• Paulo Vinicius

O Legado de um Autor: Premiações deveriam ter seus nomes modificados?

Duas premiações tiveram seus nomes modificados devido a polêmicas relacionadas à vida de seus autores. O que pensar disso? Isso afeta a memória do autor? Vamos refletir sobre algumas questões problemáticas envolvendo alguns ícones da ficção científica.



Certamente estamos diante de um ano cercado por polêmicas e debates. 2019 tem se revelado um ano para ficar para a história não apenas no Brasil, mas no mundo inteiro. A onda conservadora vem se chocando com a maré formada por quem defende a liberdade de pensamento. E isso acontece em várias áreas. Tirando as brigas e discussões infrutíferas, temos refletido bastante acerca de nosso papel dentro da sociedade. E é nesse sentido que algumas associações literárias vem repensado que tipo de exemplo elas tem dado a escritores aspirantes. Com esse espírito que, na ficção científica e na fantasia, alguns temas espinhosos vem sendo enfrentados. E isso tem afetado o teor de algumas premiações literárias que buscaram se afastar de algumas figuras.


Um dos casos diz respeito a John W. Campbell, considerado um dos maiores editores de ficção científica do século XX. Ele editou por décadas a Astounding, uma revista que publicou lendas do gênero como Isaac Asimov, Ray Bradbury, Frederik Pohl, Robert Heinlein. Hoje a Astounding mudou de nome por conta de um breve hiato e assumiu o nome de Analog e continua sendo uma revista importante. A Analog é a patrona do John W. Campbell for Best New Writer, uma premiação que busca revelar novos autores. Serve como uma vitrine para que estes possam alcançar novos mercados. A premiação de 2019 esteve envolta em polêmica. Jeanette Ng, a vencedora com o romance Under the Pendulum Sun, usou seu discurso de aceitação para criticar a figura de Campbell pelo modelo que ele criou para a ficção científica. Nas palavras dela: "obsoleto, estéril, machista, branco, exaltando as ambições dos imperialistas, colonialistas, colonizadores e industrialistas." Isso acabou fazendo com que a equipe editorial da Analog fizesse uma auto-avaliação sobre a premiação e optando por mudar o nome da premiação que a partir de 2020 se chama Analog Award for Best New Writer.


Campbell já havia sido alvo de críticas dez anos antes em um ensaio escrito por Samuel R. Delany que denunciou os posicionamentos do editor. Segundo Delany, ele exaltava a escravidão com uma forma de educação útil. Sendo editor, ele estava em uma posição de decisão sobre que tipo de material seria publicado na Astounding. Ele teria usado de sua posição privilegiada para dizer o que homens negros podiam ou não publicar em seus números. Campbell costumeiramente fazia comentários pejorativos sobre homossexuais, segundo Delany afirma em seu ensaio. Enfim, ele tinha inúmeras posturas questionáveis para a nossa sociedade contemporânea. O editor é fruto de seu tempo, um momento pós-Segunda Guerra, de muita perseguição ao diferente. A decisão da Analog foi vista como uma ofensa para inúmeros associações que viram nisso um sinal de tempos questionáveis. O fato é que a decisão da equipe editorial acabou sendo elogiada por autores como Alec Nevala-Lee que escreveu uma biografia sobre o polêmico editor.


Jeannette Ng (à esquerda) e John W. Campbell (à direita)

Mas, esse não foi o único prêmio que teve seu nome modificado. Um mês depois, o site Boing Boing fez uma matéria em um tom até mais leve brincando com a possibilidade de outros prêmios terem seus nomes modificados por conta do passado questionável de seus autores. Logo de cara, o nome que se destacou foi a de James Tiptree Jr., pseudônimo de Alice Sheldon. Alice é um dos nomes mais famosos entre mulheres que escreveram ficção científica, ao lado de nomes como Úrsula K. Le Guin, Octávia E. Butler, Leigh Brackett e tantas outras. Com uma escrita sutil e uma habilidade única para criar narrativas imaginativas, ela conquistou o mundo com romances como "The Girl Who Was Plugged In". Particularmente eu adoro a ficção curta de Tiptree e inclusive já resenhei algumas aqui no Ficções (link aqui). Mas, os seus últimos dias foram marcados por uma terrível sucessão de acontecimentos trágicos. Ela passou a sofrer com problemas cardíacos e um quadro grave de depressão. Em seus últimos romances isso fica mais claro por conta dos temas que ela passou a abordar como a mortalidade, a transcendência e um pessimismo quanto à nossa própria existência. Seu marido ficou cego pouco tempo depois. Em seu diário (em uma entrada em 1979), Tiptree afirma que ela e o marido teriam concordado em um duplo suicídio caso seus quadros de saúde piorassem. Em 1987, ela atirou no marido, ligou para o advogado afirmando que ambos concordaram em cometer suicídio, e se matou.


Esse "acordo" teria obscurecido o fato de que a autora era preconceituosa em relação a deficientes físicos. Julie Philips, a biógrafa de Tiptree, colocou o questionamento de se a morte do casal teria sido um suicídio ou um assassinato seguido de um suicídio. Não há indícios totalmente conclusivos acerca das duas situações. E essa dúvida fez com que a equipe que administra a premiação revisse seus conceitos acerca do mesmo. Um dos objetivos da premiação é homenagear as minorias, e isso inclui aqueles que sofrem de algum tipo de deficiência. Se a própria designação do prêmio tem como patrono alguém que, de alguma forma, demonstrou algum tipo de preconceito a pessoas deficientes, não faz sentido mantê-la. Esse foi o raciocínio da equipe. A partir de 2020, o Tiptree Awards vai receber o nome de Otherwise Awards.


Críticos da decisão questionam o fato de que dessa forma muitos leitores não irão conhecer o legado deixado por Tiptree. Tudo por conta de uma possibilidade sem base em dados concretos, apenas na dúvida. E aí entramos na questão proposta nesta matéria: será que isso é direito? Não estaríamos manchando o legado deixado por tais autores? A resposta para isso não é tão simples quanto parece. Me colocando nesta questão, tudo depende da premiação e o que ela pretende passar para aqueles que se espelham nela. A decisão a respeito de John W. Campbell foi a mais lógica. Campbell era uma figura que, com frequência, se colocava em situações onde suas frases acabavam não espelhando a opinião daqueles ao seu redor. Entre os seus biógrafos, ele era considerado um falastrão. Não é de bom tom uma premiação que lida com autores aspirando um lugar ao sol, se verem colocados ao lado de alguém cujas opiniões sobre o diferente eram tão pejorativas. Vamos pensar que alguns dos últimos vencedores do prêmio vem de minorias: Rebecca Roanhorse é uma nativa americana, Sofia Samatar é somali, Wesley Chu é de Taipei, Nalo Hopkinson é jamaicana. Então, para mim, essa era uma decisão esperada e muitos autores já vinham criticando a premiação há alguns anos.


O caso de Tiptree é mais complicado. Não sei dizer se a decisão foi acertada, mas creio que a equipe preferiu adotar uma postura mais preventiva. Claro que essa decisão foi bastante motivada pelo caso de Campbell de alguns meses antes. Se não houvesse um antecedente, não haveria essa questão. A repercussão ocorrida na matéria escrita no site Boing Boing foi imensa, o que também contribuiu para isso. Como leitor de clássicos, isso em nada vai interferir o meu gosto pela prosa lírica de Tiptree e nem vai me fazer apreciar menos o seu legado. E vocês? O que pensam disso?


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