaram a enfurecer seus fãs. Esta relação entre fãs e editora vai se tornar mais próxima e importante para o desenvolvimento da mesma. 

Espero não ter desanimado as pessoas. Mas, é preciso ser realista com as coisas. Não vivemos um bom momento político-econômico, a maior parte dos leitores teve seu poder aquisitivo reduzido e novos leitores não tem sido formados. Não há hoje uma política pública voltada para a cultura; incentivo à leitura é uma utopia. Eu trabalho com incentivo à leitura, porém hoje sei que sou uma voz dissonante dentro do meu espaço social. O Ficções Humanas ainda é um projeto muito pequeno para causar qualquer tipo de impacto. Tenho buscado hoje conscientizar os colegas blogueiros que precisamos agir mais como uma frente unida do que com rivalidades bobas. Sempre considerei o Ficções um espaço aberto a todos que desejarem. Até porque mesmo as editoras não nos consideram ainda um espaço a investir parceria (nesse sentido eu sou bem honesto.... somos pequenos mesmo). A minha visão é a de que é preciso investir em novos leitores e novas formas de divulgação literária. Não dá mais para ficar apenas na metralhadora de resenhas que é um dos métodos mais empregados através de parcerias. É buscar criar links com o mundo real, é trazer o leitor para entender o que existe além da leitura e instigar não-leitores a dar uma oportunidade. 

"A literatura é libertadora."

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