• Paulo Vinicius

O anime 86 e o terror da guerra

Em um futuro, duas nações se enfrentam em uma disputa pela hegemonia. A República de San Magnolia emprega Juggernauts, uma espécie de robôs criados para combater os Legions, os seres robóticos usados por Giad. Só que essa guerra não é travada por robôs contra robôs. Os Juggernauts são pilotados por humanos, mas ninguém sabe disso.



Com uma temporada de abril marcada por muitas séries de destaque, 86 vai ficar marcado como aquele anime que passou fora do radar dos fãs. E é uma pena porque ele tem uma narrativa atual e bem explorada em seus episódios. Em um momento em que discutimos sobre a desinformação e o controle da opinião pública, o anime mostra um lado sombrio das estratégias militares. Uma república que parece utópica, mas que lá no fundo espalha uma escuridão profunda que não fica tímida em desperdiçar vidas em prol de um status quo falso. Pior, o anime chama a atenção para um futuro não muito distante em que parece que as máquinas vão lutar por nós. Mas, isso não é bem verdade. Até onde iremos para manipular a tecnologia da guerra? Existe uma guerra limpa e justa, ou só estamos tentando enfeitar um pavão com belas penas?


86 é a adaptação da light novel escrita por Asato Asato e ilustrada por Shirabii. Ela foi publicada pela ASCII Media Works em um selo de publicações chamado Dengeki Bunko, tendo sido iniciado em 2017 e continua até hoje com 10 volumes publicados. O mangá veio um ano depois, mas por uma editora diferente: a Square Enix abraçou o título em sua revista Young Gangan e até o momento o mangá conta com apenas três volumes. A classificação do mangá consta como sendo um seinen, e é totalmente compreensível o motivo. É uma história bem mais adulta e que vai tocar em alguns temas pesados como preconceito, limpeza étnica, sociedade de controle, vingança. O sucesso do mangá e do anime foram tamanhos que eles ganharam não um, nem dois, mas três spin-offs, todos com roteiros de Asato Asato: 86 - Operation High School (ilustrado por Suzume Somemiya, de 2020, com um volume), 86 - Run Through the Battlefront (ilustrado por Hiroya Yamazaki, de 2021, com um volume) e o mais recente é um prequel do anime chamado 86 - Fragmental Neoteny (ilustrado por Shinjo Takuya, de abril de 2021 e sem um volume fechado ainda). A animação foi produzida pelo famoso A-1 Pictures (de SwordArt Online, Ao no Exorcist, Fairy Tail e outros) com a direção de Toshimasa Ishii (de Fate/Grand Order: Babylonia e Granblue Fantasy), produção de Nobuhiro Nakayama (de Dungeon ni Deai e Shakugan no Shana) e roteiro adaptado por Toshiya Ono (de Ao no Exorcist e Houseki no Kuni). O anime tem 22 episódios em um sistema split coeur, ou seja, divide-se em duas "temporadas" que se passa em épocas diferentes. A primeira "temporada" terminou com 11 episódios, e a próxima com o restante dos episódios ainda não foi anunciada.


Falando sobre a animação em si, ela é de alto nível. O A-1 Pictures caprichou nos efeitos e tudo parece bem redondinho. O design de personagens está bem bacana e principalmente o visual dos mechas que integram a série são bem variados. As cenas de ação são bem produzidas com momentos bem tensos e emocionantes. A série usou uma estratégia narrativa bem legal dividindo os episódios em dois núcleos: o da major Milize que mostra os bastidores do poder em San Magnolia e a luta dela para ajudar a sua equipe e a do Shin com os 86 lutando contra os Legion. Quase todos os episódios segue essa estrutura, ora começando com a Lena, ora com o Shin. Há sempre uma alternância entre eles. A trilha sonora também é bastante competente e consegue se relacionar bem com as cenas. Se Vivy Fluorite não fosse algo tão de outro nível, diria que é 86 possui o melhor conjunto de animação das séries dessa temporada.


A história se passa na República da San Magnolia que está há vários anos em guerra com a nação de Giad. Só que San Magnolia está perdendo a guerra porque Giad desenvolveu um equipamento robótico chamado Legion, que funcionam de maneira remota e coordenada. Os grandes estrategistas de San Magnolia não conseguem compreender como a Legion funciona e para combater o avanço do inimigo eles desenvolvem o seu próprio equipamento autônomo chamado Juggernaut. O princípio de funcionamento é o mesmo, mas a propaganda governamental coloca o meio como mais seguro e civilizado já que a guerra estaria sendo combatida por robôs, sem o envolvimento e morte de seres humanos. Os Juggernauts são controlados por Controladores, cidadãos de San Magnolia que vão a suas pequenas salas e comandam os esforços de guerra, dando instruções aos equipamentos robóticos. A Major Milize é a filha de um figurão dentro do exército e é destacada para tomar conta de uma companhia de Juggernauts. É então que ela descobre a verdade sobre a guerra: os Juggernauts são movidos por cidadãos do distrito 86, um distrito considerado inexistente entre os 85 de San Magnolia. Aqueles que moram lá não possuem nenhum tipo de direitos, sendo manejados para esquadrões de Juggernauts. Milize vai controlar o esquadrão considerado mais difícil de todos, comandado por um 86 que tem o apelido de Shinigami. Nenhum Controlador até hoje conseguiu lidar com ele direito e reter sua sanidade.



Desde o começo da narrativa, algumas coisas não se encaixam e o espectador fica coçando a cabeça sobre o que é. E logo no primeiro capítulo as coisas começam a ficar bem feias. Como mencionei na sinopse acima, o distrito 86 não é reconhecido por San Magnolia, sendo seus cidadãos desprovidos de opinião, liberdade ou direitos. Mas, tem um agravante. Todos os cidadãos que moram nos 85 distritos são seres belos, de cabelos azuis, pele branca e olhos claros. Já os do distrito 86 são mais variados. Ou seja, houve uma limpeza étnica na república e todos aqueles que não fossem considerados puros foram enviados ao 86º distrito para ir à guerra. O governo de San Magnolia é altamente militarizado com poucas informações sendo divulgadas à população. Aliás, o anime é muito feliz ao retratar duas realidades completamente opostas: a do campo de batalha, sujo, sangrento e cruel onde pessoas morrem todos os dias e são deixadas à mercê da Legion; e o da capital de San Magnolia, um ambiente claro e idílico onde as pessoas vivem despreocupadas com aquilo que acontece longe das cidades. Apesar de ser uma república, San Magnolia tem todos os contornos fascistas que começam a ficar mais claros quando Milize descobre várias realidades cruéis sobre o que realmente está acontecendo.


A informação é completamente manipulada e distorcida pelos veículos oficiais. A gente percebe pelo comportamento dos cidadãos que a guerra está indo muito bem, obrigado, e mesmo os militares de baixa patente vivem uma vida despreocupada. Mesmo antes de saber sobre quem pilota os Juggernauts, Milize já se ressentia pela postura desregrada de pessoas que deveriam estar atentas aos esforços de guerra. O que vemos são soldados bebendo cerveja, fazendo comentários misóginos em direção a Milize. Me fez lembrar a Berlim dos últimos dias de Segunda Guerra Mundial, quando os soldados de Hitler viviam uma existência completamente à parte do que estava realmente acontecendo. Quando a major vai pouco a pouco compreendendo as camadas da sujeira e da podridão governamental, membros do alto escalão fazem o possível para sabotar os seus esforços. Ela só não é mais atacada por conta de sua ligação com uma figura importante do Parlamento local.


Existe um forte preconceito contra os cidadãos do 86º distrito. Mesmo quando eles viviam juntamente com os demais, havia uma série de esforços sendo realizados para considerá-los membros de segunda classe. A eles eram reservados apenas cargos menores ou subalternos. Quando a guerra contra Giad começa, o governo realiza uma campanha de afastamento e censura ao contato entre os membros de uma elite de cabelos azuis e o resto da população. Amizades foram desfeitas, direitos foram retirados. É curioso a gente perceber na fala dos militares que conhecem a verdade como tais indivíduos são sequer entendidos como pessoas. Suas vidas não tem valor por não pertencerem a uma etnia específica. Provavelmente os leitores já ouviram esse discurso, não é? Os primeiros cinco episódios são revoltantes de um ponto de vista filosófico e o quanto os 86 são desumanizados. Pior, a narrativa é muito sagaz ao fazer com que nós criemos vínculos com os personagens da companhia de Shin. Enquanto de um lado só temos Milize lutando contra o sistema, do outro aprendemos a conhecer todos os membros da companhia. Seus amores, suas tristezas, suas alegrias e sua relação um com o outro. O governo prometeu aos membros de todas as companhias que eles poderiam deixar o serviço militar se resistissem a cinco anos de guerra. Talvez o que mais doa é que fica bem claro que não só eles não vão resistir como eles próprios já se entendem como pessoas mortas.



Inicialmente a relação de Milize com a companhia é bem difícil. Imagine você fazendo o seu papel em uma guerra (algo que você não pediu) e sendo controlado e ordenado por alguém de uma etnia que renega a sua existência. Milize representa tudo aquilo que Shin e os demais odeiam do fundo do coração. Novamente somos tocados porque percebemos as atitudes puras e sinceras de Milize, diferentemente de seus compatriotas. Mas, todas as críticas que ela recebe, ela compreende e aceita. Porque é culpa dela, de forma indireta, pelo sofrimento que todos estão passando. Milize (ou Lena) começa a ter como hábito conversar com a companhia todas as noites de forma a aumentar sua moral. Esqueci de mencionar que todos os Controladores usam um equipamento preso às suas orelhas que permitem a eles conversar diretamente com todos os membros de sua equipe. Como o equipamento funciona exatamente, não temos uma informação precisa. Mas, voltando a falar sobre a relação entre Lena e a companhia, nada consegue ser mais claro do que quando Theo, um dos membros da companhia, solta todas as suas frustrações em cima de Lena após a perda de um companheiro querido. Todo o preconceito dos Alba (a etnia de Lena) contra os 86, as mortes evitáveis, a forma como eles são desumanizados... tudo para que os Alba possam ter uma vida confortável. Não existe uma preocupação acerca do destino daqueles que estão na guerra porque eles não existem. Não oficialmente.


Shin, o comandante desta companhia, possui também uma história triste. É um dos comandantes mais antigos dentre aqueles que sobreviveram à guerra. Seu irmão mais velho fazia parte também de uma companhia e foi até responsável por salvar Milize em uma oportunidade quando ela era pequena. Mas, a pressão e desesperança vindas da guerra fizeram com que o irmão de Shin ficasse desesperado e culpasse o irmão pelas desgraças que se abateram sobre sua família. Um dia, seu irmão tenta matá-lo enforcado deixando uma marca no coração e no pescoço de Shin para sempre. Ele acabou morto pelos Legions, mas seu corpo nunca foi encontrado. O personagem é chamado de Shinigami (ou Undertaker) porque ele é responsável por carregar junto com ele um pedaço do Juggernaut de todos os que foram mortos. Além de ser responsável por eliminar completamente as funções cerebrais dos que morreram com um tiro de misericórdia.


Essa postura de Shin se deve ao fato de os Legion serem movidos através das ondas cerebrais de soldados mortos. O cérebro é usado como parte da Inteligência Artificial que coordenada os movimentos dos robôs. E isso produz um efeito cruel: a memória daqueles que foram mortos é repetida pelos Legions que funcionam quase como um esquadrão fantasma. Chega a ser uma artimanha empregada por Giad para causar um golpe moral em todas as companhias de 86. Ouvir seus companheiros mortos sendo assimilados pelos robôs inimigos. Como são Legions sem liberdade, sendo controlados por alguém na nação inimiga, eles são cascas vazias do que um dia foram pessoas de carne e osso. Mas, dentro dos Legions existe uma lenda que fala sobre alguns deles que ganharam uma consciência distorcida e cruel chamados de Padres. Estes são extremamente temidos porque possuem uma vontade própria para matar e destruir todos aqueles que estão vivos com uma sagacidade maligna.


O que destaquei para vocês é apenas uma ponta do iceberg do que é o anime. Uma história madura, que explora pontos cruéis da guerra e de um governo ditatorial que controla o volume de informações. Mas, pior: será que se as informações fossem liberadas a maioria Alba se preocuparia realmente com o destino da minoria 86. Esta é uma animação que se diferencia das demais, mas infelizmente acabou obscurecida por uma temporada repleta de outros destaques. Recomendo demais que todos assistam e curtam esse excelente trabalho da A-1 Pictures.



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