• Paulo Vinicius

O jogo da vida em Jaku-Chara Tomozaki-kun

Tomozaki é viciado em um jogo chamado Tackfam e por conta disso acabou se isolando socialmente. Ele acredita que o jogo no qual ele é um mestre é um game divino e ele não vê graça em estabelecer relações sociais. Até que ele conhece Hinami, uma adversária de peso e mestra na arte do jogo da vida.



A vida pode ser mais complexa do que parece em um primeiro momento. Repleta de desenvolvimentos e variáveis, é impossível prever o que vai acontecer no momento seguinte. Mas, é possível criar estratégias que possibilitem criar situações. Seja através de uma produção estética, ou de usar frases que possam formar assuntos a serem comentados entre um grupo de amigos. E essa compreensão de como funciona o cotidiano é que vai nos colocar diante de um garoto chamado Tomozaki, um garoto viciado em um jogo chamado Atack Families (parecido com o Smash Brothers) e que vê nas relações sociais algo tedioso e sem graça. Por essa razão ele não se dedica a criar relações com outras pessoas e foi deixado de lado pelos seus colegas. Em suas disputas no Tackfam (o apelido do jogo) ele conhece um player chamado noname. E um dia ele combina de se encontrar com noname para trocarem ideias sobre o jogo que eles tanto curtem. É aí que ele descobre que noname na verdade é Aoi Hinami, uma garota que frequenta a mesma escola que ele e está matriculada na mesma classe. E Hinami se prontifica a ensinar Tomozaki como lidar com as relações sociais. Segundo ela, a vida é um jogo e somente aqueles preparados podem conseguir se dar bem nela.


Jaku-Chara Tomozaki-kin ou Bottom-tier Character Tomozaki é uma animação baseada em uma light novel escrita por Yuki Yaku e que é publicada desde 2016 e conta com 9 volumes até o momento. Nos EUA ela é publicada pela Yen Press. A light novel foi adaptada em um mangá de Eight Chida que é publicado pela Square Enix em sua revista Gangan Joker. O mangá tem 5 volumes até o momento. O anime estreou na temporada de janeiro contando com 12 episódios. A direção é de Shinsuke Yanagi e o roteiro foi adaptado para série por Fumihiko Shimo (famosa por Fairy Tail). O estúdio foi o Project Nº9 e caso vocês fiquem curiosos para assistir, ele está disponível no streaming da Funanimation. Foram adaptados os 3 primeiros volumes da light novel, ou seja, tem muito material ainda para adaptar. A animação não é nada excepcional até porque uma comédia romântica não exige tanto dessa parte. Mesmo assim, o estúdio entrega um material decente e o design dos personagens está bem legal. Cada um é bem diferente um do outro. A trilha sonora não compromete e consegue se encaixar de forma adequada aos momentos mais dramáticos ou mais leves do anime. Não é aquele anime que vai mudar sua vida e até acho que outros animes do mesmo estilo conseguem entregar melhor do que Jaku-Chara Tomozaki-kun, mas mesmo assim a história consegue ser divertida e intrigante ao mesmo tempo.


A dinâmica central do anime está no bate-bola entre Tomozaki e Hinami. A garota funciona como uma espécie de "sensei" para o protagonista. E é curioso que o anime consegue criar uma estrutura de problemas da semana ou missão da semana. Quem assistiu no ritmo de lançamentos ficava preso à narrativa porque ela meio que entregava episódios fechados no começo até o arco da eleição para presidente de classe. E o espectador vai sentindo o personagem crescer lentamente a cada novo episódio. Sim, esse crescimento é devagar e a cada novo episódio é como se o Tomozaki tateasse o caminho pelo qual ele estava seguindo. Era bem engraçado ele testando o que ele aprendeu de forma bem desastrada no episódio seguinte. A completa falta de tato do protagonista tornava os episódios mais leves. A gente só vai ver o Tomozaki se "normalizando" lá pelo final desta temporada. Ao mesmo tempo em que é legal ver o protagonista se transformando, a narrativa esconde bem uma contradição mais e mais explícita a cada novo episódio. Até que ela estoura no final da temporada.



Tomozaki é o típico gamer viciado japonês. Recluso, se torna antissocial porque não vê graça nas relações sociais. Ou simplesmente não consegue se relacionar bem porque se sente diferente. Quando ele conhece Hinami e percebe que ela é o oposto dele, Tomozaki toma um choque. Ela é popular, estudiosa, desejada por vários colegas e causa inveja em outras garotas que desejam ocupar o seu lugar. Tudo isso sendo uma jogadora de Tackfam no mesmo nível do protagonista. Isso causa insatisfação no coração dele. Como ela consegue ser tão eficiente? Qual é o segredo dela? Hinami acaba convencendo-o a dar uma chance ao "jogo da vida" e perceber que ele é o jogo supremo. Os dias de Tomozaki passam a ser preenchidos por pequenas missões passadas a ele por Hinami; algo quase como um RPG em que ele precisa vencer missões para conseguir níveis. Os objetivos começam bem genéricos como conversar com uma pessoa, fazer 5 perguntas, andar junto com uma pessoa voltando para casa. E aos poucos vão se tornando mais e mais complexos até o momento em que Hinami coloca para ele o objetivo de namorar uma menina até o final do verão.


A personalidade de Hinami é bem complicada de entender. Ao longo dessa temporada, a personagem funciona como uma espécie de pedestal a ser alcançado. Não à toa ela é vista com carinho por alguns e inveja por outros. Só que algumas coisas começam a ficar estranhas à medida em que a temporada passa. Hinami tem uma personalidade bastante artificial. O que ela passa para o Tomozaki é o que ela faz por si mesma. Como uma máscara que ela usa boa parte do tempo. Acaba que não conseguimos saber como a personagem é de verdade. Como se a Hinami fosse uma pequena raposa que se adapta ao ambiente em que ela se encontra com extrema facilidade. Para aqueles que começam a se relacionar mais a fundo com ela, Hinami vai parecer bem evasiva e pouco verdadeira. Esse lado dela fica mais visível durante a eleição para presidente em que Tomozaki tem como missão ajudar a Minami a vencer a Hinami.


Outros personagens vão entrando na vida de Tomozaki e ajudando-o a crescer. A primeira delas é a Minami embora ele tenha tentado se relacionar com a Izumi, uma garota que parece também curtir o Tackfam. Mas, tendo falhado com a Izumi, embora tenha conseguido ajudá-la de certa forma, Tomozaki desenvolve uma amizade bem legal com a Minami, ou Mimimi para os seus colegas. Minami tem uma personalidade feliz e estranha o que talvez tenha ajudado na aproximação entre os dois. E ter a Hinami como ponto em comum pode ter sido um fator decisivo. Tomozaki acaba precisando desenvolver um pouco de tato com a Minami, o que se torna uma missão bem complexa dada a estranheza da personalidade dela. A gente descobre, por exemplo, que Minami tem uma rivalidade saudável com a Hinami. Mas, ela se torna uma obsessão depois de um tempo e Tomozaki precisa agir e entender o motivo por trás das atitudes de sua nova amiga. Tem uma cena muito legal na estação de trem em que ela expõe seus sentimentos a respeito de sua amiga de uma forma honesta para Tomozaki e Tama, sua amiga mais próxima.



Até aí Tomozaki entende apenas que Hinami é uma mulher de muitos recursos. E que sua dedicação é fora do normal para tudo aquilo que ela faz. Mas, ele começa a reparar em algumas coisas dissonantes quando se relaciona com uma simpática garota chamada Fuka. É curioso que Tomozaki tinha como missão conversar com a Izumi, mas acaba desenvolvendo uma amizade com a Fuka. E nem percebe o quanto é correspondido por ela. Fuka é uma garota reservada, que gosta bastante de ler e, assim como Tomozaki, tem bastante dificuldade para se relacionar com as pessoas. Durante uma das missões dadas por Hinami, ele mente a ela dizendo ser fã dos livros de Michael Ande (acredito ser uma homenagem a Michael Ende, o escritor de História sem Fim) para se aproximar dela. Mas, nosso protagonista não consegue mentir adequadamente, mas Fuka acaba não se importando muito com isso. As aproximações de Tomozaki são retribuídas ao quadrado por Fuka que a gente percebe ter um crush no nosso protagonista sem tato. A percepção de que algo das lições de Hinami está errada acontece durante um encontro entre Fuka e Tomozaki. Sem entrar em detalhes para não dar spoilers, ele percebe que ao usar algumas das coisas da Hinami, estas não funcionam exatamente. Ou produzem resultados que não combinam com ele.


E é aí que chegamos à nossa reflexão. A vida é um jogo? Podemos simplesmente criar estratégias para causar reações nas pessoas? Uma das táticas bizarras da Hinami é o famoso bloco de assuntos. Ela dá a ele um pequeno bloquinho de anotações (que ela usava) com vários temas que podem ser inseridos no meio de uma conversa. Quase como prompts de escrita usados por escritores para dar ideias para um livro. Segundo ela, é possível criar conexões entre os diversos temas do bloquinho. Ou até gerar reações baseadas nele. Existe toda uma disciplina estética de forma a construir reações específicas de outras pessoas em relação a si. Mas, construir relações não é algo tão artificial assim. É algo intuitivo criado a partir das relações no dia-a-dia. Coisas podem acontecer de forma inesperada. Mesmo em um ambiente como a escola. Criar situações para gerar reações te torna uma pessoa manipuladora e sem personalidade. É isso o que Tomozaki começa a perceber a respeito de Hinami. Claro que ele imagina ser apenas uma impressão, que vai se tornando mais e mais forte com os episódios se seguindo. Ao final, ele tem uma conversa franca com Hinami que deixa sementes para serem desenvolvidas em uma possível segunda temporada. Por enquanto não temos ideia se vai haver uma segunda, mas tudo indica que sim porque a recepção foi positiva e uma versão dublada em inglês foi encomendada pela Funanimation.


E aí, o que acharam da série? Deixem aí nos comentários.




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