• Paulo Vinicius

O legado do cavaleiro negro

Essa semana ficamos estarrecidos com a morte de Kentaro Miura, o criador de um dos mangás mais cultuados no mundo inteiro, Berserk. Nessa postagem, vamos falar sobre a importância e a influência de um dos mangakas mais controversos e talentosos do Japão.



Nesta última semana fomos surpreendidos com a morte de Kentaro Miura, aos 54 anos, vítima de uma dissecção aórtica. Miura havia se tornado mais recluso nos últimos anos, aparecendo em raras entrevistas e se dedicando ao seu trabalho mais famoso, Berserk. Sua morte foi sentida tanto por fãs de Berserk como por colegas autores que fizeram uma série de homenagens ao autor nos últimos dias. Sua série Berserk tem quase 30 anos de serialização tendo se iniciado em 1989 quando foi publicada na Monthly Animal House. Cercada de controvérsias, o mangá angariou fãs ardorosos com a belíssima arte de Miura e críticos ferrenhos com a violência brutal da narrativa. Ame-o ou odeie-o, Miura influenciou vários mangakás que vieram depois dele. Queria discutir um pouco o que ele nos deixa como legado e como reflexão.


Antes de me focar na matéria em si, quero tirar o elefante da sala. Acho de uma falta de respeito imensa pensarmos horas após a divulgação da morte do autor, se o mangá vai ou não ficar completo. É irrelevante isso diante de uma carreira tão brilhante como a do Miura. O autor é um daqueles gênios que nascem a cada século. Melhor do que pensarmos se sua obra vai ou não ficar completa, é celebrarmos sua vida e obra. Nesse mundo capitalista louco, é óbvio que o destino do mangá será resolvido em pouco tempo. Por isso chamo de irrelevante e desrespeitoso.


Falamos da influência deixada por Miura, mas é importante destacar quem o influenciou também. Desde muito novo ele gostava de desenhar mangás, e chegou a publicar obras para concursos escolares. Em 1984, ele se tornou assistente de um dos mangakás mais prolíficos do Japão, George Morikawa, autor de Hajime no Ippo (um dos mangás mais longos da história, com mais de cem volumes publicados). Morikawa rapidamente percebeu o talento de Miura e o dispensou um ano depois. A partir daí, ele buscou aprimorar sua técnica se matriculando em uma faculdade de arte e anos mais tarde fez um trabalho ao lado de Buronson (autor de Hokuto no Ken) chamado Japan. Em 1992, iniciou-se o famoso arco da Era de Ouro de Berserk que elevou Miura e deu fama ao mangá. A partir de então o que vimos foi o autor melhorando cada vez mais até se tornar o que ele é hoje.


O foco da arte do Miura é no detalhamento de seus personagens, em passar emoção às cenas. Berserk é um mangá bastante cerebral sim, mas suas cenas ação são celebradas como algumas das melhores do gênero. Se eu fosse pensar em mangakás em atividade, talvez somente Takehiko Inoue consiga produzir algo superior ao que Miura colocava em suas páginas. E isso porque são dois autores que possuem abordagens bastante distintas em relação ao processo artístico. Penso no Inoue mais como um artista tradicional e que caminha por um estilo poético enquanto Miura aposta mais no sombrio, no sujo e detalhado. Alguns apelidam Miura como o seu personagem mais famoso, o espadachim Guts, como o Cavaleiro Negro. Eu chamaria de o Poeta da Violência. As sequências de luta de Guts contra demônios são clássicas, em que o leitor se vê conseguindo imaginar as cenas com precisão. Atentem também para como a arte do Miura evolui da primeira edição para a quadragésima primeira (a última publicada). Ele começa trabalhando bastante com tons de preto e branco e no fim passa a apostar em cenografias precisas com o fundo sendo tão importante quanto os personagens que a habitam. Os designs de personagem são belíssimos e o design das armaduras e dos demônios são incríveis. Conseguimos encontrar símbolos e detalhes que fornecem outras simbologias aos personagens.



A narrativa de Berserk também é acima da média. Sei que é complicado, mas vamos deixar só um pouquinho de lado toda a polêmica da violência, da nudez e do estupro. Berserk conta a história de um espadachim solitário e amaldiçoado, tendo sofrido inúmeras perdas ao longo de sua vida, tornando-o um homem duro. Ele busca vingança contra Griffith, o líder do bando do Corvo, alguém que foi seu aliado no passado, mas que o traiu de uma maneira cruel. Estou sendo bastante simplista nessa sinopse, mas receio entregar demais da história. O mangá vai trabalhar com temas bastante pesados como a própria solidão de Guts que o acaba isolando da sociedade e o torna desconfiado para se relacionar com outras pessoas. Há também um questionamento sobre a natureza humana. Somos inerentemente malignos? Ou existem seres puros? Alguns personagens apresentados na obra são detestáveis, com ações cruéis e formas de se aproveitar dos outros que beiram à loucura. Há também uma reflexão sobre destino, e se somos guiados rumo a um caminho planejado seja pelos deuses ou por pessoas alheias à nossa vontade.


Costumamos falar sobre obras de fantasia sombria como Prince of Thorns (de Mark Lawrence), A Companhia Negra (de Glen Cook) ou O Ciclo das Trevas (de Peter V. Brett). Mas, antes de todos eles, com exceção da obra de Cook, veio Berserk. Esse emprego da fantasia a favor de uma reflexão sobre o lado obscuro do ser humano é típico desse tipo de obra. Com o aprofundamento da narrativa do espadachim Guts, algumas pessoas chegaram a questionar Miura se ele seria um pessimista em relação ao homem. O autor respondeu que precisava mostrar o lado obscuro do homem para que pudéssemos discutir entre nossos pares como podemos mudar, como podemos tornar nossa sociedade um lugar melhor. Embora eu discorde algumas vezes do meio que Miura emprega para chegar a essa reflexão, é inegável que ela faz sentido. Somente sujando nossas mãos que poderemos limpá-la um dia. Guts não é um personagem ideal; longe disso. Ele é uma pessoa sofrida que luta consigo mesmo em busca de uma resposta acerca de como encerrar um ciclo de violência que o cerca desde pequeno. Então sim, a narrativa é feita para causar desconforto, porque o autor não quer transformar o mal em algo apreciável. O inimigo não é alguém que o leitor vai se identificar. Seus atos são malignos o suficiente para nos repugnar. Talvez a melhor simbologia disso seja Griffith: um belo personagem de coração negro como as trevas. Seu aspecto atraente e sedutor não combina com suas ações de violência extrema.


Toda uma série de obras acabaram se inspirando na obra de Miura. Quem me vem logo à mente é o mangá Claymore de Norihiro Yagi que tem uma proposta semelhante, mas nos coloca diante de mulheres espadachins. Os temas também são bastante parecidos. Nos videogames temos a série Dark Souls que pega a estética e parte dos designs de Miura. Fato é que Berserk se tornou um fenômeno geek e trouxe essa dark fantasy para a frente. Miura não inventou a roda, até porque mangás desse estilo já existiam antes de Berserk. Só que o mangá ganhou proporções épicas graças à qualidade do desenho do autor, a personagens complexos e uma narrativa cativante. Isso fez com que outros mangakás repensassem a forma como eles estavam abordando os temas de mangás e buscando outro público-alvo. E que esse público existia e estava ávido por histórias.



Outra reflexão que devemos fazer é a respeito do ritmo de produção de mangás no Japão. Enquanto que no Ocidente novos capítulos de quadrinhos são publicados mensalmente, o Japão tem uma produção semanal. Isso implica em uma rotina desgastante para muitos deles, o que os coloca na mira de doenças e condições psicológicas. Críticas a esse modelo de produção já vem sendo feitas há décadas sem nenhuma solução encontrada. Não há algum tipo de organização com objetivos sindicais lutando pelos direitos dos mangakás. Ouvimos vozes dissonantes que expõem suas situações por vezes, mas estas acabam sendo esquecidas diante de uma indústria que cresce cada vez mais. As exigências se tornaram maiores e os fãs mais vocais nas redes sociais. Miura era criticado com frequência por conta de seu ritmo lento de produção nos últimos anos. Aproveitando o seu sucesso, o autor pôde ditar a frequência com que entregava novos capítulos do mangá. Os hiatos eram comuns e podiam ser de semanas, meses ou anos. Só isso já demonstrava que a saúde dele não era das melhores. E Miura pertencia a uma elite de mangakás que tinham a capacidade de fazer exigências ao lado de outros como Yoshihiro Togashi e Takehiko Inoue. O que aconteceu a Miura é um reflexo de uma rotina brutal.


Espero ter podido debater de forma respeitosa sobre o assunto e gostaria de ouvir a opinião dos leitores. Como foi o impacto da morte de Miura para você? Qual a influência que ele teve ou tem até hoje? E o que vocês acham desse debate sobre o ritmo de produções no Japão? Deixem suas opiniões nos comentários e celebremos a vida de um grande autor. Vai deixar saudades!



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Luca